Pular para o conteúdo

Curso de Libras

Fiz curso de Libras e continuo travando: por que acontece e como sair disso

Por Madson Barreto

Quem fez curso e trava diante de surdos quase nunca tem problema de capacidade. O problema é de direção, e dá para corrigir a rota.

Madson Barreto

Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

Publicado em
Tempo de leitura
8 min de leitura

Quem fez curso de Libras e continua travando diante de surdos quase nunca tem um problema de capacidade. O problema é de direção: "básico" não tem uma definição única, e estudar muitos sinais sem chegar à conversa deixa a pessoa meses sem sair do lugar. O primeiro passo é medir se o seu jeito de estudar leva à conversa. O segundo é corrigir a rota sem se culpar.

Por que você continua travando mesmo depois de fazer um curso de Libras?

Porque fazer o curso e chegar à conversa são coisas diferentes. A palavra "básico" cobre conteúdos distintos em cada lugar, e o estudo pode somar sinais sem formar a base que a comunicação pede. Quem trava nessa situação costuma se culpar, e o problema quase nunca é a pessoa.

Eu converso com muita gente que fez o básico 1, 2 e 3, alguns fizeram pós-graduação, outros chegaram ao intermediário e ao avançado, e todos relatam a mesma cena: a pessoa surda sinaliza, e a cabeça dá branco. No meio disso, a conclusão que sai é sempre a mesma: "o problema sou eu".

Não vejo assim, e não estou dizendo que o curso foi mal dado nem que o professor errou. Na minha leitura, em algum ponto lá do começo, sem perceber, a pessoa entrou num caminho que não levava à conversa. Quem pega um caminho assim estuda com dedicação e não chega. Dá para corrigir a rota, e esse é o assunto das próximas seções.

Madson Barreto.
Madson Barreto.

O que quer dizer "básico" em um curso de Libras?

Depende do lugar. Não existe um acordo sobre o que é básico: quem tenta passar para o módulo seguinte de outro lugar costuma descobrir que o conteúdo não encaixa. A base mais útil é a que atende a situação em que você precisa se comunicar.

Pense na base de uma casa. Se ela não está bem feita, as paredes puxam umidade, o segundo andar não se sustenta e o conserto sai caro. Nas línguas é parecido. Na minha experiência, quem sabe só o "básico" de inglês não consegue assistir a um filme nem ler uma manchete. Com a Libras, o efeito pesa ainda mais: no encontro com uma pessoa surda, o pouco que se sabe não dá segurança para usar.

Há ainda outra pergunta que quase ninguém faz: básico para quê? O que um familiar de pessoa surda precisa dizer no dia a dia é diferente do que um professor precisa na sala de aula, do que um advogado precisa e do que um atendente precisa. O que é básico para uma pessoa pode ser pouco ou demais para outra.

Quando o básico é só uma lista de temas (família, animais, cores), ele pode ser estudado por meses sem nunca ficar "pronto". Sobre esse ponto, o artigo Curso básico de Libras funciona para se comunicar com surdos? detalha quatro sinais de que o caminho está desviando.

Como saber se o seu jeito de estudar leva à conversa?

Observe o que acontece depois de dois meses. Na minha experiência, quem estuda Libras há dois meses e ainda não acompanha uma conversa de dez minutos com uma pessoa surda deve revisar o caminho. Esse prazo vem da minha observação ao acompanhar os alunos, e não de pesquisa científica.

Quando eu falo em caminho, penso em dois sinais fáceis de reconhecer em você mesmo.

Você pensa em português enquanto o surdo sinaliza?

Se, quando a pessoa surda sinaliza, a sua cabeça vai dizendo "oi, tudo bem, amanhã" em português, você está lendo uma tradução e não acompanhando a Libras. A comunicação fica lenta e cansativa. Quem está no caminho da Libras vai, a cada passo, pensando mais direto em Libras.

Você pensa em português e traduz para sinalizar?

Parece natural, porque é assim que se vê o intérprete trabalhando. Mas para falar português você não planeja palavra por palavra, e a Libras funciona do mesmo jeito. Quem monta a frase em português para só depois passar para sinais cai no português sinalizado. O iniciante pode pensar direto em Libras aos poucos, e o que importa é que o rumo seja esse.

Há mais dois sinais, que são decorar sinais soltos e montar frase sinal por sinal, e estão explicados no artigo sobre o curso básico. Se você reconheceu um ou mais deles, isso é informação sobre o caminho, e não sobre você.

Seis anos estudando do jeito comum: o que eu aprendi

Eu passei seis anos estudando Libras do jeito comum, com apostila, vídeo, cursinho e instituição de surdos. Fazia exatamente o que me diziam. E, toda vez que encontrava pessoas surdas, o resultado era o mesmo: eu me apresentava, dizia meu sinal, e a conversa morria.

Eu ficava sentado no banco, vendo todo mundo conversar. Quando chegava na roda, eles me olhavam, eu me apresentava e eles voltavam a conversar entre si. Eu não tinha o resultado que queria e os sinais estavam na minha frente. Eu estava anestesiado, achando que era questão de tempo.

Quando comecei a namorar a Raquel, que é surda, a diferença apareceu. Ela chegava sorridente nos encontros e eu chegava sorridente com a cabeça doendo, de tanto esforço de lembrar sinal e encaixar na frase. Aos poucos entendi que a dor de cabeça vinha do jeito como eu estudei. Persistir no caminho errado não torna o caminho certo. Estudar errado por muito tempo só consolida o erro.

Se você se identificou, saiba que a minha história é uma das muitas que escuto. Muita gente chega até nós depois de anos.

O que muda quando você corrige a rota?

A rota se corrige com dois elementos. O primeiro é saber que o seu cérebro tem capacidade natural de absorver língua. O segundo é seguir um caminho que alguém já percorreu e mapeou, em vez de inventar o próprio jeito de aprender sozinho.

O primeiro elemento: a capacidade que você já tem

Na minha visão, qualquer pessoa pode aprender Libras, porque Libras é língua e o cérebro humano tem um mecanismo para absorver línguas. É por isso que alguém que muda para o Japão costuma se comunicar em pouco tempo, sem passar por nível básico. Muita gente deixa de acreditar nisso por causa do que ouviu na infância: nota vermelha, rótulo de "teimoso". Aquilo foi um momento da sua vida, e não uma sentença. Quem quiser aprofundar esse ponto encontra mais em Qualquer pessoa consegue aprender Libras.

O segundo elemento: um caminho com passos

Método, em grego, quer dizer caminho. Ninguém acende o fogão batendo duas pedras: aperta o botão. Do mesmo jeito, você não precisa reinventar como se aprende uma língua. Seguir um caminho comprovado, com passo a passo, é a atitude inteligente.

A essência no lugar da lista

Minha mãe fazia chup-chup para vender, e o segredo de cada sabor era uma essência. Com a essência de menta ela aprendeu a medida certa e passou mais de um ano fazendo com o mesmo vidro. Na Libras, a essência é o que realmente faz diferença na comunicação, e quem a capta não tem medo das variações regionais: assim como macaxeira, aipim e mandioca são a mesma raiz no português, um mesmo conceito pode ter sinais diferentes pelo Brasil, e quem tem a base reconhece que é a mesma coisa.

Quanto tempo leva para sair do "só sei o básico"?

Depende, e o que mais pesa é a direção. Se você quer ir da cidade um à cidade dois e anda para o lado contrário, pode dar a volta no planeta e não chega. A pergunta sobre prazo só faz sentido depois de saber se o caminho leva à conversa.

Por isso evito prometer prazo geral.

Fluência, para nós, é um comportamento que você consegue observar em si mesmo: entender o que a pessoa surda diz, se fazer entender no dia a dia e pensar direto em Libras, sem traduzir do português na cabeça. Quando você começa a notar esses sinais, o caminho está certo.

Perguntas frequentes

Fazer o curso básico de Libras adianta?

Adianta quando leva à conversa. Se passou de um ou dois meses e você ainda trava diante de uma pessoa surda, é sinal para rever o jeito de estudar. O nome "básico" varia de lugar para lugar, por isso vale olhar para o que você consegue fazer em uma conversa real.

Ficar no básico significa que não tenho dom para Libras?

Não. Na minha visão, o cérebro de todas as pessoas tem capacidade para absorver uma língua, e Libras é língua. Quem trava costuma estar numa rota que não leva à conversa, e rota se corrige. Dom não é o fator que decide.

Em quanto tempo consigo conversar com surdos?

Depende de estar no caminho certo. O tempo varia com a prática, a imersão e o contato com surdos, e não existe número único que valha para todo mundo.

Como corrijo a rota sem perder o que já aprendi?

O que você aprendeu continua com você. A correção está em mudar a direção: priorizar o essencial para a sua situação, pensar direto em Libras e seguir passos que levam à conversa. Foi o que eu fiz depois de seis anos e o que vejo os alunos fazerem.

Como citar este artigo

Formato ABNT (NBR 6023), para trabalhos acadêmicos.

BARRETO, Madson. Fiz curso de Libras e continuo travando: por que acontece e como sair disso. Salvador: Universidade da Libras, 2026. Disponível em: https://universidadedalibras.com.br/post/fiz-curso-de-libras-e-continuo-travando. Acesso em: data em que você lê a página.

MEGA AULA ONLINE GRATUITA

"Descubra como Aprender e se Desenvolver na Libras SEM Esquecer ou Confundir Sinais e Frases em Libras"

Libere seu acesso gratuito agora mesmo...

Suas informações estão seguras. Ao continuar, você concorda com os Termos de Uso e declara que leu a Política de Privacidade. Você vai receber mensagens da Universidade da Libras por e-mail e por WhatsApp sobre cursos, aulas, eventos e ofertas, e pode parar quando quiser (descadastrar no e-mail ou SAIR no WhatsApp).