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História da Libras

Setembro Azul: o que a comunidade surda pede que você entenda

Por Madson Barreto

O mês inteiro reúne uma escola de 1857, uma lei de 2008 e uma resolução da ONU de 2017. A conversa que falta é a sua com um surdo, em Libras.

Madson Barreto

Intérprete e fundador da Universidade da Libras

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9 min de leitura

O Setembro Azul é o mês de visibilidade da comunidade surda brasileira, de 1º a 30 de setembro. Nenhuma lei o criou: é uma campanha do movimento surdo, ligada a marcos do mês, como o 23 e o 26 de setembro. O que a comunidade surda pede nesse mês cabe numa frase: entenda a Libras como língua de sinais completa e converse com o surdo nela. Falta explicar por que a cor é azul, e as fontes contam essa parte de jeitos diferentes.

O que é o Setembro Azul e por que ele acontece em setembro?

O Setembro Azul é o mês em que a comunidade surda brasileira mostra sua história e seus direitos, de 1º a 30 de setembro. Segundo páginas de universidades e institutos federais, é uma campanha do movimento surdo, sem lei própria. Setembro reúne marcos de escola, de língua de sinais e de direito, e esse é o significado do Setembro Azul.

Alguns textos sobre a data usam também o nome Setembro Surdo, que põe a identidade das pessoas surdas no centro e deixa a cor em segundo plano. Os dois nomes circulam, e usar qualquer um é seguro.

Quatro marcos organizam o mês:

  • 6 a 11 de setembro de 1880: Congresso de Milão, que recomendou o método oral no ensino de surdos.
  • 21 a 27 de setembro de 2026: Semana Internacional dos Surdos, segundo a Federação Mundial de Surdos.
  • 23 de setembro: Dia Internacional das Línguas de Sinais, da ONU.
  • 26 de setembro: Dia Nacional dos Surdos, criado por lei brasileira em 2008.

Milão pesa na memória da comunidade, mas o herói dessa história vem depois. Nas décadas seguintes, surdos e professores mantiveram a língua de sinais viva, e ela chegou ao Brasil de hoje reconhecida por lei. O artigo sobre o Congresso de Milão e o oralismo no Brasil conta essa decisão com os dados da época.

Por que a cor do Setembro Azul é azul?

Segundo páginas de universidades e institutos federais, o azul vem da Cerimônia da Fita Azul, feita no congresso da Federação Mundial de Surdos em Brisbane, na Austrália, em julho de 1999. As fontes contam essa origem de jeitos diferentes, e por isso o texto separa o que se sabe do que ainda falta confirmar.

O que se sabe: a cerimônia aconteceu no XIII Congresso Mundial da Federação, em julho de 1999, e o texto dela aparece como apêndice no livro do pesquisador britânico Paddy Ladd (Ladd, 2003). Foi em julho e na Austrália, então a ligação entre o azul e o mês brasileiro veio depois, por um caminho que as fontes não descrevem do mesmo jeito.

O que as fontes contam de jeitos diferentes: cada página atribui a menção da cor a uma pessoa diferente, e cada uma dá um ano diferente para o início da campanha no Brasil. Por isso eu não afirmo quem trouxe a cor, nem quando o Setembro Azul começou por aqui.

A cor é uma escolha que uma comunidade fez para se reconhecer. Enquanto a origem exata segue em discussão, o que a fita azul pede já está claro, e o resto deste texto trata disso.

O que o 23 de setembro significa para as línguas de sinais?

O 23 de setembro é o Dia Internacional das Línguas de Sinais, criado pela ONU na resolução A/RES/72/161, adotada por consenso em 19 de dezembro de 2017 e celebrada pela primeira vez em 2018. A data lembra a fundação da Federação Mundial de Surdos, em 1951.

A Federação reúne organizações nacionais de surdos do mundo todo, e é a história dela que a data lembra. Segundo a página oficial da ONU (Organização das Nações Unidas, 2017), o dia trata do direito à língua de sinais: o acesso pleno, por meio das línguas de sinais nacionais, é parte dos direitos humanos das pessoas surdas.

O tema de 2026 é "Declaring Deaf People's Human Rights", que em português quer dizer declarar os direitos humanos das pessoas surdas. O ano marca também os 75 anos da Federação.

A Federação Mundial de Surdos conta que lançou a Semana Internacional dos Surdos em 1958, em Roma, para a última semana de setembro (Federação Mundial de Surdos, 2026). Em 2026 ela vai de 21 a 27 de setembro. O artigo sobre a Semana Internacional dos Surdos mostra essa semana por dentro.

O que o 26 de setembro significa e quem conquistou essa data?

A Lei nº 11.796, de 29 de outubro de 2008, instituiu o 26 de setembro como Dia Nacional dos Surdos. A data remete a 26 de setembro de 1857, quando uma lei do Império destinou verba à primeira escola de surdos, hoje o INES (Brasil, 1857). Por trás dela está gente que manteve escola e língua de sinais vivas.

O texto da lei cabe numa frase, publicada no Planalto: "Fica instituído o dia 26 de setembro de cada ano como o Dia Nacional dos Surdos" (Brasil, 2008).

A escola nasceu da jornada de um homem. Adolphe Édouard Huet, professor surdo formado em Paris, já morava no Rio de Janeiro quando escreveu a D. Pedro II, em 22 de junho de 1855, propondo o instituto. O imperador apoiou a proposta, e a lei de 1857 deu ao instituto verba do Estado. O artigo sobre a história do INES conta a jornada de Huet com os documentos, e antes dele o Brasil colonial já tinha surdos.

Depois de Huet vieram gerações de surdos que se organizaram. A Libras foi reconhecida por lei em 2002 e o 26 de setembro virou data nacional em 2008, história que o artigo sobre a Lei 10.436 e o Dia Nacional dos Surdos detalha.

O que a comunidade surda pede que você entenda?

A comunidade surda pede que o ouvinte entenda três coisas: que a Libras, a Língua Brasileira de Sinais, é uma língua de sinais completa, com gramática própria; que o surdo tem direito a acesso pleno pela sua língua de sinais; e que as palavras usadas sobre ele importam. Cada pedido tem uma base pública, citada abaixo.

  • Libras é língua de sinais: a Lei 10.436, de 2002, a reconhece como meio legal de comunicação e expressão, com sistema linguístico de natureza visual-motora e estrutura gramatical própria (Brasil, 2002).
  • Acesso pela língua de sinais: o tema de 2026 da ONU fala em direitos humanos das pessoas surdas, com acesso pleno pelas línguas de sinais nacionais.
  • As palavras importam: em 1957 o Instituto Nacional de Surdos-Mudos virou Instituto Nacional de Educação de Surdos, e a palavra "mudo" saiu do nome.

1. A Libras é uma língua de sinais completa

Eu aprendi essa lição da pior maneira. Eu trabalhava com funcionários surdos e fiz uma reunião com todos no refeitório, depois do café.

Sinalizei do jeito que eu tinha aprendido, e um funcionário sentado ao meu lado sinalizava ao mesmo tempo que eu. Achei que ele estava batendo papo no meio da minha fala e cheguei a pensar que era falta de respeito. Pedi que parasse, ele parou, os outros também, e quando eu voltei a sinalizar, ele voltou junto.

Foi aí que entendi: ele estava me traduzindo para os outros surdos, porque o que eu sinalizava não chegava neles. Eu falava em português sinalizado, que é usar a Libras na ordem das palavras do português. A Libras tem gramática própria, e quem a ignora pode passar anos sinalizando sem ser entendido.

2. Acesso é direito, não favor

Eu costumo dizer que muitos surdos vivem no Brasil como estrangeiros dentro do próprio país. Eles usam uma língua de sinais que a maioria ao redor não entende e dependem de alguém para traduzir até a conversa mais simples.

O tema de 2026 da ONU pede que o direito à língua de sinais valha em todas as áreas da vida. Cada ouvinte que aprende a conversar tira um surdo dessa fila de espera por tradução.

3. As palavras importam

Em 1957, a Lei nº 3.198 tirou a palavra "Mudos" do nome do instituto que hoje é o INES (Brasil, 1957). Cem anos depois da escola, o país parou de chamar de mudo, no nome oficial, quem sempre teve uma língua de sinais. Hoje o nome que a comunidade usa é surdo, ou pessoa surda.

Como continuar esse legado no dia a dia, em vez de só postar a fita azul?

O gesto que mais honra a data é conversar com um surdo na língua de sinais dele, a Libras, do jeito que ele usa. Para isso, o caminho é absorver a língua de sinais em contato e prática, e não decorar sinais soltos. Uma conversa vale mais que qualquer post.

De Huet até a sua conversa

Olhe a cadeia: Huet atravessou o oceano e propôs uma escola, e ela foi aprovada em 1857. Gerações de surdos mantiveram a língua de sinais viva. A Federação Mundial de Surdos ligou o 23 de setembro ao mundo todo. A parte que sobra para mim, para a Raquel e para você é a conversa.

Na minha casa

Eu conheci a Raquel num retiro de surdos e ouvintes. A Libras dela era tão poética que as mãos pareciam dançar no ar, e no mês seguinte começamos a namorar. Nos primeiros tempos eu voltava para casa com dor de cabeça, porque minha cabeça traduzia tudo do português para a Libras e da Libras para o português. Hoje ela é minha esposa há mais de treze anos, e a conversa lá em casa é leve.

Depois da cena do refeitório, passei um bom tempo observando como os surdos realmente se comunicam, e dessa observação surgiu o método Fluente em Libras em 8 semanas, feito para quem quer pensar direto em Libras e conversar com surdos no dia a dia. O método promete que, ao final de 8 semanas, quem segue todas as etapas esteja se comunicando em Libras.

O menor passo possível

Você já viu o laço azul nas redes. Já leu o post bonito. Já pensou que queria conversar com um surdo, mas tem medo de sinalizar errado. Quem chegou até aqui já quer conversar de verdade, e o mês pede o menor passo possível: uma primeira conversa.

Você pode começar pelo contato com uma pessoa surda perto de você, ou pelo caminho que organiza esse contato, como no guia sobre como aprender Libras. Os dois passam por absorver a língua de sinais. Quando você conversar pela primeira vez sem intérprete no meio, a fita azul vai ter servido para alguma coisa.

Perguntas frequentes sobre o Setembro Azul

Quando é o Setembro Azul?

O Setembro Azul acontece durante todo o mês de setembro, de 1º a 30. Os marcos dentro dele são o Congresso de Milão (6 a 11 de setembro de 1880), a Semana Internacional dos Surdos (21 a 27 de setembro em 2026), o 23 de setembro e o 26 de setembro. Não é feriado nem data de lei: a Lei 11.796/2008 criou só o 26 de setembro.

Setembro Azul e Setembro Surdo são a mesma coisa?

São dois nomes para o mesmo mês. Alguns textos preferem Setembro Surdo, porque ele coloca a identidade das pessoas surdas no centro e não apenas a cor. Usar os dois é seguro. O que muda de um nome para o outro é o acento da conversa, e o pedido da comunidade continua o mesmo.

Qual a diferença entre o 23 e o 26 de setembro?

O 23 de setembro é internacional: a ONU criou o Dia Internacional das Línguas de Sinais em 2017, e a data lembra a fundação da Federação Mundial de Surdos, em 1951. O 26 de setembro é nacional: a Lei 11.796, de 2008, criou o Dia Nacional dos Surdos, ligado à lei de 1857 que deu verba à primeira escola de surdos do país.

Quem ouve pode participar do Setembro Azul?

Pode. Segundo páginas de universidades e institutos federais, o mês busca visibilidade para a sociedade inteira, e o ouvinte faz parte dela. Na minha experiência, o gesto que mais aproxima ouvinte e surdo é conversar na língua de sinais dele, a Libras, mesmo com a insegurança do começo.

Referências

BRASIL. Lei nº 939, de 26 de setembro de 1857. Fixa a despesa e orça a receita para o exercício de 1858-1859. Coleção das Leis do Império do Brasil, Rio de Janeiro, v. 1, pt. 1, p. 37, 1857.

BRASIL. Lei nº 3.198, de 6 de julho de 1957. Denomina Instituto Nacional de Educação de Surdos o atual Instituto Nacional de Surdos-Mudos. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 8 jul. 1957.

BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais, Libras, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 25 abr. 2002.

BRASIL. Lei nº 11.796, de 29 de outubro de 2008. Institui o Dia Nacional dos Surdos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 30 out. 2008.

FEDERAÇÃO MUNDIAL DE SURDOS. International Week of Deaf People 2026. [S. l.]: WFD, 2026.

LADD, Paddy. Understanding Deaf Culture: In Search of Deafhood. Clevedon: Multilingual Matters, 2003.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Resolução A/RES/72/161: International Day of Sign Languages. Nova York: ONU, 19 dez. 2017.