Escrita de Sinais
Como Escrever a Libras: o que é a Orientação da Palma na Escrita de Sinais
Por Madson Barreto
O detalhe que faz o mesmo sinal virar outro, e por que anotá-lo é o que separa quem lembra do sinal de quem esquece.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras
A orientação da palma é um dos parâmetros que formam qualquer sinal em Libras, ao lado da forma da mão, do ponto de articulação, do movimento e da expressão facial.
Ela indica para onde a palma da mão aponta durante o sinal, e mudar só esse detalhe pode mudar o sentido do sinal inteiro.
Na Escrita de Sinais, o sistema conhecido como SignWriting, esse detalhe tem um registro gráfico próprio, o que permite anotar um sinal e recuperá-lo depois sem depender só da memória.
Por que você esquece um sinal que já sabia?
Isso acontece porque um sinal só visto, nunca anotado, vira uma lembrança vaga, não uma informação completa. Você guarda uma impressão geral do sinal, e na hora de usar, falta justamente a peça que faltou registrar.
Eu já ouvi isso de muito intérprete e muito aluno: "às vezes eu não me lembro, dá um branco, e eu fico paralisado na frente do surdo". Não é falta de estudo. É falta de registro.
Um vídeo de Libras mostra o sinal inteiro, mas ele passa. Você vê a mão se mexer, vê a expressão, vê o sinal acontecendo, e no segundo seguinte ele já não está mais na tela.
Sem um jeito de escrever esse sinal, o que sobra na sua memória é uma sombra do que você viu. A Escrita de Sinais existe justamente para não deixar essa sombra ser tudo o que resta.
O que é a orientação da palma na Libras?
A orientação da palma é a direção para onde a palma da sua mão está voltada enquanto você produz um sinal: para cima, para baixo, para o seu corpo ou para o lado. Ela é um dos cinco parâmetros que formam qualquer sinal, junto com a forma da mão, o ponto de articulação, o movimento e a expressão facial.
Esse parâmetro é, de longe, o mais esquecido de todos. A maioria dos materiais tradicionais de Libras foca na forma da mão, porque é o detalhe mais fácil de fotografar e de descrever num dicionário impresso.
O problema é que dois sinais podem ter a mesma forma de mão, o mesmo ponto de articulação e o mesmo movimento, e ainda assim significarem coisas diferentes só porque a palma está virada para um lado ou para o outro.
Não vou descrever aqui qual sinal muda de sentido dessa forma. Isso é conteúdo do livro Escrita de Sinais sem Mistérios, não de um artigo de blog.
Mas o princípio importa: um parâmetro esquecido é um sinal mal anotado, e um sinal mal anotado é um sinal que você vai esquecer de novo.
Por que esse detalhe passa batido
Quando alguém aprende Libras só assistindo vídeo, sem nenhum sistema de registro, o cérebro tende a prestar atenção no que é mais visível: a mão se mexendo, o formato dos dedos. A orientação da palma é sutil, e sutil é justamente o que a memória solta primeiro.
Como a Escrita de Sinais registra esse detalhe?
O SignWriting usa símbolos gráficos específicos para representar cada parâmetro de um sinal, incluindo a orientação da palma. A combinação desses símbolos forma o registro completo de um sinal, algo que nenhum vídeo sozinho entrega de um jeito consultável, como um dicionário.
Valerie Sutton criou o sistema em 1974, na Dinamarca, a partir de uma notação que ela já usava para registrar movimento de dança. Ele chegou ao Brasil em 1996 e hoje é adaptado para mais de 60 línguas de sinais ao redor do mundo.
Eu e minha esposa Raquel Barreto, que é surda, escrevemos o livro Escrita de Sinais sem Mistérios justamente para sistematizar isso. Foram seis anos de pesquisa e quase dois anos escrevendo, com o prefácio assinado pela própria Valerie Sutton.
Hoje esse livro é usado como referência em universidades, em pós-graduações e já apareceu até em questão de concurso público. Essa é a medida de quanto esse sistema, aplicado à Libras, já foi testado na prática.
Vídeo x papel: o que cada um resolve
O vídeo mostra o sinal acontecendo, no tempo real dele. A escrita mostra o sinal parado, decomposto nos parâmetros que o formam. Você precisa dos dois: um pra ver a língua de sinais viva, o outro pra guardar o que você viu de um jeito que não escapa.
Escrever à mão ou no computador: qual a diferença?
As duas formas registram o mesmo sistema, mas servem a momentos diferentes do seu aprendizado: escrever à mão fixa os símbolos na memória motora, o mesmo motivo pelo qual você lembra melhor de uma palavra escrita no papel do que uma só digitada, enquanto o computador serve pra organizar um glossário grande depois que você já domina o sistema.
- Papel: mais lento, mais fixação, melhor pra aprender os símbolos pela primeira vez
- Computador: mais rápido, melhor pra organizar um glossário grande depois que você já domina o sistema
Quando eu e a Raquel escrevemos o livro, usamos os dois formatos: os exercícios de fixação em papel, e o glossário final organizado em computador. Um sem o outro deixaria o processo pela metade.
Por que a Escrita de Sinais evita o erro do português sinalizado?
Quem aprende sinal por sinal solto, sem prestar atenção nos parâmetros, tende a cair no que eu chamo de português sinalizado: uma sequência de sinais soltos, na ordem do português, sem a gramática visual própria da língua de sinais. É Libras de mentira, ainda que pareça Libras.
Eu sempre digo: pare de aprender sinal por sinal, e comece a absorver a língua de sinais inteira, como uma esponja absorve a água ao redor dela. Um sinal fora do sistema que o forma é só uma foto.
Um sinal registrado com os cinco parâmetros é a língua de sinais de verdade entrando em você.
Registrar os parâmetros, incluindo a orientação da palma, obriga a prestar atenção neles enquanto você aprende. Você não decora um sinal solto: você absorve como aquele sinal se comporta dentro do sistema inteiro da Libras.
É por isso que o livro livro Escrita de Sinais sem Mistérios vai além de listar sinais pra decorar. Ele ensina a notação inteira, pra você registrar qualquer sinal novo que aprender depois, sem depender de vídeo nenhum.
Por onde começar a escrever seus próprios sinais?
A resposta direta é: comece pequeno. Organize um glossário pessoal com os sinais que você mais esquece, e use os cinco parâmetros como um checklist na hora de anotar cada um.
Não tente aprender o sistema inteiro de uma vez. Comece pelos sinais do seu dia a dia de trabalho ou de estudo, aqueles que você mais precisa e que mais te derrubam quando faltam.
O livro livro Escrita de Sinais sem Mistérios existe justamente pra você não precisar montar esse sistema sozinho, do zero, por tentativa e erro.
Ele já organiza 871 sinais catalogados, com a notação completa de cada parâmetro, prefaciado pela própria criadora do sistema.
Você pode começar lendo a introdução, se gosta de entender a teoria antes de praticar, ou pode ir direto pro glossário e começar a anotar o primeiro sinal que você esqueceu essa semana. As duas portas levam ao mesmo lugar: você parando de perder sinal que já aprendeu.
Perguntas frequentes
Orientação da palma é a mesma coisa que configuração de mão?
Não. Configuração de mão é o formato que os dedos assumem no sinal (mão fechada, mão aberta, dedo em pinça, por exemplo). Orientação da palma é a direção para onde essa mão, já naquele formato, está voltada. São dois parâmetros diferentes, e os dois precisam ser registrados juntos pra um sinal ficar completo.
Por que eu esqueço sinal mesmo depois de ver várias vezes?
Assistir a um sinal e registrar um sinal são processos diferentes. Um sinal visto em vídeo fica guardado como uma impressão geral, e o cérebro tende a perder primeiro os detalhes mais sutis, como a orientação da palma. Escrever o sinal, decompondo os parâmetros que o formam, cria um registro mais completo do que a memória sozinha consegue guardar.
Dá pra aprender Escrita de Sinais sozinho, sem curso?
Dá pra entender o conceito sozinho, mas aprender a notação inteira, com precisão, exige um material estruturado. É a diferença entre saber que existe um sistema de parâmetros e saber de fato registrar cada um deles do jeito certo, sem inventar sua própria versão incompleta.
Escrita de Sinais serve pra qualquer língua de sinais do mundo?
Sim. O SignWriting foi criado como um sistema de notação de movimento, não específico de uma língua de sinais, e hoje é adaptado para mais de 60 línguas de sinais ao redor do mundo, cada uma com seu próprio conjunto de sinais registrado dentro do mesmo sistema gráfico.
Quero praticar a escrita de sinais na prática, por onde começo?
Se você já entendeu a lógica e quer ir do conceito pra prática guiada, o Box Libras Sem Travas reúne o material físico pensado exatamente pra isso: treinar a leitura e a escrita de sinais com exercício real, não só teoria.
