Curso de Libras
Como sair do nível intermediário em Libras: o que você não percebe
Por Madson Barreto
O platô do intermediário mora no que a pessoa ainda não vê na própria sinalização, e quem descobre isso para de correr atrás de sinal novo.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras
Sair do nível intermediário em Libras significa parar de tratar o que você já sabe como o tamanho da língua de sinais e passar a trabalhar o que ainda passa despercebido: o rosto, o olhar, o corpo e os usos escondidos dos sinais que você conhece. Mais sinais soltos não resolvem.
Você já monta frases. Já conhece muitos sinais. Já ouviu de um colega ouvinte "nossa, você sabe Libras". E lá no fundo sente que falta algo. Dá para dizer o que falta, e dá para medir onde você está com um teste de 20 minutos.
O que é o platô do nível intermediário em Libras e por que ele acontece?
O platô no aprendizado de Libras é a fase em que você monta frases, conhece muitos sinais e sustenta algum diálogo, mas para de evoluir e sente que falta algo. Na minha experiência, ele nasce de três coisas: acomodar-se no que já sabe, achar que só falta vocabulário e não saber qual é o próximo passo.
Chegar ao intermediário é uma conquista de verdade. O problema começa quando ela vira teto e você para de evoluir na Libras: você se compara com colegas de curso, família e amigos, todo mundo concorda que você sabe Libras, e você sabe, lá no fundo, que não sabe tanto assim.
Eu passei por isso. Terminei o curso com notas excelentes e saí sentindo que faltava algo. No ônibus eu encontrava uma pessoa do meu bairro que fazia o curso intermediário, olhava o jeito dela de sinalizar e pensava que ali também faltava alguma coisa.
As três travas do intermediário
- Acomodar-se. Você sinaliza melhor do que os colegas e conclui que já está bom. Quanto mais olha para o que tem, menos dá passos novos. É um dos freios de mão que travam a fluência.
- Achar que falta só vocabulário. Quem não se acomodou costuma bater em situações novas de conversa com surdos e conclui que precisa de mais sinais. O que falta quase sempre é outro tipo de sinalização, e mais sinal não entrega isso.
- Não saber o que fazer. Quais são os sinais mais avançados? Quais são as estruturas mais profundas? Sem resposta, a pessoa vai para o YouTube e para as redes sociais e aprende um sinal aqui, outro ali, de forma mecânica e isolada.
Ninguém sabe tudo da Libras. Ela tem incontáveis jeitos de montar frases e de se comunicar, e é justamente aí que o seu desenvolvimento fica mais leve, mais prático e mais intuitivo.
Como saber se você está no nível intermediário ou já é fluente?
Não existe régua oficial: cada escola decide o que chama de básico, intermediário e avançado. O critério útil é o que você faz diante de um surdo. O meu teste é simples: você sustenta 20 minutos de conversa direto em Libras? Esse critério é meu, sem pesquisa formal por trás.
Pelo que conheço do meio, o mesmo "básico" muda de um lugar para outro, e quem troca de escola às vezes recomeça do zero. Por isso eu olho para o comportamento.
O teste dos 20 minutos, em quatro perguntas
Responda de cabeça, pensando na última vez que você esteve diante de um surdo:
- 1. Você manteve 20 minutos de conversa direto em Libras, sem soletrar toda hora, sem anotar em português e sem tentar falar com os lábios?
- 2. Ao sinalizar, você pensa em Libras ou pensa em português e traduz? (Esse ponto tem um artigo inteiro: como pensar em Libras sem traduzir do português.)
- 3. Quando um surdo sinaliza só em Libras, você entende tudo o que ele quer passar?
- 4. Numa cidade distante, você entende os surdos de lá e eles entendem você?
Fluência, para mim, é o ponto de chegada desse caminho: pensar direto em Libras e se comunicar com surdos no dia a dia, entendendo e se fazendo entender, da conversa em casa ao atendimento no hospital.
Quem responde "ainda não" a algum dos quatro pontos está no intermediário, e isso é um ponto de partida claro.
Eu costumo comparar com um rio: a água contorna o obstáculo. Você não precisa saber tudo da Libras, precisa saber contornar o que aparece.
Por que estudar mais sinais e só conviver com surdos não tira você do platô?
O platô não vem de pouco vocabulário. Vem do que você ainda não sabe fazer com os sinais que tem e de uma lógica da Libras que não depende da lógica do português. Contato com surdos ajuda muito, mas sozinho não basta, e sinal a mais sem essa base só alonga a lista.
O contato com surdos ajuda, mas sozinho não basta
Se bastasse conviver com surdos, todo familiar de surdo dominaria a Libras. O que eu vejo: muita gente convive com surdos em casa, no trabalho e na igreja e sabe pouco de Libras. É um relato meu, sem pesquisa por trás.
Quando o nível de sinalização dos surdos ao seu redor puxa você para o passo seguinte, você capta sinais, expressões e jeitos novos de montar frase. Mesmo assim, você está ali para conversar, e muito sinal passa sem você pegar.
Eu vivi esse limite. Eu coordenava 55 funcionários surdos, de 18 a 73 anos, e tinha mais contato com surdos do que a maioria das pessoas que estudam Libras.
Mesmo assim cheguei num ponto em que percebi que aquele caminho sozinho não me levaria a outro nível. Fui entendendo outros mecanismos da língua de sinais e criando práticas específicas.
Depois disso, surdos daquele grupo me chamaram para almoçar na casa deles, para interpretar reunião na escola do filho, para consulta médica, e foram ao meu casamento. Os convites vieram depois do meu desenvolvimento na Libras.
Você conhece os sinais, mas conhece o que eles fazem?
Os sinais que você já sabe guardam mais do que você usa. Um sinal que muita gente aprende com um único significado aparece em situações bem diferentes: a televisão que voltou a funcionar depois do conserto, o coração que voltou a bater, algo que acontece ao vivo, agora.
Quem só decorou o significado da lista não vê nada disso.
Um aluno nosso mostra o custo disso. Estudava sozinho: comprou apostilas, baixou material, assistiu a tudo no YouTube e chegou a anotar quantos sinais achava que sabia.
Foi fazer a prova de seleção para atuar como intérprete de Libras, e a banca durou menos de cinco minutos. Ele entrou no método Fluente em Libras, refez a mesma prova e passou. Ele já tinha o número de sinais. Faltava o que dá vida a eles.
O que o rosto, o olhar e o corpo mostram que o intermediário não percebe?
Na língua de sinais, o rosto, o olhar e o corpo fazem parte da estrutura: mudam o sentido de um sinal e da frase inteira. O intermediário costuma ver só as mãos. E tudo o que você não percebe, você não aprende, porque nem chega a notar que existe algo novo ali.
Na Chapada Diamantina, onde a gente estava morando, fiz uma trilha com a Raquel, minha esposa, que é surda, com a câmera ligada. Ela sinalizou, e eu comecei a traduzir. Terminei de traduzir uns 20 segundos depois de ela ter parado.
Ela achou que eu já estava falando de outro assunto. Eu disse: amor, eu ainda estou traduzindo o que você falou. Com rosto e corpo, ela disse muita coisa usando menos sinais de mão.
A mesma frase, com os mesmos sinais de mão, pode dizer que a pessoa vai para casa feliz da vida ou pensativa.
O que muda está no rosto e no corpo. Quem está no intermediário costuma não notar essa diferença, e quem não nota fica com a sinalização "crua". É como o verbo to be da escola: você decorou, sabe o sinal cru e, na hora de usar, não conhece as nuances.
Na minha leitura, um dos grandes impulsos da escrita de sinais foi perceber que as línguas de sinais têm expressão facial e corporal. No nosso livro "Escrita de Sinais sem Mistérios" há textos completos em Libras, e o que dá vida a eles são os movimentos que não são das mãos.
Para aprofundar só nessa parte, tenho um artigo sobre expressões faciais na Libras. Se o seu incômodo é acompanhar surdos que sinalizam rápido, veja como fazer a Libras rápida igual aos surdos.
Como um olhar de fora ajuda quem está preso no nível intermediário?
Um olhar de fora mostra o que você não vê sozinho, porque a sua própria sinalização virou o normal para você. Quem sabe onde você está aponta o que você já absorveu e o que vem agora. Sem esse olhar, o intermediário tende a repetir o que já domina.
Você vive como o peixe dentro da água: para ele, tudo é água. Comigo foi assim na faculdade de Letras-Libras.
Eu levava para a sala o que ia descobrindo da Libras. Só percebi o efeito quando uma colega me disse que fazia tempo que eu não trazia minhas contribuições e que, quando eu falava, todo mundo parava para ouvir. Para mim, aquilo era o normal.
Na Libras, esse ponto cego dura mais, porque falta quem dê retorno. Mentorados me contam que as pessoas da área têm medo de dar feedback, e que o surdo, por gentileza, entende o português sinalizado e não corrige. Isso é uma leitura das mentorias, não uma pesquisa.
Um mentorado me disse que descobriu que não sabia tanto quanto achava. Essa descoberta incomoda, e é onde o movimento começa.
Nas mentorias, eu observo a sinalização de quem está começando e de quem já está no intermediário, e aponto até onde a pessoa já absorveu: até aqui você já pegou, agora vamos trabalhar estes aspectos, com estas práticas.
Na Mentoria Maestria na Libras esse olho no olho é o centro do trabalho, com trilhas conforme o nível de cada pessoa e prática voltada para a cultura surda.
O que muda quando você entende a essência da Libras em vez de decorar mais frases?
Você passa a entender até um sinal que nunca viu, porque enxerga a lógica por trás dele. Quem decora frases depende de já ter visto o sinal; quem domina a essência se vira com o que aparecer. Por isso o intermediário que decora mais e mais frases estaciona.
Quando eu era criança, minha mãe fazia chup-chup para vender. Fazia de coco, de amendoim, e um de menta que ninguém mais no bairro fazia: gente de outras ruas vinha comprar.
O segredo era uma essência de menta que ela comprou num vidro. Eu via com meus próprios olhos: ela sabia a essência, a quantidade certa, e no de coco colocava um pouquinho de sal para equilibrar o doce. Como dominava a essência, fazia várias combinações, e todo mundo queria mais.
Com a Libras acontece o mesmo. Quem tem a essência olha para um sinal novo, mesmo no primeiro contato, e entende a lógica por trás dele, das mãos ao rosto, várias camadas captadas de uma vez.
É o que eu chamo de absorver: pense numa esponja dentro da água. Ela absorve o que está ao redor e, quanto mais tempo passa lá dentro, mais cheia fica. Absorver a Libras, no fim, quer dizer pensar direto nela. O guia de como aprender a Libras mostra o caminho inteiro, do começo até aqui.
Hoje à noite, ao assistir a um vídeo de um surdo sinalizando, escolha um trecho curto e veja de novo olhando só o rosto e o corpo. É um começo para perceber o que antes passava batido.
O próximo nível só parece distante para quem fica dando voltas.
Perguntas frequentes sobre como sair do nível intermediário em Libras
Como saber se já sou fluente em Libras?
Pelo meu critério, sem pesquisa formal, você é fluente quando diz sim aos quatro pontos do teste: sustenta 20 minutos de conversa direto em Libras, pensa em Libras sem traduzir do português, entende quem sinaliza só em Libras e se entende com surdos de outra cidade.
Preciso de um curso avançado de Libras para sair do intermediário?
Não necessariamente. Cada escola desenha o seu avançado, e o nome do nível muda de lugar para lugar. O que decide é o que você consegue fazer diante de um surdo: sustentar a conversa, entender sinalização só em Libras e pensar direto nela, sem traduzir do português.
Só conviver com surdos basta para avançar?
Ajuda muito, mas sozinho não basta para melhorar em Libras. O ambiente precisa ter o nível certo, e você precisa de uma prática pensada para o seu próximo passo, com alguém que olhe a sua sinalização e mostre o que você ainda não percebe.
Quanto tempo leva para sair do nível intermediário?
Depende das horas de prática, do contato com surdos e de ter direção, e não dá para cravar um número honesto. No método Fluente em Libras, a pessoa que segue todas as etapas chega ao final das 8 semanas se comunicando em Libras, e o marco da semana 6 é pensar direto em Libras.
