// antes de qualquer coisa
Você acha que o seu problema é falta de sinal. Não é.
Você já fez um curso básico. Talvez tenha feito o avançado, talvez uma pós em tradução e interpretação, e saído de lá com o diploma na mão e a sensação de não saber fazer nada.
Você já parou um vídeo no meio pra copiar um sinal que não conhecia. E você já desviou de um surdo na rua, não por falta de vontade, mas porque sabia exatamente o que ia acontecer se ele começasse a conversar com você.
E é exatamente por isso que eu não vou começar te oferecendo mais uma lista de sinais.
Se você já estudou, sinal você tem: você tem mais sinal salvo no celular do que usa numa semana inteira. E se você está começando agora e sinal é justamente o que falta, presta atenção nisto, porque é o que ninguém te conta antes: sinal é a parte que se aprende rápido…
…O que trava as duas pessoas, a que tem mil sinais e a que não tem nenhum, é a mesma coisa, e não é vocabulário.
O caminho até a fluência é mais curto do que te fizeram acreditar
"Aprender Libras" soa grande demais pra você fazer hoje. Por isso você nunca começa hoje.
Mas olha o tamanho real do caminho. Todo sinal que existe em Libras é feito com cinco peças, sempre as mesmas cinco, e a gramática visual segue um padrão mais regular do que a do português…
…E quase tudo que te trava na frente de uma pessoa surda cabe num punhado de erros de construção de frase, que se repetem na mão de quase todo mundo.
Você não precisa dar conta de uma língua de sinais inteira de uma vez. Você precisa saber qual desses erros é o seu, em que ordem consertar, e o que treinar depois de consertar.
1Configuração de mãoo formato que a mão faz
2Ponto de articulaçãoonde no corpo o sinal acontece
3Movimentocomo a mão se desloca
4Orientação da palmapra onde a palma aponta
5Expressão facial e corporalo que dá o sentido e a intensidade
Todo curso para nesses cinco. Errar um muda a palavra inteira.
MAS não são cinco. Em nossas pesquisas descobrimos mais dois, e muitas vezes é neles que mora a trava de muita gente. É difícil consertar o que você nem sabia que existia.
CursoTe deu sinal.
Ninguém olhou a sua mão. Faculdade e pósTe deu teoria e diploma.
Ninguém olhou a sua mão. O que faltouAlguém que olhe e diga o que está errado.
É disto que esta página trata. Você pagou pelas duas primeiras.
A terceira você nunca comprou.
O problema nunca foi a sua dedicação. Dedicação você provavelmente já teve de sobra, e o resultado foi o mesmo. O problema é que ninguém nunca te disse, com todas as letras, o que estava certo e o que estava errado na sua Libras.
O curso não diz. A faculdade não diz, e a pós menos ainda: lá você escreve sobre a Libras, lê sobre a Libras, faz prova sobre a Libras, e sai com quatro semestres de teoria e quase nenhuma hora de mão no ar sendo corrigida.
O colega tem medo de dizer.
E quando outro intérprete resolve dizer, costuma vir seco, na frente de todo mundo, e sem o passo seguinte: você sai sabendo que errou e continua sem saber o que fazer com isso.
E a pessoa surda não diz porque ela não precisa dizer: muitas vezes ela decifra o seu português sinalizado no ar, na hora, e parece fazer isso tão bem que você acha que se comunicou…
…Mas português sinalizado não é Libras. E a maioria das vezes o surdo vai entender errado o que você tentou dizer. Porém ele não sabe disso. Nem você…
…E como ninguém te avisa disso, você sai da conversa achando que a sua Libras está boa.
Eu sei disso porque eu passei oito anos exatamente aí.
- 1
Quando comecei a aprender Libras aos 13 anos
Achei que seria simples, mas logo percebi que estava muito enganado. O que parecia uma jornada rápida acabou se transformando em um caminho cheio de obstáculos.
Eu ficava fascinado vendo os surdos conversarem de forma tão rápida e natural, como se fosse a coisa mais simples do mundo. E quando eu olhava para os intérpretes, era como ver magia acontecendo.
Isso me inspirou a aceitar o maior desafio da minha vida até então: interpretar uma música de Natal na igreja, diante de um auditório lotado.
Passei o final de semana inteiro ensaiando. No grande dia, enquanto eu subia ao palco, meu coração disparava e minhas mãos suavam tanto que era difícil controlar os sinais.
Mas o pior foi perceber que, por mais que eu me esforçasse, os surdos não conseguiam me entender. Eles simplesmente desviaram o olhar para o telão, preferindo ler a letra da música. Foi muito frustrante... senti que eu tinha fracassado...
- 2
O dia em que apenas 2 de 55 funcionários me entendiam
Mesmo depois de concluir vários cursos intensivos, incluindo um treinamento de 18 meses em uma das instituições mais renomadas para surdos, eu ainda me sentia inseguro…
…Essa insegurança ficou ainda mais clara quando fui convidado a assumir um cargo de confiança, coordenando 55 funcionários surdos em um órgão público em Minas Gerais.

Logo na primeira reunião, apenas 2 dos 55 funcionários conseguiam me entender, e o pior de tudo é que eles precisavam me ajudar a interpretar para os outros. A sensação de fracasso foi devastadora.
- 3
Por que eles não me entendiam
Eu fui atrás da resposta, e ela não estava em nenhum dos cursos que eu já tinha feito.
O jeito que aqueles 55 funcionários se comunicavam era diferente de tudo que tinham me ensinado. Eu montava a frase em português dentro da cabeça e ia traduzindo palavra por palavra com as mãos.
Isso tem nome, e é o mesmo nome que eu uso até hoje: português sinalizado. Não é língua de sinais. É português com as mãos por cima.
Português sinalizadoA frase montada na ordem do português, sinal por sinal.
Quem faz o esforço de traduzir é a pessoa surda LibrasA mesma ideia na ordem visual, com uso do espaço e expressão marcados.
A comunicação acontece na língua dele Português sinalizado e Libras podem até parecer a mesma coisa de fora. Só uma das duas é língua de sinais, e é a única em que a pessoa surda não precisa quebrar a cabeça pra tentar te entender.
Não faltou professor bom no meu caminho. Faltou alguém que olhasse a minha sinalização, apontasse a frase exata onde eu saía da Libras e entrava no português sinalizado, e me dissesse o que fazer na semana seguinte.
Em seis anos de cursos, de igreja e outros, essa pessoa não apareceu.
Eu tive que virar essa pessoa pra mim mesmo. Depois virei ela pra minha mãe. Hoje eu sou ela pros meus mentorados.
Só que descobrir o que estava errado não foi o fim do caminho. Foi só o começo dele. Levei mais dois anos pra desaprender o jeito errado e aprender do jeito certo, e não foi porque a Libras seja difícil: foi porque eu não tinha quem me orientasse, me desse feedback, me dissesse "isso aqui já pode, isso aqui ainda não". Foi um labirinto sem mapa.
E foi ali que eu comecei a desenhar o que hoje é o Mapa da Libras: não uma lista de sinais, mas a ordem certa das coisas, com o nome de cada erro e o passo seguinte de cada um.
Foi nessa época que comecei a namorar Raquel, que hoje é minha esposa. Somos casados há mais de 16 anos.
Raquel é surda, e isso fez com que a nossa comunicação fosse ainda mais importante para mim. Ela observava cada sinal que eu fazia, com uma paciência incrível, e me mostrava, de maneira gentil, como melhorar.
- 4
Uma conexão que começou antes de eu aprender o primeiro sinal
Desde que eu era criança, meus pais me contavam uma história do meu nascimento: eu nasci depois de uma gestação de mais de 10 meses (45 semanas), o que causou muita preocupação nos médicos.
Eles chegaram a sugerir o pior: que meus pais considerassem o aborto, com medo de que eu nascesse surdo ou com algum tipo de deficiência. Mas a resposta da minha mãe foi firme e cheia de amor:
"Vamos amar nosso filho como ele for. E, se ele for surdo, vou aprender a língua de sinais para me comunicar com ele."
As palavras da minha mãe ficaram gravadas profundamente no meu coração, e desde então eu sabia que minha jornada com a Libras seria muito mais do que apenas aprender uma nova língua de sinais.
- 5
Minha mãe fluente em menos de um ano
Minha mãe queria muito se comunicar melhor com Raquel, então me pediu para ensiná-la Libras. Eu e Raquel decidimos ensinar de um jeito diferente, algo mais prático e focado na realidade dela…
…Em menos de um ano, minha mãe já era fluente e até começou a interpretar para uma surda na igreja dela.
Durante esse processo, acabamos descobrindo algo novo: sem perceber, estávamos criando uma forma mais intuitiva e eficaz de ensinar Libras, uma abordagem que, mais tarde, seria a base do método que desenvolvemos.
Investimos mais de 11 anos em pesquisas para entender como minha mãe conseguiu resultados tão rápidos, mesmo enfrentando problemas de saúde e depressão…
…O resultado desse esforço foi a criação de métodos inovadores, que deram origem a nossos livros e ao Libras em Jogo.
Com o tempo, nos tornamos referência em todo o Brasil: nossos livros foram adotados em escolas, faculdades, pós-graduações e até em concursos públicos.