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Escrita de Sinais

SignWriting no mundo: quais países já escrevem a própria língua de sinais

Por Madson Barreto

A Escrita de Sinais criada por Valerie Sutton em 1974 já é usada em dezenas de países, e o Brasil não é coadjuvante nessa história.

Madson Barreto

Intérprete e fundador da Universidade da Libras

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O sinal de "mundo" escrito em SignWriting: o mesmo sistema visual usado hoje para registrar dezenas de línguas de sinais ao redor do planeta.
O sinal de "mundo" escrito em SignWriting: o mesmo sistema visual usado hoje para registrar dezenas de línguas de sinais ao redor do planeta.

A Escrita de Sinais já é usada hoje em dezenas de países, dos Estados Unidos ao Vietnã, da Dinamarca à Tunísia. Ela nasceu na Dinamarca em 1974 e hoje tem código oficial no padrão internacional de sistemas de escrita da ISO, ao lado do alfabeto latino e do japonês.

O Brasil não é secundário nesse mapa: é um dos países com produção acadêmica mais densa do campo no mundo inteiro. Quando o tamanho real desse mapa aparece, a pergunta muda. Deixa de ser "isso funciona?" e passa a ser "por que eu ainda não escrevo a minha língua de sinais?".

Quantos países do mundo já usam a Escrita de Sinais?

A página oficial do sistema, mantida pelo próprio projeto de Valerie Sutton, lista 61 países e territórios com uso registrado da Escrita de Sinais. O levantamento próprio da Universidade da Libras, que cruza essa lista com dicionários publicados, teses acadêmicas e a plataforma internacional SignPuddle, é mais profundo e chega a 66 países com evidência confirmada.

Nenhum dos dois números está errado. São bases diferentes, e apresentar só um deles como "o" número oficial, sem dizer de onde ele vem, seria a forma mais fácil de mentir com estatística.

Por que existem dois números, e por que isso é bom sinal

O 61 é uma contagem direta: quantos países e territórios aparecem nomeados na página oficial "Who Uses SignWriting?". O 66 é o número da pesquisa própria da Universidade da Libras, que soma essa página a outras fontes primárias, como dicionários nacionais publicados e dicionários ativos dentro do SignPuddle, a plataforma internacional onde os países guardam o próprio vocabulário.

Existe ainda um terceiro número, mais restrito e fácil de conferir sozinho: a página oficial de dicionários do sistema lista 48 países e regiões com dicionário publicado. Qualquer leitor consegue abrir essa página e contar.

O ponto que importa não é escolher um número para "vencer". É que os três continuam subindo, porque a pesquisa sobre o campo e os dicionários dentro da plataforma seguem em expansão todo ano.

A lista, região por região

Um recorte por continente, só com países confirmados no levantamento, ajuda a enxergar o tamanho real do mapa sem despejar os 66 nomes de uma vez.

América do Sul

  • Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Bolívia, Uruguai, Paraguai e Venezuela.

América do Norte e Central

  • Estados Unidos, Canadá, México, Nicarágua, Honduras e Costa Rica.

Europa

  • Dinamarca, Noruega, Espanha, Itália, França, Alemanha, Reino Unido, Portugal e Rússia.

África e Oriente Médio

  • Etiópia, Tunísia, Egito, Quênia, Nigéria, África do Sul, Israel e Jordânia.

Ásia e Oceania

  • Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Vietnã, China, Nepal, Austrália e Nova Zelândia.

Cada um desses países guarda o próprio dicionário dentro do dicionário de sinais internacional que a plataforma do sistema mantém, cada um com o vocabulário da própria língua de sinais nacional.

Quantas línguas de sinais já são escritas com esse sistema?

Uma apresentação institucional do Center for Sutton Movement Writing, de 2018, registra 80 línguas de sinais catalogadas no sistema, dentro de um universo de mais de 140 línguas de sinais identificadas no mundo. Já o material mais recente do projeto, de 2025, trabalha com uma base mais rigorosa de mais de 64 línguas de sinais em uso confirmado.

Nenhum dos dois números substitui o outro. São recortes diferentes, feitos em anos diferentes, com critérios diferentes de confirmação, e nenhum deve ser somado ao outro.

O que significa uma língua de sinais ser escrita

Cada língua de sinais tem um código próprio e um dicionário próprio dentro da plataforma internacional. O alfabeto de símbolos do sistema é internacional, mas o vocabulário registrado nele é nacional.

Funciona como o alfabeto latino, que serve ao português, ao polonês e ao vietnamita sem que essas três línguas sejam a mesma coisa. Escrever uma língua de sinais não apaga o que a torna uma língua própria e independente, só dá a ela um registro que sobrevive fora da memória de quem sinaliza.

O sistema virou escrita oficial do mundo em 2006

Em 10 de outubro de 2006, o SignWriting recebeu código próprio no padrão internacional de sistemas de escrita da ISO, o ISO 15924, com o código "Sgnw", número 095. Em 2012, uma proposta formal de codificação no Unicode foi apresentada ao comitê técnico responsável, assinada por Michael Everson, Martin Hosken, Stephen Slevinski e a própria Valerie Sutton.

Na prática, não é um desenho informal de comunidade. É uma escrita catalogada ao lado do alfabeto latino, do árabe e do japonês, no mesmo padrão que qualquer sistema operacional do mundo usa para reconhecer texto.

Como o SignWriting saiu de uma sala na Dinamarca para o mundo inteiro?

O sistema nasceu em 1974, na Universidade de Copenhague, quando o pesquisador Lars von der Lieth pediu a Valerie Sutton que aplicasse a línguas de sinais o sistema de escrita de movimento que ela já tinha criado para dança. O primeiro material publicado com o sistema registrou a Língua de Sinais Dinamarquesa, não a americana.

A cena que fundou tudo

Sutton passou a transcrever quadro a quadro, com papel e caneta, o movimento que via em vídeos de pessoas surdas sinalizando. Em 1976 saiu "Examples of Notation of the Danish Deaf Sign Language", com sua notação e a supervisão de Lars von der Lieth.

Ainda em 1974, no mesmo ano em que o sistema nasceu, ela notou os 14 sinais usados por Kagobai, a única pessoa surda da Ilha de Rennell, no Pacífico Sul, a pedido do antropólogo Rolf Kuschel. Duas pontas opostas do planeta registradas no ano de nascimento do mesmo sistema.

O sinal de "Dinamarca" escrito em SignWriting: o país onde o sistema nasceu, em 1974, registrado na própria lógica que ele criou.
O sinal de "Dinamarca" escrito em SignWriting: o país onde o sistema nasceu, em 1974, registrado na própria lógica que ele criou.

A rota da expansão, e onde o Brasil entra

Na Dinamarca, entre 1982 e 1988, professores formados por Sutton passaram a ensinar crianças surdas nas escolas usando o sistema. Nos Estados Unidos, o projeto seguiu crescendo dentro do próprio centro que Sutton fundou.

Na Espanha, Steve e Dianne Parkhurst se mudaram para Madrid em 1995 e já tinham mais de 2.000 sinais espanhóis digitados no dicionário do sistema em 1996, antes de publicar o livro "SignoEscritura", em 2001. Na Noruega, o manual do sistema foi traduzido por Ingvild Roald.

O Brasil entra nesse mapa a partir de 1996, quando o campo já tinha quase 25 anos de história em outros países. Não chegou por acaso: chegou depois de alguém decidir, de propósito, trazer o sistema para cá e adaptar ele à Libras.

Onde o Brasil aparece nesse mapa mundial?

O Brasil não é um país que "também usa" o sistema. É um dos polos de produção do campo no mundo: 41 universidades brasileiras têm pelo menos uma dissertação, tese ou trabalho de conclusão dedicado ao SignWriting, somando 77 dissertações e teses entre 1999 e 2025, e 235 publicações acadêmicas verificadas item a item com fonte primária.

O Brasil no Simpósio Internacional

O Simpósio Internacional de SignWriting reúne, a cada edição, pesquisadores de dezenas de países e é hoje o principal espaço de encontro acadêmico do campo. O Brasil marca presença com volume relevante de trabalhos a cada edição, embora a contagem exata de apresentações por país varie entre levantamentos e não seja tratada aqui como número fechado.

O que interessa não é a posição num ranking de apresentações. É que o país aparece, edição após edição, num evento que reúne o mundo inteiro em torno do mesmo sistema.

O que o Brasil devolveu para o sistema mundial

Entre 1996 e 2006, o projeto SignNet, da PUC-RS e da UCPel, criou o SWML, um padrão de arquivo que passou a guardar cada sinal como código, em vez de guardar como imagem. Dois anos depois, esse mesmo princípio ajudou a moldar o SignPuddle, a plataforma internacional onde os dicionários de dezenas de países vivem até hoje.

O Brasil não só importou o sistema. Contribuiu com a engenharia por trás dele, no mesmo campo que hoje sustenta livros como Escrita de Sinais sem Mistérios, onde essa história de bastidor foi organizada em português pela primeira vez.

O sinal de "Brasil" escrito em SignWriting: o país que hoje reúne 41 universidades com pesquisa dedicada ao sistema.
O sinal de "Brasil" escrito em SignWriting: o país que hoje reúne 41 universidades com pesquisa dedicada ao sistema.

O que muda quando uma comunidade surda passa a escrever a própria língua?

Muda o status da língua. Uma língua que se escreve passa a ter dicionário, literatura, material didático, pesquisa acadêmica e prova de concurso. Uma língua que só existe em vídeo depende de alguém filmar, guardar e repassar o vídeo certo na hora certa.

Os casos concretos que o mapa mundial documenta

Na Dinamarca, crianças surdas foram alfabetizadas no sistema entre 1982 e 1988. Na Bolívia, o Centro Cristiano para Sordos, escola técnica em Cochabamba, ensina a Língua de Sinais Boliviana usando o sistema até hoje.

Na República Tcheca, Jitka Václavíková defendeu, em 2012, na Universidade Carolina, em Praga, um trabalho sobre o sistema com avaliação máxima, e a capital tcheca ainda sediou workshops que reuniram participantes de Brno e Bratislava. Na Polônia, um curso em Varsóvia, em 2015, teve participação de associações de pessoas surdas da Eslováquia e da Hungria. Na Rússia, o sistema tem página dedicada e curso próprio em vídeo, além de um dos maiores dicionários nacionais fora das Américas.

Em todo lugar, o padrão se repete: primeiro alguém escreve, depois vira escola.

O que NÃO existe em lugar nenhum do mundo

Não existe um único país onde a Escrita de Sinais tenha chegado sozinha. Na Dinamarca, alguém precisou aprender com Sutton antes de ensinar as crianças. Na Bolívia, alguém precisou trazer o sistema antes de abrir a escola técnica em Cochabamba. No Brasil, alguém precisou estudar o sistema a partir de 1996 antes de qualquer universidade abrir uma linha de pesquisa sobre ele.

A vaga de "quem ensina" nunca fecha sozinha em lugar nenhum do planeta. Ela é sempre ocupada por alguém que decidiu ocupar. É o que sustenta livros e métodos como o Box Libras Sem Travas, pensado exatamente para quem quer entrar nessa vaga sem repetir, sozinho, os quase trinta anos de tentativa e erro que o campo levou para amadurecer no Brasil.

Como alguém no Brasil entra nesse mapa hoje?

Existe quem lê um panorama desses como curiosidade de mapa-múndi e fecha a aba. E existe quem lê e percebe uma coisa simples: o Brasil está entre os países com produção mais densa do planeta nesse campo, e ainda cabe gente nova nesse mapa.

Nenhuma das duas leituras é errada. Uma só custa mais caro do que a outra, a longo prazo, para quem trabalha todo dia com pessoas surdas e nunca aprendeu a registrar a própria língua de sinais delas por escrito.

Quem quer sair da curiosidade e entrar de fato nesse mapa encontra, hoje, um caminho estruturado em português no Box Libras Sem Travas, reunindo Libras e Escrita de Sinais no mesmo conjunto, em vez de precisar montar essa base sozinho, país por país, do jeito que o campo inteiro levou décadas para montar.

Perguntas frequentes

Quantos países usam a Escrita de Sinais hoje?

A página oficial do sistema lista 61 países e territórios. A pesquisa própria da Universidade da Libras, mais profunda, soma a essa página dicionários publicados, teses e os dicionários ativos da plataforma internacional, e chega a 66 países com evidência confirmada. São bases diferentes, não números concorrentes, e os dois continuam subindo porque a pesquisa e os dicionários seguem em expansão.

Quantas línguas de sinais já são escritas?

Uma apresentação institucional do Center for Sutton Movement Writing, de 2018, registra 80 línguas de sinais com escrita catalogada no sistema, de mais de 140 línguas de sinais identificadas no mundo. Material mais recente do campo, de 2025, trabalha com mais de 64 línguas de sinais em uso confirmado. Os dois recortes usam critérios diferentes e não devem ser somados.

A Escrita de Sinais é igual em todos os países?

O alfabeto de símbolos é internacional, mas o vocabulário é de cada língua de sinais. Funciona como o alfabeto latino, que serve ao português, ao polonês e ao vietnamita sem que essas línguas sejam a mesma coisa. Cada país escreve a própria língua de sinais, com dicionário e código próprios dentro da plataforma internacional.

Quem criou a Escrita de Sinais?

Valerie Sutton, em 1974, na Dinamarca. Ela já tinha criado um sistema para registrar movimento de dança no papel, e pesquisadores da Universidade de Copenhague pediram que aplicasse aquilo a vídeos de pessoas surdas sinalizando. O primeiro material publicado com o sistema registrou a Língua de Sinais Dinamarquesa, em 1976.

A Escrita de Sinais é reconhecida internacionalmente?

Sim. Em 10 de outubro de 2006 ela recebeu código próprio no padrão internacional de sistemas de escrita da ISO, o ISO 15924, com o código Sgnw. Em 2012 foi apresentada uma proposta formal para codificá-la no Unicode. Na prática, ela está catalogada ao lado do alfabeto latino, do árabe e do japonês.

O Brasil está atrás dos outros países nesse assunto?

Não. O Brasil está entre os países com produção mais densa do campo: 41 universidades brasileiras com pelo menos uma dissertação, tese ou trabalho de conclusão dedicado ao tema, 77 dissertações e teses entre 1999 e 2025 e 235 publicações acadêmicas verificadas item a item. O país também contribuiu com tecnologia hoje usada internacionalmente, como o padrão que ajudou a moldar o SignPuddle.