Intérprete de Libras
Por que se comemora o Dia do Intérprete de Libras? Qual é a data
Por Madson Barreto
São duas datas, e cada uma tem uma origem: uma nasceu de leis estaduais e virou costume no país inteiro, a outra é a data mundial de quem traduz.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

O Dia do Intérprete de Libras se comemora em duas datas, e cada uma tem uma origem diferente. O 26 de julho tem base em leis estaduais (Santa Catarina, em 2014, e Sergipe, em 2022) e se espalhou pelo país como costume. O 30 de setembro é o Dia Internacional da Tradução, criado pela ONU em 2017, e muitos tradutores e intérpretes de Libras também o adotam. A Lei 12.319, que regulamenta a profissão desde 2010, não fala de data comemorativa.
Sobra uma pergunta que as duas datas respondem juntas: quem interpretava antes de existir lei?
Qual é o Dia do Intérprete de Libras: 26 de julho ou 30 de setembro?
As duas datas existem e as duas são celebradas. O 26 de julho tem base em leis estaduais e virou costume nacional. O 30 de setembro é a data mundial da tradução, adotada também por quem traduz e interpreta línguas de sinais.
A Febrapils, federação da área, reconhece as duas e defende o 30 de setembro pelo alcance mundial.
- 26 de julho, Dia do Tradutor e Intérprete de Libras. Base: leis estaduais de Santa Catarina (2014) e de Sergipe (2022). Alcance: usado em grande parte do país por entidades e órgãos públicos.
- 30 de setembro, Dia Internacional da Tradução. Base: resolução da Assembleia Geral da ONU (2017). Alcance: mundial, e tradutores e intérpretes de Libras também a adotam.
Se você viu "feliz dia do intérprete" duas vezes no feed, ninguém errou. Eram duas homenagens. Na área, muita gente diz "dia do TILS", sigla de tradutor e intérprete de língua de sinais.
A pergunta que rende mais é outra: quem eu estou homenageando? Anota aí, porque a resposta muda o que essa data significa para você.
Por que o 26 de julho é celebrado no Brasil inteiro?
O 26 de julho nasceu de leis estaduais: Santa Catarina em 2014, Sergipe em 2022. Órgãos públicos e entidades da área adotaram a data, e a Febrapils a reconhece. Nas fontes que consultei em setembro de 2026, não encontrei lei federal que crie essa data. Um projeto de lei federal foi apresentado em 2023 e devolvido ao autor.
O que dizem as leis estaduais e o projeto federal
- A Lei 16.364, de 23 de abril de 2014, de Santa Catarina, institui o Dia Estadual do Tradutor/Intérprete da Língua Brasileira de Sinais em 26 de julho e o inclui no calendário oficial de eventos do estado. A data segue nesse calendário, consolidado pela Lei 16.719, de 2015.
- A Lei 9.073, de 6 de julho de 2022, de Sergipe, institui o Dia Estadual do Tradutor e Intérprete de Libras na mesma data, com eventos para divulgar o trabalho desses profissionais e a importância dessa ponte entre surdos e ouvintes.
- O PL 4454/2023, na Câmara dos Deputados, propunha o Dia Nacional na mesma data. Foi apresentado em 13 de setembro de 2023 e devolvido ao autor em 22 de setembro de 2023, por não atender ao artigo 4º da Lei 12.345/2010, a lei federal sobre datas comemorativas, segundo a decisão da Mesa Diretora.
Por que o costume ganhou o país
Ninguém esperou lei federal. Em nota, a Febrapils conta que a data se espalhou por grande parte do território nacional e diz que reconhece e agradece a homenagem. Tribunais, como o de Justiça do Distrito Federal, publicam o 26 de julho como Dia Nacional do Tradutor e Intérprete de Libras.
Uma lei em Santa Catarina, outra em Sergipe, entidades e tribunais repetindo a data ano após ano: foi assim que uma data de origem local virou de todos. Cá entre nós, quem fez o 26 de julho valer foi o costume da categoria, e os órgãos públicos acompanharam.
De onde vem o 30 de setembro e o que ele diz sobre a profissão?
O 30 de setembro é o Dia Internacional da Tradução, criado pela Assembleia Geral da ONU em 24 de maio de 2017 (resolução A/RES/71/288). A data lembra São Jerônimo, que traduziu a maior parte da Bíblia para o latim e morreu em 30 de setembro de 420.
Tradutores e intérpretes de línguas de sinais também a adotam. Em nota, a Febrapils explica que essa data mundial coloca a profissão no mesmo patamar dos tradutores e intérpretes de línguas orais. Pense no que isso diz. No dia em que o mundo lembra quem leva o sentido de um texto para outra língua, quem leva o sentido de uma língua de sinais para o português também tem lugar.
Na prática, o 26 de julho chega como homenagem a pessoas e o 30 de setembro como homenagem a um ofício. Ficou uma lacuna: antes de existir data e antes de existir lei, quem fazia esse trabalho?
Quem foram os primeiros intérpretes de Libras, antes de existir lei?
Antes da lei, quem interpretava eram familiares de surdos e voluntários de igreja. Aprendiam a língua de sinais convivendo e acompanhavam o parente ao médico, ao dentista, ao advogado.
É assim que eu conto a história da profissão: na década de 80, foi desse trabalho, sem curso e sem material de estudo, que ela começou a se formar.
O familiar que entrava com o surdo no consultório
Uma cena que se repetiu em muitas casas: quem aprendeu a língua de sinais dentro de casa entra com o familiar surdo no consultório do dentista ou na sala do advogado. Eles não dominavam a teoria da Libras. Nem existia material para estudar isso. Sabiam se comunicar em Libras, e era por isso que iam junto.
Esses familiares são os primeiros heróis dessa história. Não tinham curso nem técnica de interpretação, enfrentaram muito mais dificuldade e erraram um tanto de vezes. Mesmo assim, a profissão começou ali, décadas antes de ter nome e lei.
Meu Natal na igreja, e os surdos olhando para o teto
Eu fiz parte desse grupo. Aos 13 anos, eu ficava admirado vendo as pessoas da igreja se comunicarem com os surdos. Mais tarde, na primeira vez que subi para interpretar, era época de Natal, com música. Eu sinalizava e, de repente, percebi: os surdos olhavam para o teto e para a parede.
Deu vontade de chorar. Era angústia pura: eu sinalizava e o surdo não entendia. Numa das minhas mentorias, uma intérprete me contou que caiu na interpretação de paraquedas, sem curso, sem nada, e só depois sentiu o peso da responsabilidade.
Você provavelmente se reconhece nesse palco. Se começou assim, sem preparo, com o coração na garganta, esta data também é sua, porque você faz parte da mesma história. O que muda é o caminho dali para a frente.
Muita gente que passou por isso desistiu. Cada desistência leva junto um pedaço do futuro dos surdos.
Minha mãe fez o contrário: começou a aprender com quase 50 anos, virou intérprete e chegou a aplicar prova do Prolibras, o exame de proficiência em Libras do MEC. Hoje eu e a Raquel, minha esposa, que é surda, damos continuidade ao que essas pessoas começaram sem preparo.
Escrevi o livro Intérprete de Libras sem Mistérios porque muita gente sonha em ser intérprete e se sente perdida, como eu me senti no começo, sem um guia.
O que a Lei 12.319/2010 e a Lei 14.704/2023 dizem sobre a profissão?
Sim, a profissão tem lei. A Lei 12.319, de 1º de setembro de 2010, regulamentou a profissão de tradutor e intérprete de Libras. A Lei 14.704, de 25 de outubro de 2023, alterou essa lei, incluiu o guia-intérprete e fixou condições de trabalho. Nenhuma das duas cria data comemorativa.
- A Lei 12.319 regulamenta a profissão de tradutor e intérprete da Língua Brasileira de Sinais. O artigo 2º diz que o profissional tem competência para interpretar entre Libras e Língua Portuguesa de maneira simultânea (enquanto a pessoa fala) ou consecutiva (depois que ela termina). Em 1º de setembro de 2026, ela fez 16 anos.
- A Lei 14.704 inclui o guia-intérprete, o profissional que domina pelo menos uma das formas de comunicação usadas por pessoas surdocegas. Também fixa a jornada de 6 horas por dia ou 30 horas por semana e exige revezamento de no mínimo 2 profissionais quando a interpretação passa de 1 hora.
A primeira lei chegou em 2010, cerca de três décadas depois do que eu conto dos anos 80. Isso responde a lacuna da abertura: o trabalho existia muito antes da lei, e as duas datas de hoje vieram depois dela. Quem os dois dias homenageiam começou sem nenhum dos dois.
Quem quer entrar na profissão pergunta por onde começar. Esse assunto pede um guia próprio, e ele vem em outro artigo.
O que o intérprete de Libras faz e por que o trabalho passa despercebido?
O intérprete leva o sentido de uma língua para a outra em tempo real, entre surdos e ouvintes: na escola, na igreja, no hospital, num evento, no fórum. Quando o trabalho sai bem, ninguém percebe que ele estava ali. Por isso ele vira o trabalho que ninguém vê.
- Na escola, ao lado do aluno surdo, muitas vezes sozinho.
- Em eventos, palestras e aulas de faculdade.
- Na igreja.
- No atendimento de saúde.
- No fórum, em depoimentos, como prevê a Lei 12.319.
O erro que faz o surdo dormir
Interpretar não é trocar sinal por palavra. É passar o sentido inteiro de uma língua para a outra.
Quando a pessoa aprende Libras presa ao português, cai no que eu chamo de português sinalizado, a língua de sinais moldada na ordem das palavras do português. O resultado lembra café ralo: tem a cor de café, mas o gosto sumiu.
Acontece de a interpretação ficar tão presa ao português que os surdos dormem no meio do evento, mesmo com o intérprete cheio de boa vontade e tendo estudado.
O que muda tudo é como você estuda e o que você estuda. Se você quer entender o outro lado, o da voz, o artigo sobre como interpretar da Libras para o português explica por que essa direção é mais difícil.
Como começa o caminho
O caminho começa quando a atenção sai do sinal isolado e vai para a ideia inteira que a pessoa surda está passando. Quando você começar a captar o sentido antes do sinal, o resto passa a pesar menos.
Eu levei mais de 11 anos quebrando a cabeça, sozinho, para entender como se faz isso. Nesse tempo fui montando o método que uso hoje.
Você não precisa repetir esse caminho: existe um passo a passo guiado, dentro da Mentoria Maestria na Libras.
Como homenagear um intérprete de Libras no dia dele?
Chame o intérprete pelo nome e agradeça o trabalho. Entregue o material com antecedência e contrate em dupla quando a atuação passar de uma hora. A homenagem que mais pesa é a condição real de trabalho, no dia 26 de julho, no dia 30 de setembro e no dia seguinte.
- Agradeça pelo nome, no fim do evento e não só na data.
- Envie o material com antecedência. É uma das dores que intérpretes de escola mais citam nas mentorias.
- Contrate em dupla quando o trabalho passar de 1 hora, como a Lei 14.704 prevê.
Eu ainda lembro dos surdos olhando para o teto naquela igreja. A melhor homenagem que conheço é a interpretação em que eles olham para quem sinaliza.
Perguntas frequentes
Qual é o dia do intérprete de Libras?
São duas datas. O 26 de julho é o Dia do Tradutor e Intérprete de Libras, com base em leis estaduais de Santa Catarina e de Sergipe, e virou costume no país. O 30 de setembro é o Dia Internacional da Tradução, criado pela ONU em 2017. A Febrapils reconhece as duas datas e defende o 30 de setembro pelo alcance mundial.
Intérprete e tradutor de Libras são a mesma coisa?
A Lei 12.319 trata os dois no mesmo texto, como "tradutor e intérprete".
Pela lei, é o profissional que traduz e interpreta de uma língua de sinais para outra, ou para a língua oral, e vice-versa, em qualquer modalidade. O artigo 2º cita a interpretação simultânea e a consecutiva, e a mesma pessoa pode trabalhar com as duas.
Por que 26 de setembro é o Dia do Surdo?
O 26 de setembro é o Dia Nacional dos Surdos, instituído pela Lei 11.796, de 29 de outubro de 2008.
É uma data diferente das duas dos intérpretes e vem quatro dias antes do 30 de setembro. Conto o contexto no artigo sobre a Lei 10.436 e o Dia Nacional dos Surdos, e o mês inteiro aparece no artigo sobre o Setembro Azul.
Quanto ganha um intérprete de Libras?
Depende de onde a pessoa atua, de quantas horas trabalha e de como é contratada. Por isso este artigo não traz um número solto. O assunto tem artigo próprio: quanto posso ganhar como intérprete de Libras.
