Intérprete de Libras
Diferença entre tradutor e intérprete de Libras: a lei define os dois como um só profissional
Por Madson Barreto
São dois trabalhos com um nome só na lei, e o que separa os dois cabe numa pergunta sobre o tempo.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras
A diferença entre tradutor e intérprete de Libras está no tempo. No jeito que eu explico, traduzir é passar um texto entre o português e a Libras, ou entre línguas de sinais, com escrita em pelo menos um dos lados, e dá para reler e corrigir. Interpretar é passar a fala ao vivo, sem texto na mesa, e a fala não volta. Mesmo assim, a Lei 12.319, com a redação da Lei 14.704, define os dois num só profissional: o "tradutor e intérprete", que traduz e interpreta.
Falta ver o que isso muda para quem quer trabalhar.
Qual é a diferença entre traduzir e interpretar em Libras?
Traduzir é o trabalho em que pelo menos um dos lados é texto escrito, o que dá tempo de reler e corrigir. Interpretar é o trabalho ao vivo, em que os dois lados aparecem na forma falada ou sinalizada e a fala não volta. É assim que eu explico para quem me pergunta.
Você já ouviu as duas palavras usadas como se fossem uma só e já ficou em dúvida sobre qual delas escrever na sua apresentação. Por isso vale olhar para o tempo.
Traduzir: quando existe um texto
No vídeo do canal em que eu respondo essa pergunta, dou quatro exemplos de tradução. Um texto em português escrito vira um vídeo em Libras. Um texto em escrita de sinais vira português falado. Um texto em português vira escrita de sinais. E um texto em escrita de sinais vira português escrito.
Os quatro têm uma coisa em comum: o texto fica parado na mesa. Você pode voltar, comparar, trocar uma escolha que não ficou boa e só então entregar.
Interpretar: quando é ao vivo
Na interpretação, os dois lados aparecem em forma expressiva: alguém fala em português e o intérprete sinaliza, ou alguém sinaliza e o intérprete fala em voz alta. Numa conferência, o palestrante ouvinte fala e o intérprete leva a fala para a Libras. Se o palestrante é surdo, o caminho se inverte.
Não existe texto pronto. Quando a frase passou, passou.
- Tradução: há texto escrito em pelo menos um dos lados, o tempo de trabalho é seu e dá para revisar antes de entregar.
- Interpretação: a fala é ao vivo, falada ou sinalizada, o tempo é o de quem está falando e não dá para voltar.
Tradutor e intérprete de Libras são a mesma coisa?
Depende de quem responde. Nos Estudos da Tradução, "tradutor" é o termo maior e inclui o intérprete. No dia a dia da área, muita gente, eu inclusive, usa "tradutor" para o trabalho com texto e "intérprete" para o trabalho ao vivo. Na lei, os dois formam uma profissão só.
Existe uma disciplina chamada Estudos da Tradução, e é lá que essa discussão mora. Por essa lente, traduzir é o guarda-chuva: cobre a tradução de textos, vários conceitos ligados a ela e também a interpretação. Por isso eu posso dizer que sou tradutor de língua portuguesa e Libras, e isso quer dizer que eu trabalho com tradução e com interpretação.
Só que muita gente da área usa "tradutor" de um jeito mais específico, para quem trabalha com texto. Eu uso assim também, e prefiro assim. A quantidade de profissionais que fala desse jeito é grande.
A cena mais visível dessa mistura está nas conferências internacionais de línguas de sinais. Um palestrante sinaliza na língua de sinais dele. Ao lado, vários intérpretes, um do lado do outro, levam o conteúdo para a língua de sinais do país de cada um. O nome mais usado para isso é interpretação. O termo maior, o guarda-chuva, continua sendo tradução.
Eu explico essa diferença em cinco minutos, num vídeo antigo do canal da Universidade da Libras.
O mundo tem até uma data para isso. Em 30 de setembro é o Dia Internacional da Tradução, criado pela ONU em 2017, e tradutores e intérpretes de línguas de sinais também têm lugar nele. Eu conto a história das duas datas da profissão no artigo Dia do Intérprete de Libras: por que são duas datas e não uma.
O que a lei diz sobre tradutor e intérprete de Libras?
A Lei 12.319, com a redação dada pela Lei 14.704, de 2023, regulamenta a profissão de tradutor, intérprete e guia-intérprete da Libras e define o "tradutor e intérprete" como um só profissional: o que traduz e interpreta de uma língua de sinais para outra língua de sinais ou para língua oral, ou o contrário, em quaisquer modalidades.
Como a lei define os dois
O nome já vem no singular desde 2010. A Lei 12.319, de 1º de setembro de 2010, regulamentou "a profissão de Tradutor e Intérprete". Em 2023, a Lei 14.704 acrescentou no artigo 1º a definição de que o tradutor e intérprete é "o profissional que traduz e interpreta" entre línguas de sinais ou entre língua de sinais e língua oral, e a do guia-intérprete, que domina ao menos uma das formas de comunicação usadas por pessoas surdocegas.
O mesmo artigo diz que a atividade vale em qualquer área ou situação em que pessoas surdas ou surdocegas precisem se comunicar com quem não usa a língua de sinais delas.
Confira você mesmo. O texto consolidado está aberto no Planalto (Lei 12.319), e a lei que mudou o artigo é a Lei 14.704, de 25 de outubro de 2023. Quem pode exercer a profissão é outra conversa, e eu conto no artigo Intérprete de Libras precisa de faculdade? Os 3 caminhos da lei.
O que ela pede de quem trabalha
O artigo 2º dá a competência do tradutor e intérprete: interpretar a Libras e o português de maneira simultânea, enquanto a pessoa fala, ou consecutiva, depois que ela termina o trecho, e ter proficiência em tradução e interpretação da Libras e da Língua Portuguesa.
Já o parágrafo único do artigo 6º lista o que cabe ao profissional:
- intermediar a comunicação entre surdos e ouvintes, da Libras para a língua oral e o contrário;
- intermediar a comunicação entre surdos e surdos, da Libras para outra língua de sinais e o contrário;
- traduzir textos escritos, orais ou sinalizados, da língua portuguesa para a Libras e para outras línguas de sinais, e o contrário.
Repare no desenho. Os dois primeiros itens tratam de intermediar a comunicação entre pessoas. O terceiro trata de texto, que a lei diz poder ser escrito, oral ou sinalizado. A lei põe no mesmo profissional o trabalho com pessoas e o trabalho com texto.
Como usar os dois nomes no currículo e no dia a dia?
Use "tradutor e intérprete de Libras", o nome que a lei dá à profissão e que cobre os dois trabalhos. Para ser específico, diga "tradução" quando o serviço envolve texto e "interpretação" quando é ao vivo. A sigla TILS, de tradutor e intérprete de língua de sinais, resume tudo isso e circula muito na área.
Foi essa a pergunta que me enviaram no vídeo: como vou usar esses termos no meu dia a dia? A resposta prática cabe em três situações.
- No currículo e no perfil profissional: tradutor e intérprete de Libras, o nome da lei.
- Ao orçar ou aceitar um serviço: diga qual dos dois trabalhos é. "Tradução de um texto" e "interpretação de um evento" são pedidos diferentes.
- Na conversa com colegas da área: TILS.
O nome do curso na lei também junta os dois lados: "Tradução e Interpretação em Libras". Se você está começando e quer o mapa da carreira, o guia como se tornar intérprete de Libras junta tudo.
No próximo currículo que você atualizar, escreva o nome da profissão do jeito da lei e, embaixo, uma linha dizendo qual dos dois trabalhos você faz hoje.
Quem traduz bem também interpreta bem ao vivo?
Nem sempre. Traduzir devolve tempo: o texto fica na mesa e dá para reler e corrigir. Interpretar não devolve nada: a fala segue enquanto a frase anterior ainda está sendo entendida. São dois preparos diferentes, e quem consegue os dois aceita mais tipos de trabalho.
O erro de tratar os dois como um treino só
O erro mais comum que eu vejo é achar que estudar tradução treina interpretação, ou o contrário. Nas mentorias que eu conduzo, o que costuma aparecer quando o treino não é o do ao vivo é português sinalizado: sinal por sinal, com a cabeça no português.
É o café ralo da Libras: parece Libras e tem gosto de nada.
Uma mentorada me contou que, depois de três anos de curso, ainda não se sentia apta a traduzir e interpretar na igreja dela. Repare nos dois verbos juntos, do jeito que quase todo mundo fala. Numa igreja, durante uma celebração, o que se pede é o ao vivo. A primeira pergunta útil, nesse caso, é qual dos dois trabalhos a pessoa quer fazer, porque o treino muda.
Com essa pergunta, o que você quer alcançar deixa de ser "tudo" e passa a ser um trabalho de cada vez.
O que uma pergunta antes do trabalho já resolve
Uma amostra pequena do que fazer: antes de aceitar qualquer trabalho, pergunte só isto. O conteúdo chega escrito ou vai ser ao vivo?
Se chega escrito, você tem tempo e vai trabalhar como tradutor. Se é ao vivo, o tempo é o de quem fala, e o material combinado antes passa a valer muito. A pergunta não ensina a fazer nenhum dos dois trabalhos. Ela mostra de qual preparo você precisa.
E quem faz os dois trabalhos atende dois tipos de pedido: o texto que precisa virar vídeo em Libras e o evento que acontece hoje à noite.
Por onde começar se o seu trabalho é ao vivo?
Pelo treino do tempo real: receber a ideia inteira, entregar o sentido e ter alguém que já interpreta devolvendo o que você fez. Esse treino separa quem conhece sinais de quem sustenta uma fala ao vivo, na igreja, na escola ou num evento.
É esse o trabalho da Mentoria Maestria na Libras: acompanhamento por meses, com reuniões ao vivo, individuais e em grupo, para quem quer interpretar com segurança na igreja, na escola e em eventos. Para quem prefere começar sozinho, existe o livro Intérprete de Libras sem Mistérios, um guia para iniciantes que eu escrevi.
Os dois caminhos partem da mesma ideia que eu defendo: pensar direto em Libras, sem passar pelo português na cabeça. Se o seu ao vivo é da Libras para a voz, eu falo mais disso em como interpretar da Libras para o português.
Na próxima vez que alguém te pedir só um servicinho de intérprete, pergunte: escrito ou ao vivo?
Perguntas frequentes
O que faz um tradutor de Libras?
Passa textos entre o português e a Libras, ou entre línguas de sinais. A lei diz que a tradução inclui textos escritos, orais ou sinalizados. Pode ser um texto em português que vira um vídeo em Libras, ou um conteúdo sinalizado que vira português (Lei 12.319, artigo 6º, parágrafo único, inciso III).
A atuação do tradutor e intérprete é restrita só à Libras?
Não. A lei define o profissional como quem traduz e interpreta de uma língua de sinais para outra língua de sinais ou para língua oral, ou o contrário. Entre as atribuições está intermediar a comunicação entre surdos e surdos, da Libras para outra língua de sinais (artigo 1º, §1º, I, e artigo 6º, parágrafo único, II).
Intérprete "em Libras" ou "de Libras"?
A lei usa "de Libras" para a pessoa ("tradutor e intérprete de Libras") e "em Libras" para o nome do curso ("Tradução e Interpretação em Libras"). Para falar de quem faz o trabalho, a forma é "de Libras". Para falar da atividade ou do curso, a forma é "em Libras".
Quanto ganha um tradutor e intérprete de Libras?
Depende do tipo de trabalho e do lugar. A faixa de valor da hora de interpretação que eu vejo no mercado vai de R$ 80 a R$ 300 por hora, e é um relato do que eu acompanho, sem pesquisa formal. Mais sobre o assunto está em quanto posso ganhar como intérprete de Libras.
