Sinais em Libras
Por que os surdos parecem sinalizar Libras rápido demais para acompanhar
Por Madson Barreto
A resposta não está na velocidade da mão. Está em pensar direto na língua de sinais.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras
Os surdos não sinalizam Libras mais rápido que qualquer outra pessoa. O que acontece é que quem ainda não pensa direto na língua de sinais está fazendo, ao vivo, uma tradução mental do português para os sinais e dos sinais de volta para o português.
Essa tradução consome tempo que uma conversa real não dá. Por isso a sinalização do surdo parece disparada: ela não passa por esse pedágio mental.
A boa notícia é que essa lentidão não é falta de talento. É um hábito, e hábito se troca.
Por que a sinalização do surdo parece rápida demais para acompanhar
A sinalização do surdo parece rápida porque, na cabeça de quem ainda não pensa em Libras, existe uma espécie de vozinha traduzindo cada sinal para o português antes de processar o próximo.
Essa vozinha trabalha atrasada. O surdo não carrega essa voz em português: ele já pensa a ideia direto em sinais, e por isso parece sempre um passo à frente.
O choque de coordenar 55 funcionários surdos e ainda travar
Eu já vivi isso na pele, e não foi no início da minha trajetória com a língua de sinais.
Eu tinha dezesseis anos de convivência com a Libras e estava coordenando cinquenta e cinco funcionários surdos numa reunião de trabalho. Enquanto eu sinalizava, duas pessoas ao meu lado sinalizavam junto comigo.
Por um instante achei que estavam batendo papo entre elas. Não estavam. Elas estavam traduzindo o que eu falava para o resto do grupo entender.
Foi um choque. Eu não tinha começado a estudar a língua de sinais no dia anterior, tinha anos de prática real. E mesmo assim, para aquele grupo específico, minha sinalização ainda pedia tradução.
O problema nunca foi a velocidade da minha mão. Era o quanto do meu pensamento ainda passava pelo português antes de virar sinal.
Decorar frases prontas não ensina a pensar em Libras
Decorar frase pronta em Libras treina reconhecer aquela frase específica, não montar uma frase nova na hora que a conversa pede.
Por isso quem decora trava diante de qualquer pergunta que fuja do script, mesmo depois de anos de prática. A maior parte do que se vende como aula de Libras em vídeo por aí é lista de frase pronta, montada em cima da estrutura do português.
Isso ensina vocabulário. Não ensina a língua de sinais.
Eu costumo dizer para os meus alunos: para de aprender Libras, comece a absorver Libras. Aprender pressupõe decorar peça por peça, uma de cada vez, até juntar tudo.
Absorver é diferente: é o que uma esponja faz dentro d'água, ela não escolhe guardar gota por gota, ela se molha inteira.
Foi esse princípio que virou a base do Fluente em Libras em 8 semanas, o método que desenvolvi depois de ver o mesmo travamento se repetir aluno após aluno.
A dor de cabeça no começo do namoro com a Raquel
Quando comecei a namorar a Raquel, hoje minha esposa, que é surda, eu voltava de quase todo encontro com dor de cabeça. Não era falta de vontade de conversar.
Era esforço mental dobrado: primeiro eu recebia a ideia em sinais, traduzia para o português dentro da minha cabeça, processava, e só depois formulava a resposta, de novo traduzindo por dentro antes de sinalizar. Isso cansa muito mais do que conversar direto.
O cansaço físico era o sinal mais claro de que eu ainda não pensava em língua de sinais. Eu pensava em português e ficava convertendo o tempo todo.
O mesmo padrão de quem decorou inglês na escola sem nunca pensar na língua nova
Esse padrão não é exclusivo da Libras: quem estudou anos de inglês na escola e ainda trava para assistir um filme sem legenda viveu o mesmo problema, porque decorou palavra traduzida sem nunca pensar direto na língua nova.
Quem passa da quinta série ao terceiro ano do ensino médio estudando inglês e ainda trava numa conversa simples com um estrangeiro não fracassou pela dificuldade do idioma.
Fracassou porque decorou palavra traduzida do português, ano após ano, sem nunca treinar pensar direto na língua nova. Com Libras acontece o mesmo.
Quem aprende por lista de frase traduzida carrega para a língua de sinais o mesmo hábito que travou tanta gente no inglês da escola: reconhecer palavra, nunca pensar na língua em si.
Só ter contato com pessoas surdas resolve sozinho?
Não sozinho.
Conviver com pessoas surdas ajuda o ouvido e o olho a se acostumarem com o ritmo real da conversa, mas não corrige, por si só, o hábito de traduzir por dentro. Esse hábito precisa ser identificado e desmontado de propósito.
Assistir a vídeos de poesia em Libras produzidos pela própria Raquel Barreto, minha esposa, que é surda, tentando acompanhar o sentido sem esperar tradução, ajuda o olho a se acostumar com o ritmo real da língua de sinais.
Mas atenção: assistir sozinho não troca o hábito, só cria a chance de perceber ele acontecendo. A correção de verdade costuma vir de alguém apontando, na sua sinalização específica, onde a tradução mental ainda está presente.
Foi exatamente esse tipo de acompanhamento que faltou para mim durante anos, e que hoje é parte do que ofereço na Mentoria Maestria na Libras.
Quanto tempo leva até parar de traduzir por dentro
Não é uma questão de quanto tempo você estuda. É de qual caminho você segue.
Tem aluna minha, a Adriana, que tentou por mais de vinte anos pelo caminho de decorar frase por frase. Tem outra, a Luana, que trocou de caminho e ficou fluente em seis semanas.
As duas se dedicaram de verdade, então esforço não explica a diferença entre elas. Quem explica é o caminho: uma decorou sinal por sinal, do jeito de sempre; a outra aprendeu a pensar direto na língua de sinais, absorvendo em vez de traduzir.
Por isso, quando alguém me pergunta quanto tempo leva para acompanhar uma conversa em Libras no ritmo real, sem aquele atraso de tradução, eu respondo que depende de qual caminho a pessoa está disposta a trocar.
Não depende de quantas horas ela ainda vai empilhar fazendo a mesma coisa que já não funciona.
Perguntas frequentes
Os surdos sinalizam mais rápido que os ouvintes?
Não. A sinalização do surdo segue o ritmo natural da língua de sinais dele. Quem ainda traduz por dentro, do português para os sinais, é que perde tempo de processamento e sente a conversa como acelerada demais para acompanhar.
Por que eu entendo Libras mas travo na hora de responder rápido?
Geralmente é sinal de que você reconhece vocabulário, mas ainda não processa a língua de sinais de forma independente. O cérebro trava porque tenta montar, na hora, algo que só foi treinado como frase fixa.
Só assistir vídeo de Libras ajuda a acompanhar o ritmo real?
Ajuda o olho a se acostumar com o ritmo, mas sozinho não corrige o hábito de traduzir por dentro. Esse hábito específico costuma precisar de alguém acompanhando de perto a sua sinalização.
Por que eu fico cansado depois de uma conversa em Libras?
É um sintoma comum de quem ainda traduz por dentro, do português para a língua de sinais e de volta, em vez de pensar direto nela. Esse esforço mental duplo cansa mais do que conversar direto.
