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Escrita de Sinais

História da Escrita de Sinais no Brasil: de 1996 até virar campo acadêmico inteiro

Por Madson Barreto

Trinta anos depois de um grupo de pesquisa em Porto Alegre, a Libras escrita já está em 41 universidades brasileiras, em concurso público e no caderno de criança surda.

Madson Barreto

Intérprete e fundador da Universidade da Libras

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9 min de leitura

A história da Escrita de Sinais no Brasil começa em 1996, na PUC-RS, em Porto Alegre, com o grupo de trabalho do Dr. Antônio Carlos da Rocha Costa. Trinta anos depois, virou tese, virou escola, virou conteúdo de concurso público, e hoje soma 41 universidades brasileiras com pelo menos um trabalho acadêmico dedicado ao tema.

Quando você entende de onde ela veio, a pergunta deixa de ser se a Libras pode ser escrita e passa a ser quando você vai aprender a escrever a sua.

Quando a Escrita de Sinais chegou ao Brasil?

Em 1996, na PUC-RS, em Porto Alegre. O Dr. Antônio Carlos da Rocha Costa formou um grupo de trabalho com a professora Márcia de Borba Campos e a professora Marianne Rossi Stumpf, surda, primeira pesquisadora surda do Brasil a atuar na área. Desse grupo nasceu o projeto SignNet, que durou de 1996 a 2006, com apoio do CNPq, da FINEP, da FAPERGS e da UCPel, e foi executado em quatro instituições: a Escola de Informática da UCPel, o Museu de Ciência e Tecnologia da PUC-RS, a Faculdade de Informática da PUC-RS e o Colégio ULBRA Especial Concórdia.

Por que o começo foi dentro da computação, e não da pedagogia

O Brasil entrou na Escrita de Sinais pela porta da informática porque o problema concreto, em 1996, era outro: como colocar um sinal na tela e no papel de um jeito que um computador conseguisse comparar. O SignNet investigava como determinar igualdade ou semelhança entre dois sinais escritos, para permitir busca em dicionário e em texto. É por isso que o primeiro produto brasileiro relevante do campo foi um padrão técnico, não um livro didático. E é esse detalhe que explica o buraco que sobrou por anos: o motor já existia, faltava alguém traduzir aquilo em método para gente de carne e osso aprender a escrever.

O que o Brasil devolveu para o mundo

Do SignNet nasceu o SWML, um padrão em XML que armazena a Escrita de Sinais como código, não como imagem. O SWML influenciou diretamente a criação do SignPuddle, dois anos depois. O Brasil não importou passivamente o SignWriting: contribuiu com uma peça que passou a rodar no sistema internacional inteiro.

Quem foi Valerie Sutton e por que a Libras não inventou a própria escrita?

O SignWriting nasceu em 1974, na Dinamarca, criado por Valerie Sutton, bailarina americana que, entre 1970 e 1972, já tinha desenvolvido o DanceWriting para registrar movimento de dança no papel. Um pesquisador da Universidade de Copenhague, Lars von der Lieth, viu uma notícia de jornal sobre a jovem que escrevia movimento e chamou Sutton para aplicar aquele sistema a vídeos de pessoas surdas sinalizando.

O experimento que provou que sinal tem estrutura

Entregaram a Sutton duas gravações. Uma com ouvintes dinamarqueses conversando e gesticulando. Outra com pessoas surdas sinalizando em língua de sinais dinamarquesa. Sozinha, com papel e caneta, ela transcreveu os dois vídeos quadro a quadro. Os gestos dos ouvintes saíram soltos, sem sistema. Os sinais das pessoas surdas revelaram estrutura e organização gramatical de verdade. A própria Sutton resumiu o que aconteceu depois: "Não fui eu quem decidiu que as línguas de sinais deveriam ser escritas. Foram os surdos e pesquisadores que me pediram isso. Eu apenas ouvi" (Sutton, 2024). Em outro relato, ela contou: "Imediatamente disse aos pesquisadores que acreditava que a Língua de Sinais Dinamarquesa não era apenas uma língua real, mas que deveria ser escrita" (Sutton, 2024). Esta seção fala sobre o sistema, sem ensinar a escrever nenhum sinal específico.

O jornal escrito só em sinais, antes de existir Brasil nessa história

Poucos anos depois, já existia o The SignWriter Newspaper: de 12 a 24 páginas escritas inteiramente à mão, de 3 a 4 edições por ano, com tiragem de 11 mil exemplares distribuídos gratuitamente em 41 países. A Escrita de Sinais já tinha leitor de jornal antes de ter aluno no Brasil. É bom guardar esse dado quando alguém disser que isso é "invenção recente".

Sutton fez a parte mais difícil: provar, sozinha, com papel e caneta, que sinal tinha estrutura e merecia sistema próprio de escrita. A parte brasileira dessa mesma jornada começa exatamente onde o capítulo anterior deste texto parou, em 1996, na PUC-RS. E é a mesma jornada que, anos depois, levaria Madson e Raquel a pegar esse legado e aprofundá-lo especificamente para a Libras.

O ano de 1996 escrito em Escrita de Sinais: o marco em que a pesquisa brasileira sobre o tema começou, registrado na própria língua que ela ajudou a documentar.
O ano de 1996 escrito em Escrita de Sinais: o marco em que a pesquisa brasileira sobre o tema começou, registrado na própria língua que ela ajudou a documentar.

Quais foram os marcos brasileiros, ano a ano?

Uma linha do tempo enxuta, só com o que está documentado:

  • 1996: início da pesquisa brasileira na PUC-RS, projeto SignNet (1996 a 2006).
  • 1999: SignDic, primeira dissertação de mestrado brasileira do campo (PUCRS).
  • 2001: primeira tese de doutorado do campo (Márcia de Borba Campos, UFRGS) e início do SW-Edit (UCPel).
  • 2005: tese de Marianne Rossi Stumpf (UFRGS), marco fundador da pesquisa de letramento em Escrita de Sinais no Brasil.
  • 2006: primeira turma do curso Letras/Libras a distância leva a Escrita de Sinais a pessoas surdas de 18 estados.
  • 2012: publicação do primeiro livro brasileiro dedicado exclusivamente ao tema.
  • 2014: documento sobre Educação Bilíngue dos Surdos, encaminhado ao MEC, defende a aquisição do SignWriting pelas crianças surdas.
  • 2017 a 2019: pico de produção acadêmica do campo inteiro.
  • 2024: tese propõe caminhos concretos para oficialização da Escrita de Sinais como política linguística.
  • 2025 e 2026: onda de concursos públicos com Escrita de Sinais no conteúdo programático.

2006, quando a Escrita de Sinais entrou na formação de professor surdo

O primeiro curso Letras/Libras a distância levou esses conhecimentos a pessoas surdas de 18 estados brasileiros como parte do currículo. É o momento em que o campo sai do laboratório de informática e vira formação de professor, o que ajuda a explicar a explosão de dissertações que vem a partir dali.

2012, quando a pesquisa virou livro

Por anos, o conhecimento sobre Escrita de Sinais no Brasil ficou espalhado em dissertação difícil de achar fora da universidade. Sutton tinha criado o sistema, o SignNet tinha provado que o Brasil sabia trabalhar com ele, mas faltava alguém pegar esse legado e traduzir em método para gente de carne e osso aprender a escrever a própria Libras. Em 2012, eu e a Raquel publicamos o primeiro livro brasileiro dedicado exclusivamente ao tema, com metodologia passo a passo focada na Libras. Hoje ele já chegou a leitores em mais de 746 cidades, nos 27 estados brasileiros.

Quantas universidades brasileiras já pesquisam Escrita de Sinais?

Três números, cada um com a própria base, sem misturar:

São 41 universidades brasileiras com pelo menos uma dissertação, tese ou trabalho de conclusão de curso dedicado ao SignWriting (base: levantamento item a item, com fonte primária lida, cobrindo de 1996 a 2026). Somando dissertações e teses desse mesmo levantamento, são 77 trabalhos, sendo 56 dissertações de mestrado e 21 teses de doutorado, defendidos entre 1999 e 2025. E, somando todo tipo de publicação sobre o tema (dissertação, tese, artigo, TCC, livro, dicionário e material didático, cada item conferido com PDF ou metadado aberto), o total chega a 235 publicações acadêmicas.

Onde essa pesquisa está concentrada

A UFSC é hoje a maior produtora do campo. A UFRGS foi o núcleo fundador, entre 2001 e 2013. Um levantamento anterior, de base diferente (62 dissertações e teses entre 1999 e 2018, defendidas em mais de 30 universidades públicas e privadas de todas as regiões do país), mostra a distribuição por área: a maior parte veio de Educação (33 trabalhos), Linguística (12) e Ensino (6), com produção também em Letras, Computação, Psicologia, Saúde e História.

A Escrita de Sinais já saiu da universidade

Hoje ela aparece em escolas de educação básica, com concentração no Rio Grande do Sul e registros também em São Paulo e Sergipe, no curso técnico EAD que o IFSul ofereceu em 2023, e no conteúdo programático de concurso público desde 2018, com uma onda de concursos concentrada em 2025 e 2026. Quem estuda Escrita de Sinais hoje não está adiantando um assunto de nicho: está estudando o que o mercado de trabalho de quem interpreta Libras já começou a cobrar.

O sinal de Brasil registrado em Escrita de Sinais: o mesmo sistema que hoje sustenta pesquisa em 41 universidades espalhadas pelo país.
O sinal de Brasil registrado em Escrita de Sinais: o mesmo sistema que hoje sustenta pesquisa em 41 universidades espalhadas pelo país.

O que a Escrita de Sinais é, afinal, e o que ela não é?

A Escrita de Sinais registra o sinal em si, não a tradução dele para o português. O SignWriting usa relações espaciais dentro de uma caixa bidimensional para representar cada sinal, registrando os articuladores, inclusive as expressões não manuais, quando elas são necessárias para o entendimento.

Por que ela não é "português com desenhinho"

Quando uma criança surda lê um texto em língua oral e converte as letras na soletração digital correspondente, ela não chega ao sinal lexical que usa no dia a dia, e essa é uma diferença crucial em relação à criança ouvinte (Stumpf, 2005). A Escrita de Sinais resolve exatamente esse buraco: quando a criança vê o próprio sinal registrado no papel, ela entende que a língua dela cabe ali, inteira, sem depender de outra língua no meio do caminho.

Em quantos países esse sistema já é usado

Hoje o SignWriting é usado em 66 países, em contexto educacional, acadêmico, comunitário e artístico (base: levantamento próprio da Universidade da Libras, mais aprofundado que a contagem do site oficial signwriting.org). A imagem abaixo mostra o próprio sinal de "Escrita de Sinais" registrado nesse sistema.

O próprio termo Escrita de Sinais registrado no sistema SignWriting: o sinal que nomeia o assunto deste artigo, escrito com o mesmo sistema que ele descreve.
O próprio termo Escrita de Sinais registrado no sistema SignWriting: o sinal que nomeia o assunto deste artigo, escrito com o mesmo sistema que ele descreve.

Por que a Escrita de Sinais ainda não é obrigatória por lei?

Porque, historicamente, a lei chega depois do uso. A Lei 10.436/2002 reconheceu a Libras depois de décadas de uso real. O Decreto 5.626/2005 estabeleceu a Libras como primeira língua do estudante surdo e o português escrito como segunda língua. Em 2014, um documento sobre Educação Bilíngue dos Surdos, elaborado por especialistas, incluindo pesquisadores surdos, e encaminhado ao MEC, passou a defender a aquisição do sistema SignWriting pelas crianças surdas como parte do processo bilíngue de alfabetização.

A tese que mapeou o caminho da oficialização

Gregório (2024) entrevistou professores surdos de universidades federais das cinco regiões do país e concluiu que, entre as propostas de sistema de escrita em circulação no Brasil, o SignWriting é a única com uso consolidado, aceitação majoritária e presença prática da educação infantil ao ensino superior. A pesquisa documentou presença concreta em placa escolar, roteiro turístico, gibi, postagem institucional e artigo científico.

O que isso significa para quem aprende hoje

Você já deve ter visto escola citar Escrita de Sinais e ninguém ali saber usar de fato. Você já deve ter visto concurso público cobrar o tema e candidato descobrir isso em cima da hora. A lei está correndo atrás da prática, e é exatamente por isso que quem aprende antes da lei chegar é quem vai formar os outros depois.

Por onde alguém começa a estudar Escrita de Sinais no Brasil hoje?

Pela mesma fonte que documentou boa parte da história que você acabou de ler. Sutton abriu o sistema para o mundo. O Brasil abriu o sistema para a informática, com o SignNet. Faltava alguém fechar o ciclo e abrir o sistema para quem só quer aprender a escrever a própria língua, sem precisar ser pesquisador. A segunda edição do livro Escrita de Sinais sem Mistérios, de 2015, passou a ser referência citada em faculdade, universidade, pós-graduação, concurso público e escola de surdos, incluindo uma prova de concurso de 2026 que cita o livro diretamente. A terceira edição comemorativa, de 2025, revisitou todo o acervo de Valerie Sutton, materiais publicados, orientações técnicas e documentos históricos, somados às anotações, aos registros, aos testes em sala de aula e aos retornos de leitores, alunos e mentorados acumulados ao longo de mais de dez anos. A história que você acabou de ler está inteira, com fonte, dentro do capítulo dedicado à Escrita de Sinais no Brasil desse livro.

Existe quem lê um artigo como este, acha bonito e segue a vida. E existe quem lê e percebe que está a um passo de escrever a própria língua. Nenhuma das duas escolhas precisa de vergonha. Só uma delas tem passo concreto seguinte.

Para quem quer não só o livro de Escrita de Sinais, mas o sistema completo, o Box Libras Sem Travas reúne esse e outros títulos numa coleção só.

Perguntas frequentes

Quando a Escrita de Sinais chegou ao Brasil?

Em 1996, na PUC-RS, em Porto Alegre. O Dr. Antônio Carlos da Rocha Costa formou um grupo de trabalho com a professora Márcia de Borba e a professora Marianne Stumpf, surda, e daí nasceu o projeto SignNet, que durou de 1996 a 2006, com apoio do CNPq, da FINEP, da FAPERGS e da UCPel. O primeiro mestrado brasileiro dedicado ao tema foi defendido em 1999.

Quem inventou a Escrita de Sinais?

Valerie Sutton, em 1974, na Dinamarca. Ela era bailarina e já tinha criado o DanceWriting para registrar movimento no papel. Pesquisadores da Universidade de Copenhague pediram que ela aplicasse aquilo a vídeos de pessoas surdas sinalizando. Sutton sempre repetiu que não foi ela quem decidiu que as línguas de sinais deveriam ser escritas: foram os surdos e pesquisadores que pediram, e ela apenas ouviu.

A Escrita de Sinais é reconhecida por lei no Brasil?

Ainda não existe lei que a torne obrigatória, mas ela já entrou na política pública pela prática. Em 2014, um documento sobre Educação Bilíngue dos Surdos, elaborado por especialistas, incluindo pesquisadores surdos, e encaminhado ao MEC, defendeu a aquisição do sistema pelas crianças surdas na alfabetização. Desde 2018 ela também aparece em conteúdo programático de concurso público, com uma onda forte em 2025 e 2026.

Quantas universidades brasileiras pesquisam Escrita de Sinais?

São 41 instituições brasileiras com pelo menos uma dissertação, tese ou trabalho de conclusão dedicado ao tema, num levantamento que conferiu cada item com fonte primária. Somando dissertações e teses, são 77 trabalhos entre 1999 e 2025. A UFSC é hoje a maior produtora do campo, e a UFRGS foi o núcleo fundador entre 2001 e 2013.

A Escrita de Sinais é a mesma coisa que português escrito?

Não. Ela registra o sinal em si, não a tradução dele. O sistema usa relações espaciais dentro de uma caixa bidimensional para representar cada sinal, inclusive as expressões não manuais, quando são necessárias ao entendimento. Por isso uma pessoa surda lê ali a própria língua, e não uma versão traduzida dela para outro idioma.