Intérprete de Libras
Quantas horas um intérprete de Libras trabalha? Jornada de trabalho do intérprete explicada
Por Madson Barreto
São duas regras diferentes, e a que mais pesa para quem atua sozinho cabe em duas frases da lei.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras
Quantas horas um intérprete de Libras trabalha? A jornada de trabalho do intérprete de Libras é de 6 horas por dia ou 30 por semana. E o trabalho de interpretação com mais de 1 hora de duração precisa ser feito em revezamento, com no mínimo 2 profissionais. Está no art. 8º-A da Lei 12.319, incluído pela Lei 14.704, de 2023. Quem atua sozinho na escola, no evento ou na igreja, num trabalho que passa de 1 hora, está exatamente no caso que essa regra trata.
Fica uma pergunta que a lei não responde por você: o que fazer na segunda-feira, quando o contratante liga e só existe uma vaga?
O que a Lei 14.704 diz sobre a jornada do intérprete de Libras?
A Lei 14.704, de 25 de outubro de 2023, incluiu o art. 8º-A na Lei 12.319. Ele traz duas frases: a duração do trabalho é de 6 horas diárias ou 30 semanais, e a interpretação com mais de 1 hora de duração é feita em revezamento, com no mínimo 2 profissionais. Vale para tradutor, intérprete e guia-intérprete.
Estas são as duas frases, como estão no texto consolidado da Lei 12.319:
- "A duração do trabalho dos profissionais de que trata esta Lei será de 6 (seis) horas diárias ou de 30 (trinta) horas semanais."
- "O trabalho de tradução e interpretação superior a 1 (uma) hora de duração deverá ser realizado em regime de revezamento, com, no mínimo, 2 (dois) profissionais."
O Senado aprovou o projeto por unanimidade em 20 de setembro de 2023, e a Lei 14.704 saiu em 25 de outubro. Antes dela, a Lei 12.319, de 2010, não trazia limite de jornada de trabalho para o intérprete de Libras.
Anota aí: você não precisa de ninguém para conferir isso por você. Abra o texto, procure o art. 8º-A e leia. São duas frases.
No artigo sobre o Dia do Intérprete de Libras eu escrevi que a melhor homenagem é a condição real de trabalho. O art. 8º-A é essa condição escrita.
Qual é a diferença entre as 6 horas por dia e a regra de 1 hora?
São duas regras, com números diferentes. As 6 horas por dia (ou 30 por semana) medem a duração do trabalho do profissional. A regra de 1 hora vale para cada trabalho de interpretação: passou de 1 hora, precisa de revezamento com no mínimo 2 profissionais, mesmo que o seu dia inteiro tenha só duas horas.
O erro fácil de cometer é ler o 6 e achar que o revezamento só entra depois dele. Pelo texto, um evento de 90 minutos com uma pessoa só já passou de 1 hora.
Ninguém precisa decorar a lei inteira. Para esse assunto, são quatro números:
- 1 hora: acima dela, o trabalho de tradução e interpretação é feito em revezamento.
- 2 profissionais: o mínimo no revezamento.
- 6 horas: a duração do trabalho por dia.
- 30 horas: a duração do trabalho por semana. A lei diz "ou" entre as 6 diárias e as 30 semanais.
Quando os quatro números estão na cabeça, a conversa com o contratante fica curta. Você não discute opinião. Você fala de duração.
E quem atua sozinho na escola, no evento ou na igreja: o que muda?
O parágrafo único do art. 8º-A não traz exceção escrita para escola, evento ou igreja: ele fala de trabalho acima de 1 hora. O texto também não diz como o contratante monta a dupla nem o que acontece se não montar. Para a dúvida do seu contrato, o caminho é um advogado trabalhista.
Na escola
Nas mentorias, a intérprete de escola conta a mesma coisa de jeitos diferentes: muitas vezes é a única da escola, sem par, sem o material antes e sem a quem perguntar. É o cenário em que o parágrafo único pergunta: e quem reveza com você?
No evento
O evento é o cenário mais claro: você é chamada sozinha para um trabalho que passa de 1 hora, exatamente o caso do parágrafo único. Quem atua em evento me diz nas mentorias que o nome pesa, porque todo mundo da área fica sabendo, e por isso tanto o sim quanto o não parecem arriscados para a reputação.
Na igreja
Na igreja, muita gente serve como voluntária. O art. 8º-A fala em "profissionais" e o texto não trata do voluntário. Quem serve, e sonha em atuar como profissional, carrega a mesma pergunta: por quanto tempo alguém deve ficar sozinho interpretando?
Por que a segunda hora sozinho pesa tanto?
Porque interpretar é levar o sentido inteiro de uma língua de sinais para o português, ou o contrário, ao vivo, sem tempo de parar para pensar, e o cansaço aparece no corpo e no trabalho de quem passa muitas horas seguidas nisso. Eu conheci esse limite na minha rotina, e as mentoradas me contam o mesmo.
Meus quinze dias seguidos
Eu trabalhava numa distribuidora de livros quando o celular tocou: "Você é intérprete de Libras?" Eu disse que sim, embora nunca tivesse trabalhado como intérprete. Perguntaram o valor da minha hora e aceitaram na hora. Fechamos um dia por semana.
Eu saí de quase nove horas por dia na distribuidora para um dia por semana como intérprete, ganhando quase o mesmo por mês. Durou pouco assim. Precisaram de mim o dia inteiro, todos os dias, por quinze dias seguidos. Foi um período intenso que testou meus limites, e rendeu o equivalente a três ou quatro meses do que eu ganhava antes.
Naquele tempo, a Lei 12.319 ainda não trazia limite de jornada. O art. 8º-A só entrou em 2023. Hoje, quando leio o parágrafo único, eu lembro desses quinze dias.
Manhã, tarde e noite
Depois passei numa banca e virei intérprete educacional numa escola pública municipal, para alunos surdos da 6ª à 8ª série: cerca de quatro horas por dia, com trinta minutos de intervalo. Muitas vezes eu saía da escola e, à tarde, estava num hotel interpretando um evento do governo com a comunidade surda. À noite, outro evento.
Foi bom também: foi ali que meu nome começou a circular: muitas portas se abriram por indicação dos próprios surdos líderes, e esses eventos pagavam a hora, o transporte e a alimentação. Mesmo assim, esse ritmo tem um custo que é fácil de não ver: a terceira e a quarta hora do dia, com a cabeça já cansada e a agenda pedindo mais um sim.
O que perguntar antes de aceitar um trabalho de mais de uma hora?
Duas coisas: quanto tempo dura a interpretação sem pausa e quem é a segunda pessoa que vai revezar com você. É o que eu oriento nas mentorias. As duas perguntas tiram a conversa do plano do favor e a levam para a duração do trabalho, que é o que a lei escreve.
- Quanto tempo dura a interpretação, do começo ao fim, sem pausa?
- Quem é a segunda pessoa que vai revezar comigo?
Da próxima vez que o convite chegar, antes de escrever "aceito", escreva essas duas perguntas. Pode ser por mensagem ou por telefone: os dois caminhos levam à mesma conversa.
O medo que aparece nas mentorias é sempre parecido: recusar parece mais seguro do que aceitar e queimar o nome. Eu disse a uma mentorada que a insegurança retém aquilo que ela já poderia entregar. No Brasil o nome da gente circula de boca em boca, foi assim comigo, por indicação. Eu leio de outro jeito: quem pergunta antes de aceitar é lembrado como quem conhece o ofício.
O preparo do resto (como se organizar com quem reveza, como chegar pronto) é trabalho de mentoria, caso a caso. A Mentoria Maestria na Libras parte do mapeamento individual da sua rotina e chega à preparação para atuar com segurança e se destacar como profissional.
O que essa regra muda para quem quer ser intérprete de Libras?
Muda o ponto de partida. Quem entra hoje encontra na lei o limite de jornada e de tempo sozinho, e pode levar isso pronto para a primeira proposta de trabalho. A condição de trabalho passa a fazer parte do que você aprende junto com a língua de sinais.
Quem está no começo encontra em outro artigo por onde começar na profissão. E a conta de quanto ganhar por hora está em quanto posso ganhar como intérprete de Libras.
Escrevi o livro Intérprete de Libras sem Mistérios porque quem sonha em ser intérprete muitas vezes começa sem guia. Eu comecei assim.
Quinze dias seguidos me ensinaram o tamanho do trabalho. O art. 8º-A ensina o tamanho do limite. Você pode começar lendo o texto ou começar perguntando quem é a sua dupla: os dois caminhos levam ao mesmo lugar.
Perguntas frequentes
Quantas horas um intérprete de Libras pode trabalhar por dia?
A duração do trabalho é de 6 horas diárias ou 30 semanais, segundo o art. 8º-A da Lei 12.319, incluído pela Lei 14.704. E o trabalho de tradução e interpretação com mais de 1 hora de duração precisa ser feito em revezamento, com no mínimo 2 profissionais. São duas regras, com números diferentes.
Qual lei regulamenta o trabalho do intérprete de Libras?
É a Lei 12.319, de 1º de setembro de 2010, alterada pela Lei 14.704, de 25 de outubro de 2023. O texto consolidado está no site do Planalto. O art. 8º-A, da jornada e do revezamento, veio com a Lei 14.704.
A jornada de 6 horas vale também para o tradutor e o guia-intérprete?
O art. 8º-A fala em "profissionais de que trata esta Lei", e o art. 1º da mesma lei trata de tradutor, intérprete e guia-intérprete. Pelo texto, a regra vale para os três: a jornada de 6 horas diárias ou 30 semanais e o revezamento no trabalho acima de 1 hora. Quem atua como guia-intérprete lê o mesmo art. 8º-A.
A lei diz o que acontece se o contratante não contratar a dupla?
O art. 8º-A não traz penalidade escrita. Ele diz que o trabalho acima de 1 hora deverá ser realizado em revezamento, com no mínimo 2 profissionais. Para saber o que vale no seu contrato, o caminho é um advogado trabalhista.
O revezamento vale para aula de escola?
O parágrafo único fala em trabalho de tradução e interpretação superior a 1 hora de duração e não traz exceção escrita para escola. Como cada rede de ensino organiza a dupla é assunto de cada contrato, e a dúvida do seu caso é para um advogado trabalhista.
