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Curso de Libras

Libras tem gramática: entenda como funciona

Por Madson Barreto

Madson Barreto

Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

Publicado em
Tempo de leitura
10 min de leitura

Libras tem gramática?

Muita gente acha que a Libras é só gesto solto, sem regra nenhuma. Acha que a pessoa surda se comunica apontando pra um lado e pro outro. E por causa disso, nem imagina que a Libras tem uma gramática, uma estrutura por detrás.

Mas hoje a gente vai conversar sobre a gramática da Libras, que é a Língua Brasileira de Sinais. Talvez você já saiba, mas a Libras é a língua de sinais oficial da comunidade surda no Brasil e é reconhecida pela lei.

Ela é muito importante para a inclusão social e para a comunidade surda, pois é através dela que eles conseguem se comunicar e se expressar. Mas você sabe como funciona a gramática da Libras?

Neste artigo, eu vou explicar o que é a Libras, como ela é diferente da linguagem oral e escrita e quais são as características da sua gramática. Vamos lá?

O que é Libras?

A Libras, ou Língua Brasileira de Sinais, é a língua de sinais oficial da comunidade surda no Brasil. Ela é um sistema de comunicação visual-motora que utiliza sinais, expressões faciais e corporais para comunicação.

Em 2002, a Lei 10.436 estabeleceu a Libras como a língua de sinais oficial dos surdos no Brasil, garantindo o seu ensino nas escolas e o seu uso em todas as áreas da sociedade. Desde então, a Libras tem sido cada vez mais valorizada e respeitada no Brasil.

Libras é Libras. Português é Português

A Libras é diferente da língua portuguesa em vários aspectos. Enquanto o português é uma língua oral, auditiva, ou seja, que utiliza a fala e a audição para se comunicar, a Libras utiliza sinais, expressões faciais e corporais.

Por isso, a Libras tem suas próprias regras gramaticais, estruturas de frases e sistema de classificação de sinais (os classificadores), que diferem da gramática da linguagem oral e escrita.

Outra diferença é que a Libras é uma língua de sinais visuo-espacial, ou seja, os sinais são feitos no espaço ao redor do corpo e podem ser percebidos por outras pessoas que estejam vendo o sinalizador. Já o português é uma língua auditiva, ou seja, utiliza sons para se comunicar.

Perceba que a Libras é uma língua de sinais e, como qualquer outra língua, ela tem uma gramática.

A incrível gramática da Libras

A gramática nada mais é do que a forma como as palavras se organizam dentro de uma frase. Assim, a gramática da Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a conjunção de regras e princípios que regem a estrutura da língua de sinais utilizada pelos surdos e pela comunidade de sinais no Brasil.

Sinais em vez de palavras

Na Libras as palavras são chamadas de sinais. Então você vai juntando os sinais e organizando eles numa ordem. Essa ordem gera uma frase.

Uma língua de sinais autônoma

A Libras é uma língua de sinais autônoma, ou seja, uma língua de sinais que possui suas próprias regras e princípios gramaticais, independentes da língua oral. Isso significa que a Libras não é uma tradução da língua oral para o sinal: é uma língua de sinais completamente diferente, com suas próprias características e estruturas gramaticais. A primeira linguista brasileira a desenvolver pesquisas sobre a gramática da Libras foi a dra. Lucinda Ferreira Brito, ainda na década de 1980.

Classificação, concordância e flexibilidade

As descobertas da dra. Lucinda Ferreira Brito e de outros linguistas mostram que a gramática da Libras tem diversas características que a diferenciam da gramática do português. Uma dessas características é o sistema de sinais e de classificação. Na Libras, cada sinal pode corresponder a uma palavra ou a um conceito, e os sinais podem ser classificados de acordo com a parte do corpo utilizada para fazê-los e com a direção e o movimento dos dedos. Mas o significado dos sinais da Libras é independente do português.

Outra característica da gramática da Libras é a concordância e a concordância temporal. Na Libras, os sinais podem concordar com o sujeito ou com o objeto da frase, assim como os verbos podem concordar com o tempo em que a ação está ocorrendo. Além disso, a Libras tem estruturas de frases e de perguntas diferentes do português: as perguntas podem ser feitas com sinais de pergunta, com a inversão da ordem dos sinais na frase, ou usando expressões faciais.

Uma das principais características da gramática da Libras é a flexibilidade, a habilidade de se adaptar a diferentes contextos e situações de comunicação. Isso é possível graças às várias formas de expressão utilizadas pela língua de sinais, como a expressão facial, a postura corporal e os movimentos das mãos.

A sintaxe da Libras

A sintaxe da Língua Brasileira de Sinais (Libras) se refere à maneira como os sinais são organizados para formar frases e expressões. A sintaxe da Libras é diferente da sintaxe do português, pois a Libras é uma língua de sinais visual e gestual, e não uma língua falada como o português.

Como os sinais se combinam

A sintaxe se refere à maneira como as palavras são combinadas para formar frases e expressões. A Libras possui suas próprias regras sintáticas, que são diferentes da gramática das línguas faladas. Na Libras, as palavras são representadas por sinais, que podem ser combinados de diferentes maneiras para transmitir diferentes mensagens.

Por exemplo: os sinais podem ser combinados em uma sequência linear, onde cada sinal é apresentado de maneira sequencial, ou podem ser apresentados de maneira simultânea, ao mesmo tempo ou em uma sequência diferente da linear.

Frases, perguntas e negações

A sintaxe da Libras também inclui a estrutura das frases, o uso de palavras funcionais, como conjunções e preposições, e a colocação de palavras em uma frase. Além disso, inclui a estrutura das orações e a maneira como elas são usadas para expressar diferentes tipos de mensagens, como perguntas, afirmações e negações.

Morfologia da Libras

A morfologia se refere à formação dos sinais e às suas estruturas internas. É a categoria da gramática que está intimamente ligada à sintaxe, já que a forma como cada sinal é montado influencia diretamente a forma como as frases são organizadas.

Na Libras, a morfologia é representada por configurações de mão, locações, orientações da palma, movimentos, expressões faciais e corporais, lateralidade (mão usada: direita e/ou esquerda) e se o sinal é feito com uma ou duas mãos.

Cada um desses parâmetros pode ser modificado de acordo com o contexto e o significado desejado. Por exemplo, um sinal pode ser modificado para expressar diferentes tempos verbais, como o presente, o passado e o futuro. Além disso, os sinais também podem ser modificados para expressar diferentes gêneros, números e outras propriedades gramaticais.

A locação de um sinal pode ser alterada para expressar diferentes tipos de mensagens, como perguntas, afirmações e negações. Além disso, a ordem das palavras na frase também pode ser alterada para expressar diferentes significados. Por isso, alguns linguistas denominam esse conjunto de morfossintaxe da Libras: a prova de que decorar sinal solto nunca foi o caminho, porque quem entende a estrutura por trás entende a língua de sinais.

Se você já leu até aqui, já sabe mais sobre a estrutura da Libras do que a maioria de quem começa um curso decorando lista de sinais soltos. Vale a pena aprofundar também em como montar frases em Libras na prática, aplicando essa gramática no dia a dia.

Qual o melhor jeito pra aprender a gramática da Libras

Como você percebeu, a gramática da Libras é um sistema de comunicação visual-motora que utiliza sinais, expressões faciais e corporais para transmitir mensagens.

Mas ficar tentando decorar regras de gramática da Libras, além de cansativo e repetitivo, pode acabar fazendo você desistir no meio do caminho. E isso é triste.

Além do que, ficar tentando se lembrar das regras de gramática da Libras na hora de conversar com uma pessoa surda só te faz ter literalmente dor de cabeça.

Por isso, o melhor jeito pra aprender a gramática da Libras é absorvendo a língua de sinais de forma natural, do jeito que qualquer língua se aprende de verdade: em contexto, não em lista de regras soltas. Foi vendo isso de perto, sessão após sessão, aluno após aluno travando na mesma regra decorada, que eu e minha esposa Raquel Barreto, que é surda, poeta e escritora, desenvolvemos o Método Fluente em Libras em 8 semanas, resultado de mais de 11 anos de pesquisas aprofundadas em neurociência cognitiva e linguística da Libras.

Se esse assunto de estrutura e regra te interessou, vale complementar com o outro lado da mesma moeda: por que misturar a gramática do português com a da Libras trava tanta gente.

Como citar este artigo

Formato ABNT (NBR 6023), para trabalhos acadêmicos.

BARRETO, Madson. Libras tem gramática: entenda como funciona. Salvador: Universidade da Libras, 2026. Disponível em: https://universidadedalibras.com.br/post/libras-tem-gramatica-entenda-como-funciona. Acesso em: data em que você lê a página.