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Curso de Libras

Libras é universal? 66 países escrevem a própria língua de sinais

Por Madson Barreto

Cada país tem a sua língua de sinais. A Escrita de Sinais mostra isso em 66 países, e um surdo americano me mostrou no posto de combustível.

Madson Barreto

Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

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8 min de leitura

Libras é universal? Não. A Libras é a língua de sinais da comunidade surda brasileira, e cada país tem a sua. A prova mais forte que conheço vem da Escrita de Sinais: 66 países já registram por escrito a própria língua de sinais, usando o mesmo sistema de símbolos.

Esse número vem do levantamento próprio da Universidade da Libras, fechado em 10 de setembro de 2026. Neste texto você vê o que ele mostra, por que alfabeto parecido engana e o que fazer diante de um surdo de outro país.

Libras é universal ou cada país tem a própria língua de sinais?

Cada país tem a própria língua de sinais. A Libras é a do Brasil: a Lei 10.436, de 2002, a descreve como um sistema linguístico visual-motor, com estrutura gramatical própria, oriundo de comunidades de pessoas surdas do Brasil.

Isso coloca a Libras no mesmo lugar do português: um idioma que nasce de um povo, num lugar, com uma história. Ninguém espera que um brasileiro entenda japonês sem estudar. Com a língua de sinais vale a mesma lógica, porque ela também tem gramática. Já expliquei isso em Libras tem gramática.

Dentro do próprio país, o mesmo conceito ganha sinais diferentes de uma região para outra, como mandioca e macaxeira. Se nem o Brasil inteiro sinaliza igual, o mundo inteiro sinalizar igual seria o mais improvável dos cenários.

Por que tanta gente acredita que a Libras é universal?

Na minha experiência, o mito nasce da mímica. Como a língua de sinais é visual, quem vê alguém sinalizar tem a impressão de entender pelo desenho, como se cada sinal fosse um gesto que qualquer pessoa decifra. A impressão dura até o assunto sair do óbvio.

Gesto e sinal são coisas diferentes. Um sinal pertence a uma língua de sinais, com regras de formação, gramática e expressão facial que muda o sentido. Quem trata a Libras como português em gestos cai no português sinalizado.

O surdo americano, o posto de combustível e a palavra presunto

Num passeio com a Raquel e um grupo de surdos, um deles era dos Estados Unidos e estava quase fluente em Libras. Quando o conheci, dias antes, achei que tinha crescido surdo aqui no Brasil, de tão clara que era a sinalização dele.

Num posto de combustível, ele não conhecia o nosso sinal de presunto. Expliquei a ideia com outros recursos da Libras e ele entendeu em menos de um segundo. Curioso, perguntei como se diz presunto na língua americana de sinais: ele contou que não há um sinal específico e soletrou a palavra em inglês. Conto essa cena por inteiro em datilologia em Libras: quando usar.

Esse surdo me entendia porque tinha aprendido Libras. Ele precisou estudar a nossa língua de sinais para chegar ali, e isso combina mal com a ideia de uma língua de sinais única para o mundo.

Alfabeto parecido quer dizer língua de sinais igual?

Não. O alfabeto manual soletra palavras da língua escrita do país, letra por letra. Ele ajuda a nomear o que ainda não tem sinal, e a língua de sinais está em todo o resto. Mesmo quando as letras de dois alfabetos manuais se parecem, as duas línguas de sinais continuam tendo vocabulário e gramática próprios.

A cena do posto mostra isso: o surdo americano recorreu à palavra do inglês, soletrada, porque na língua de sinais dele a ideia não tinha um sinal próprio. Para entender quando soletrar faz sentido, veja o alfabeto manual em Libras.

Por que algumas línguas de sinais lembram outras?

Parentesco de história. A Libras tem raiz na língua de sinais francesa, que chegou ao Brasil com o professor surdo Adolphe Édouard Huet e o Instituto Nacional de Educação de Surdos e se misturou aos sinais dos surdos brasileiros, como conto na história do INES.

A ASL também vem da francesa: surgiu na escola para surdos de Hartford, nos Estados Unidos, fundada em 1817, com um professor vindo da França.

Duas línguas de sinais com a mesma raiz lembram primas. Português e espanhol também vêm de uma origem comum e ninguém diria que são a mesma língua. Uma semelhança pontual aparece aqui e ali, mas ela nunca vira entendimento pleno.

O que 66 países escrevendo a própria língua de sinais mostram?

Mostram que a língua de sinais de cada país tem identidade própria: cada comunidade surda registra o próprio vocabulário. O sistema de símbolos, a Escrita de Sinais, é um só e serve o mundo inteiro. O que se registra nele é o vocabulário de cada comunidade surda.

Base do número, para ninguém ser enganado por ele:

66 é a quantidade de países com uso confirmado da Escrita de Sinais no levantamento da Universidade da Libras. Ele cruza a lista "Who Uses SignWriting?", do site oficial do sistema, com dicionários publicados, teses acadêmicas e os dicionários ativos da plataforma internacional SignPuddle. Conto países, e um país pode ter mais de uma língua de sinais. O número é retrato de 10 de setembro de 2026 e tende a crescer.

Dois países que falam espanhol e têm duas línguas de sinais

Costa Rica e Uruguai falam espanhol, e ambos estão entre os 66. A Costa Rica registra a Lengua de Señas Costarricense, a LESCO. O Uruguai registra a Lengua de Señas de Uruguay, a LSU, com dicionário e materiais próprios. Mesmo idioma falado, duas línguas de sinais.

É como a notação musical: existe uma só, e ninguém acha que toda música do mundo é igual. Quem quiser ver o mapa por região encontra a lista completa em SignWriting no mundo.

O dia em que mostrei a Escrita de Sinais a um surdo americano

Com o mesmo surdo americano, mostrei o poder da Escrita de Sinais. Peguei um material com escrita em ASL, língua de sinais que eu não domino, e sinalizei o que estava escrito. Ele ficou impressionado.

O livro que escrevi com a Raquel, Escrita de Sinais sem Mistérios, foi apresentado por nós num simpósio internacional de SignWriting, em 2014. Ele faz parte do Box Libras Sem Travas, o conjunto de livros da Universidade da Libras. Para entender o sistema desde o começo, leia o que é Escrita de Sinais.

Madson e Raquel apresentando o livro "[url=https://universidadedalibras.com.br/livro-escrita-de-sinais-sem-misterios]Escrita de Sinais sem Mistérios[/url]" em um simpósio internacional de SignWriting, em 2014.
Madson e Raquel apresentando o livro "[url=https://universidadedalibras.com.br/livro-escrita-de-sinais-sem-misterios]Escrita de Sinais sem Mistérios[/url]" em um simpósio internacional de SignWriting, em 2014.

O que fazer diante de um surdo de outro país?

Comece pelo que já une vocês dois: o rosto, o corpo, o olhar e a escrita no papel ou no celular. Existe também o Sinal Internacional, usado em eventos internacionais com pessoas surdas e ouvintes. Segundo a Federação Mundial de Surdos, ele muda conforme a região onde é usado.

Na minha experiência, quem capta a essência da Libras se comunica com surdos de qualquer canto do Brasil e até de outro país. Foi o que vi acontecer comigo e com o surdo americano no posto. Ele usou uma língua de sinais aprendida de dentro, sem truque universal nenhum.

Essa essência é pensar direto em língua de sinais, sem montar a frase em português antes. É o que trabalho em como pensar em Libras sem traduzir do português.

O que muda para quem quer aprender Libras de verdade?

Muda o alvo. Quem aprende Libras aprende uma língua de sinais inteira, com gramática, e nenhuma lista de sinais vale em qualquer lugar. Na minha experiência, sinal solto some da memória e nunca vira conversa, e você vê essa diferença em gramática da Libras.

Fluência em Libras é conseguir se comunicar com surdos no dia a dia, entendendo e se fazendo entender, pensando direto em Libras, sem traduzir do português na cabeça. É esse o ponto de chegada do Método Fluente em Libras em 8 semanas, que promete que quem segue todas as etapas está se comunicando em Libras ao final das 8 semanas.

Quando você chega lá, a pergunta "Libras é universal?" ganha outro sentido: com quem, aqui no Brasil e fora dele, essa língua de sinais permite conversar de verdade?

Perguntas frequentes

Países que falam o mesmo idioma têm a mesma língua de sinais?

Não. Ter o mesmo idioma falado não faz a língua de sinais igual. Costa Rica e Uruguai, por exemplo, falam espanhol e cada um registra uma língua de sinais própria, a LESCO e a LSU. A língua de sinais nasce da comunidade surda de cada lugar, e não da língua falada no país.

Existe uma língua de sinais universal?

Não. O que existe é o Sinal Internacional, usado em eventos internacionais com pessoas surdas e ouvintes. Segundo a Federação Mundial de Surdos, ele muda conforme a região onde é usado. É uma ferramenta de eventos, e cada país segue com a sua língua de sinais.

Se eu aprender Libras, consigo conversar com um surdo de outro país?

Em parte. Na minha experiência, quem capta a essência da Libras consegue se comunicar até com surdos de outro país, como vivi no posto, mas cada língua de sinais tem vocabulário e gramática próprios. Para conversar a fundo, é preciso aprender a língua de sinais daquele país. O ponto de partida é a sua língua de sinais, aprendida de verdade.

Como comparar línguas de sinais de países diferentes sem saber todas?

Pela Escrita de Sinais. Ela registra a língua de sinais de cada comunidade no papel, com o mesmo sistema de símbolos, e permite comparar as duas por escrito, lado a lado.

Por que a Libras e a ASL têm algumas semelhanças?

As duas têm raiz na língua de sinais francesa. A Libras recebeu essa influência com o Instituto Nacional de Educação de Surdos, no Rio de Janeiro, e a ASL a recebeu numa escola para surdos em Hartford, em 1817. Raiz comum explica semelhança pontual, e cada língua de sinais seguiu o próprio caminho.

Como citar este artigo

Formato ABNT (NBR 6023), para trabalhos acadêmicos.

BARRETO, Madson. Libras é universal? 66 países escrevem a própria língua de sinais. Salvador: Universidade da Libras, 2026. Disponível em: https://universidadedalibras.com.br/post/libras-e-uma-lingua-universal. Acesso em: data em que você lê a página.