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Curso de Libras

Travar na hora de conversar em Libras: por que isso acontece mesmo depois de anos de curso

Por Madson Barreto

A resposta não está na sua dedicação. Está no caminho que te ensinaram a seguir.

Madson Barreto

Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

Publicado em
Tempo de leitura
10 min de leitura

Quando alguém trava na hora de conversar em Libras depois de anos de curso, o motivo quase nunca é falta de prática.

É um hábito chamado português sinalizado: pensar a frase em português e só depois converter para sinais.

Isso consome tempo de processamento que uma conversa real não dá, e tem sintoma reconhecível: dor de cabeça depois de conversar, entender mais ou menos e travar na hora de responder, decorar frases prontas sem conseguir montar frase nova na hora.

A saída não é estudar mais horas do mesmo jeito. É aprender a pensar direto na língua de sinais.

Por que travar na hora de conversar em Libras é tão comum mesmo depois do curso

Travar é o sintoma mais comum entre quem estudou Libras por apostila e frase decorada, porque decorar sinal por sinal treina reconhecer frases prontas, não montar uma frase nova em tempo real.

O cérebro trava porque está tentando fazer, ao vivo, uma tradução interna que a conversa não espera.

A apostila que eu decorei inteira e não adiantou

Eu comecei com onze, doze anos, num cursinho de Libras na igreja.

Era uma vez por semana, três meses que depois viraram cinco, e eu tinha uma apostila que estudava todos os dias antes de ir para a escola. Chegou um ponto em que eu achava que sabia todos os sinais daquela apostila. Achava mesmo.

Só que um dia eu estava conversando com um surdo da igreja, tentei fazer os sinais exatamente como estava no material, tinha certeza que estava certo, e ele não entendeu.

Não entendeu de novo. Foi muito frustrante para mim, porque eu tinha feito tudo certo segundo a apostila e continuava sem conseguir falar aquilo que eu queria dizer para ele.

A mesma apostila era usada em praticamente todos os lugares do Brasil, em cursinhos de igreja diferentes, em cidades diferentes.

Ela ensinava vocabulário, ensinava sinal isolado, mas não ensinava a montar uma frase nova na hora que a conversa pedia.

O que é português sinalizado e por que ele parece Libras mas não é

Português sinalizado é fazer a frase na estrutura gramatical do português, sinal por sinal, em vez de na lógica própria da Libras, que é uma língua de sinais independente, sem tradução direta do português.

Quem faz português sinalizado às vezes é entendido mais ou menos, mas nunca chega a ter uma conversa que flui de verdade.

O choque de coordenar 55 funcionários surdos e descobrir que eu ainda travava

Eu descobri isso do jeito mais duro possível, muitos anos depois de começar.

Eu estava coordenando cinquenta e cinco funcionários surdos numa instituição, já tinha dezesseis anos de experiência com a língua de sinais na época, e fiz uma reunião de trabalho para tratar de assuntos burocráticos.

Enquanto eu sinalizava, tinha uma pessoa surda à minha direita e outra à minha esquerda fazendo sinais ao mesmo tempo que eu.

No começo achei que estavam batendo papo entre elas. Depois percebi que não. Elas estavam traduzindo o que eu falava para os outros surdos entenderem.

Foi um choque muito grande. Eu não tinha começado a estudar a língua de sinais no dia anterior.

O presidente da instituição tinha me selecionado para aquele cargo, ele confiava no meu trabalho, e eu não podia entregar menos do que isso.

Passei a semana seguinte revirando na cabeça tudo que eu tinha aprendido, achando que estava fazendo certo, e descobrindo que não funcionava.

Como decorar sinal por sinal cria a armadilha do português sinalizado

Decorar sinal por sinal treina reconhecimento de frases fixas, não a gramática viva da Libras, que usa espaço, direção e expressão facial para construir sentido.

Por isso quem decora, diante de uma pergunta nova, não consegue responder. Só repete o que já memorizou antes.

A anotação que nem quem escreveu conseguia decifrar

Uma amiga minha, que trabalhava com taquigrafia num setor público em que a escrita rápida e precisa era parte do trabalho dela, uma vez me trouxe o caderno dela com uma anotação de um sinal que ela tinha visto e queria entender.

Ela leu a anotação em voz alta. Nem ela conseguia lembrar qual era o sinal a partir daquilo que ela mesma tinha escrito. E eu, olhando para a mesma anotação, também não consegui reconstruir o sinal.

Essa mulher lidava com um volume enorme de palavras todos os dias, sabia anotar rápido e com precisão, e mesmo assim a anotação de um sinal isolado não servia para nada depois de escrita.

Foi ali que eu entendi por que passar tanto tempo anotando sinal por sinal não estava me ajudando a aprender a língua de sinais.

Eu parei de fazer anotação e comecei a olhar para o meu professor, tentando entender o sentido em vez de guardar cada peça separada.

Madson interpretando em Libras num evento do Coral dos Trabalhadores Mirins, em 2008, no início da sua trajetória como intérprete.
Madson interpretando em Libras num evento do Coral dos Trabalhadores Mirins, em 2008, no início da sua trajetória como intérprete.

O que muda quando você aprende a pensar direto em Libras, sem passar pelo português

Saber Libras de verdade é pensar a ideia direto em sinais, sem montar a frase em português antes.

Eu paro de falar em "aprender Libras" com meus alunos e passo a falar em absorver Libras. Não é jogo de palavra.

Aprender pressupõe decorar peça por peça. Absorver é o que uma esponja faz na água: ela não decide guardar cada gota, ela se molha inteira. É o mesmo princípio que virou a base do método Fluente em Libras em 8 semanas.

Quem ainda traduz por dentro sente isso no corpo: cansaço, dor de cabeça, esquecimento do que acabou de ouvir, porque está fazendo duas tarefas ao mesmo tempo, sem perceber.

A dor de cabeça constante no início do namoro com a Raquel

Quando eu comecei a namorar a Raquel, hoje minha esposa, que é surda, eu voltava de cada encontro com dor de cabeça.

Todas as vezes. Muitas vezes ela repetia algo que tinha falado, e eu achava que era ela conferindo se eu tinha entendido certo. Só que, semanas depois, ela lembrava de coisas que ela mesma tinha me contado e eu não lembrava nada.

Eu não tinha prestado atenção de verdade, porque minha cabeça estava ocupada convertendo tudo para o português antes de processar o que ela dizia.

Foi aí que percebi por que eu ficava com dor de cabeça: era um esforço mental duplo, pensar em português para depois passar para Libras, o tempo todo, sem parar.

A virada: interpretando uma música e sendo entendido de verdade

O momento em que eu senti a virada de verdade foi interpretando uma música numa igreja.

Eu já tinha praticado bastante antes. Tinha um surdo que sempre assistia às interpretações de cabeça baixa, sem prestar atenção, porque, segundo ele mesmo me disse depois, ele simplesmente não entendia as músicas que a gente interpretava.

Naquele dia, quando eu terminei, olhei para ele e vi que estava acompanhando a letra junto comigo.

Foi a primeira vez que tive certeza de que estava me comunicando de verdade, e não só reproduzindo uma tradução mecânica.

Quanto tempo realmente leva para aprender Libras de verdade

O fator decisivo não é quanto tempo você dedica. É qual caminho de estudo você segue.

Tem aluna minha, a Andresa Abreu, que tentou por 5 anos antes de mudar de caminho. Tem outra, a Soraia Diniz, que tentou por 20.

E tem quem mudou de caminho e virou intérprete em 6 semanas: a Luana Lidio, que largou a faculdade de Libras, e o Jhon Cleyton, reprovado numa banca de avaliação e aprovado com destaque na seguinte.

A diferença nunca foi esforço. Foi decorar sinal por sinal, no caminho de sempre, contra pensar direto na língua de sinais, absorvendo ela em vez de traduzir por dentro.

É por isso que no método que eu desenvolvi, o Fluente em Libras em 8 semanas, o prazo não é promessa vazia: é a diferença entre continuar decorando e finalmente trocar de caminho.

Eu tinha quase cinco anos estudando quando encontrei um grupo de surdos numa praça e não entendi absolutamente nada da conversa entre eles.

Nada mesmo. Na época eu achava que o problema era eu só ter aula uma vez por semana, então concluí que precisava de mais apostila, de mais curso. Só depois entendi que o problema não era a quantidade de tempo, era o tipo de caminho que eu estava seguindo.

É parecido com um estrangeiro que só vai conseguir se comunicar em português se falar do jeito que a gente fala aqui, não do jeito que aprendeu num livro de outro país.

A mesma lógica vale para quem quer se comunicar com uma pessoa surda: é preciso aprender do jeito que ela se comunica, não decorar uma tradução isolada.

Por que só ter contato com pessoas surdas não é suficiente sozinho

Contato ajuda, mas sozinho não ensina a estrutura da língua de sinais.

É possível conviver anos com pessoas surdas e continuar preso ao português sinalizado, porque o hábito de traduzir por dentro não desaparece só por exposição. Ele precisa ser identificado e corrigido de propósito.

O que o contato costuma resolver

  • Deixar o ouvido e o olho mais acostumados com o ritmo da conversa em sinais.
  • Criar oportunidade real de errar e tentar de novo, sem apostila no meio.
  • Mostrar, na prática, que existe uma forma de conversar diferente da que os cursinhos ensinam.

O que o contato sozinho não resolve

  • Corrigir um hábito de tradução mental que já está enraizado.
  • Ensinar a estrutura da língua de sinais, se a pessoa não sabe o que observar.
  • Substituir a identificação da causa exata do travamento.

Quando descobri que meu básico não era o básico dos outros

Depois daquele dia na praça, tentei entrar num curso avançado e não consegui, porque só sabia o básico.

Só que, quando enfim consegui entrar num intermediário, percebi que o básico das outras pessoas ali era diferente do meu básico.

Eu não entendia por que, com todo aquele tempo de prática, minha base ainda parecia menor que a de gente que tinha estudado menos tempo que eu.

Foi um período de muita frustração, tentando descobrir sozinho o que estava faltando, sem ninguém para me dizer com precisão o que era.

Foi exatamente esse buraco, o de não ter alguém pra apontar a causa exata do meu travamento, que virou o motivo de eu estruturar mentoria de verdade anos depois.

Identificar o hábito específico de cada aluno, em vez de deixar ele tentar descobrir sozinho, do jeito que eu tive que descobrir.

Como perceber que você está progredindo de verdade em Libras

O sinal mais claro de progresso é conseguir improvisar: dizer algo que você nunca praticou antes e ser entendido, ou entender algo que ninguém te preparou para entender.

É o oposto de repetir uma frase pronta, e tem pouco a ver com lembrar mais vocabulário.

Foi exatamente isso que aconteceu com aquele surdo que não entendia música.

Quando ele passou a acompanhar a letra pela primeira vez, olhando para a minha interpretação, eu não tinha decorado aquela música sinal por sinal como um roteiro fixo.

Eu consegui pensar o sentido dela em Libras e me expressar a partir disso, não repetir uma sequência memorizada.

Foi um dos momentos mais emocionantes da minha trajetória com a língua de sinais, porque ali eu senti que conseguia fazer qualquer coisa que quisesse na língua de sinais, não só o que já tinha ensaiado antes.

Perguntas frequentes

Só ter contato com pessoas surdas já basta para aprender Libras?

Não.

Contato ajuda, mas sem identificar o próprio hábito de tradução mental a pessoa continua travando mesmo convivendo com surdos, como eu mesmo vivi durante anos, coordenando uma equipe inteira de funcionários surdos sem perceber que ainda fazia português sinalizado.

Por que eu entendo Libras mas travo na hora de responder?

Geralmente é sinal de que você está reconhecendo frases decoradas, não processando a língua de sinais de forma independente.

O cérebro trava tentando montar algo novo com peças que só serviam para frases fixas, porque nunca foram treinadas para se recombinar.

Curso de igreja ou de escola já ensina Libras de verdade?

Um curso curto e semanal costuma ensinar vocabulário e frases prontas, que são um ponto de partida.

Normalmente não é suficiente sozinho para sustentar uma conversa real, como minha própria trajetória mostra: eu fiz esse tipo de curso e ainda levei anos para conseguir conversar de verdade.

Foi por isso que desenvolvi um caminho estruturado pra não repetir esse mesmo erro em quem está começando agora, o Fluente em Libras em 8 semanas.

Por que às vezes eu fico com dor de cabeça depois de conversar em Libras?

É um sinal físico comum de quem ainda está traduzindo por dentro, do português para a Libras e de volta, em vez de pensar diretamente na língua de sinais.

Esse esforço mental duplo cansa mais do que conversar direto, e foi exatamente o que eu sentia no início do meu namoro com a Raquel.

É normal estudar Libras há anos e ainda sentir que não avançou?

É um relato muito comum, inclusive na minha própria trajetória.

Eu já tinha quase cinco anos de estudo quando percebi que não entendia uma conversa real entre pessoas surdas. Normalmente isso está ligado ao caminho de estudo escolhido, não à falta de esforço da pessoa.

Como citar este artigo

Formato ABNT (NBR 6023), para trabalhos acadêmicos.

BARRETO, Madson. Travar na hora de conversar em Libras: por que isso acontece mesmo depois de anos de curso. Salvador: Universidade da Libras, 2026. Disponível em: https://universidadedalibras.com.br/post/como-aprender-libras-fl. Acesso em: data em que você lê a página.