Escrita de Sinais
Escrita de Sinais não é Libras escrita em português: as 3 confusões que travam quem está começando
Glosa, datilologia e português sinalizado são três coisas diferentes, e nenhuma delas é a escrita da própria língua de sinais. Quem confunde isso estuda anos no caminho errado.

Madson Barreto
Intérprete e fundador da Universidade da Libras


Escrita de Sinais é um sistema gráfico que registra o sinal em si, com os parâmetros visuais que o formam: a forma da mão, o ponto onde ela se apoia ou se move, a direção do movimento e a expressão facial que muda o sentido inteiro de uma frase.
Escrever CASA em letras maiúsculas, soletrar com o alfabeto manual e sinalizar seguindo a ordem do português são três coisas diferentes, e nenhuma delas é a Libras escrita.
Escrever a Libras com letras do português não é escrever a Libras: é escrever português sobre um sinal que se perdeu no caminho.
Quando você separa essas três coisas, o motivo de tanto sinal ter escapado da sua memória fica óbvio.
O que é Escrita de Sinais, afinal?
Escrita de Sinais, mundialmente conhecida como SignWriting, é o sistema criado pela pesquisadora norte-americana Valerie Sutton em 1974 para registrar o sinal em si, sem passar por nenhuma língua oral. Chegou ao Brasil em 1996 e hoje já é usado para escrever mais de 64 línguas de sinais ao redor do mundo (fonte oficial: signwriting.org).
Essa definição fica mais clara com uma régua que o livro Escrita de Sinais sem Mistérios usa, a partir do historiador da escrita Higounet: um sistema de notação registra alguns aspectos técnicos de uma língua para um grupo pequeno, geralmente de pesquisadores. Um sistema de escrita representa a estrutura inteira da língua, pronto para o uso cotidiano de uma comunidade inteira.
É essa régua que separa a Escrita de Sinais das três confusões que vêm a seguir.
A Escrita de Sinais registra como o sinal é feito no corpo, não o que ele significa (Capovilla et al., 2006; Silva, 2009a, apud BARRETO; BARRETO, 2025, p. 99). A glosa faz o inverso: guarda um significado aproximado e perde a produção inteira.
A terceira edição do livro batiza esse princípio de Escrita Espelho: os traços do SignWriting espelham os articuladores do corpo, mão, rosto e movimento, em vez de representar sons de uma língua oral (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 94-96).
Por que a Libras foi chamada de língua ágrafa por tanto tempo
Durante séculos, ninguém registrou por escrito o testemunho, o diário ou a poesia de uma pessoa surda na própria língua de sinais. A causa disso nunca foi falta de língua: foi falta de escrita. Comunidades surdas viveram sua cultura quase inteira na forma sinalizada, ao vivo, sem um sistema gráfico próprio para guardar o que era dito (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 62).
Isso começou a mudar em 1822, quando o educador francês Roch Ambroise Auguste Bébian publicou a Mimographie, já identificando que um sinal se decompõe em elementos menores, como a forma da mão, o lugar e o movimento. Em 1960, o linguista William Stokoe deu à língua de sinais americana o reconhecimento formal de língua. Catorze anos depois, veio o SignWriting: o primeiro sistema pensado para ser escrita de uso diário, não só notação de pesquisa.
O Brasil também tem outro sistema próprio de notação para a Libras, o ELiS, fruto de pesquisa acadêmica nacional. Este artigo trata do SignWriting, que é o sistema do livro Escrita de Sinais sem Mistérios e desta Universidade da Libras.
Primeira confusão: escrever o sinal em letras maiúsculas é escrever a Libras?
Não. Isso se chama glosa, uma convenção que usa uma palavra do português em maiúsculas como etiqueta para o sinal. O que fica no papel é a etiqueta, nunca o sinal: o movimento, a direção, o espaço e a expressão facial ficam de fora.
O livro Escrita de Sinais sem Mistérios usa um exemplo real para mostrar o tamanho do buraco: a frase EU IR CASA PEDRO. Qual foi o movimento de IR, reto ou curvo? Com uma mão ou duas? Em qual direção? Houve alguma expressão facial marcando tempo, dúvida ou intensidade?
A glosa não responde nenhuma dessas perguntas (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 106-107).
Como resume o próprio livro:
"as glosas não descrevem a língua: apenas a substituem por outra" (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 107).
Quando a glosa é usada do jeito certo
Glosa tem uso legítimo. Na linguística, ela funciona como uma linha de apoio ao lado de uma representação independente da língua estudada, nunca sozinha (a partir de Pizzuto, Rossini e Russo, 2006, citado em BARRETO; BARRETO, 2025, p. 64-65).
O problema não é a glosa existir. É usá-la como se fosse o registro principal do sinal, papel para o qual ela nunca foi desenhada. Essa ressalva não muda a conclusão de cima, só evita generalizar longe demais.

Segunda confusão: soletrar com o alfabeto manual é escrever a Libras?
Não. Datilologia é soletrar, com as mãos, uma palavra do português, letra por letra. Continua sendo português, agora no canal visual: não vira a escrita de um sinal da Libras.
O próprio livro descreve exatamente essa crença:
"muitos estudantes de Libras e até mesmo surdos (crianças e adultos) pensam que as glosas são a escrita da Libras. Outros, que escrever nesta língua é simplesmente usar fontes de datilologia, o que também não é verdade" (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 66).
No quadro comparativo da obra, a fonte gráfica de datilologia é classificada do lado do desenho, não do lado da escrita (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 100).
Existe ainda uma terceira variante, que o livro chama de Anotações Descritivas: o hábito de escrever no caderno, em português, uma descrição do sinal que o professor acabou de fazer. O próprio livro admite o resultado: por vezes, nem quem fez a anotação consegue lembrar depois como o sinal era feito (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 66).
Eu vivi isso na prática, aos 13 anos, no meu primeiro curso de Libras, dentro de uma igreja. Eu anotava do jeito que dava: "mão para cima", "duas voltas". Guardava o caderno com cuidado, achando que tinha registrado o sinal.
Semanas depois, eu abria aquela página e não reconhecia mais o que a minha própria letra queria dizer. Não era falta de atenção. Era que o português nunca foi feito para guardar um sinal inteiro.
Se isso te soa familiar, não é coincidência. Você anotou. Você caprichou na letra. Você releu depois, mais de uma vez. E mesmo assim o sinal não voltou, porque o que estava escrito ali, o tempo todo, era português.
O alfabeto manual e a datilologia têm um papel real na conversa, sobretudo em nomes próprios. O problema nunca foi usar a datilologia: foi confundi-la com a escrita da língua. E quem já perdeu um sinal desse jeito sabe que o parâmetro mais esquecido costuma ser sempre o mesmo, o que a maioria esquece de anotar.
Terceira confusão: português sinalizado é Libras escrita?
Não, e nem chega a ser escrita. Português sinalizado acontece com as mãos, ao vivo, quando a pessoa sinaliza seguindo a estrutura gramatical do português. Escrita de Sinais acontece no papel ou na tela. As duas coisas só se parecem num ponto: nas duas, o português está no meio do caminho.
Métodos de ensino que associam a Libras diretamente à estrutura do português tendem a empobrecer a língua e produzir o português sinalizado, também chamado de bimodalismo (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 63).
O próprio livro descreve esse hábito com uma imagem que qualquer brasileiro reconhece na hora:
"é como chupar cana e assoviar ao mesmo tempo: não funciona" (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 46).
Eu já vivi esse travamento na pele, numa reunião com amigos surdos, depois de anos estudando sozinho, e o relato inteiro dessa cena está aqui.
O mesmo erro existe em inglês e em espanhol
Essa confusão não é um defeito brasileiro. Em inglês, a mesma dúvida aparece entre a American Sign Language e o Signed Exact English, uma codificação manual do inglês que não é uma língua.
Em espanhol, a Lengua de Signos Española convive com a mesma confusão em relação ao chamado español signado.
O padrão se repete: onde existe uma língua de sinais reconhecida, existe também alguém tentando encaixá-la à força na gramática da língua oral local.
O que a Escrita de Sinais registra que nenhuma das três registra?
O sinal em si. Os parâmetros que formam o sinal, a simultaneidade entre eles, o uso do espaço de sinalização e as expressões não manuais quando fazem parte do sentido.
O SignWriting permite ler, escrever e transcrever línguas de sinais de forma visual direta, sem passar por uma língua oral, por glosas nem por nenhum código intermediário, preservando a tridimensionalidade da língua, inclusive o uso do espaço e os referentes (BARRETO; BARRETO, 2025, p. 108).
Existe também um argumento sobre como a criança surda aprende: ela pensa e sinaliza numa modalidade visual e espacial, mas se espera que escreva numa modalidade que não é a dela, presa ao som (a partir de Capovilla et al., 2006, citado em BARRETO; BARRETO, 2025, p. 67-68). Uma escrita própria da língua de sinais reaproxima essas duas pontas.
A pesquisadora Marianne Stumpf registra que várias crianças surdas se surpreenderam, ao aprender o SignWriting, ao descobrir que o português escrito nunca tinha sido o registro da própria Libras (BARRETO; BARRETO, 2025, cap. 3). Se crianças surdas achavam isso, quem também achava não estava sendo lerdo: estava em boa companhia.
A pesquisa acadêmica em torno da Escrita de Sinais no Brasil já soma 235 publicações levantadas e verificadas item a item, entre dissertações, teses, artigos, livros e materiais (levantamento independente do projeto, não é uma contagem do livro Escrita de Sinais sem Mistérios). É a medida de quanto essa distinção, entre escrever o sinal e escrever sobre o sinal, deixou de ser debate marginal.
Eu vivi a diferença entre essas duas escritas dentro da minha própria relação, antes de vivê-la como argumento de livro. No começo do namoro com a Raquel, que é surda, eu escrevia bilhetes para ela, mas todos em português. Ela sorria um sorriso amarelo, de quem finge entender, e eu traduzia tudo de novo para Libras. Cansado de traduzir sempre a mesma coisa duas vezes, parei de escrever.
Foi só depois que eu descobri a Escrita de Sinais que voltei a escrever para ela, agora direto no sistema que registra o sinal em si. As mensagens, ela lia sozinha, sem precisar de tradução nenhuma, porque o que estava ali já era a própria língua dela.
No aniversário dela, entreguei uma carta inteira escrita em Escrita de Sinais, numa festa surpresa com amigos surdos. Ela leu a carta como quem lê poesia. E eu vi, naquele dia, o que nenhuma explicação técnica tinha me mostrado até ali: um sinal registrado é um sinal que volta inteiro para quem lê.
Por que isso importa mesmo para quem é ouvinte
Quando você começa a registrar o sinal em vez da palavra que o traduz, a primeira coisa que muda é o tanto de sinal que volta sozinho. Você abre o caderno da semana passada e reconhece o sinal na hora, sem precisar conferir o vídeo de novo.
Sinal registrado com os parâmetros é sinal que volta. Sinal anotado em português é sinal que evapora.
Duas pessoas chegam até aqui: quem só queria entender o nome certo das coisas, e quem reconheceu, linha por linha, a própria pilha de cadernos cheios de anotação que não serve mais para nada. As duas saem sabendo a mesma distinção; só a segunda sai também sabendo por que precisa de um sistema, não de mais um caderno.
Se quiser entender por inteiro o que muda quando alguém aprende a ler e escrever direto em Libras, sem depender do português no meio, esse é o próximo passo desta mesma conversa.

Como saber se o que você está escrevendo é Libras ou português?
Compare o que está no papel com o que se perde:
- Glosa (CASA, EU IR CASA PEDRO): português no papel. Perde o movimento, a direção, o espaço e a expressão facial.
- Datilologia soletrada (C-A-S-A): português no papel. Perde o sinal inteiro; sobra só a palavra que o traduzia.
- Descrição do sinal em frases, no caderno: português no papel. Perde o tempo de quem escreveu, e o próprio sinal, que ninguém reconstrói depois.
- Escrita de Sinais (SignWriting): Libras no papel. Não perde nada essencial: o sinal fica registrado como sinal.
O teste é uma pergunta só: se você apagar o português da folha e ainda sobrar o sinal, é Escrita de Sinais. Se não sobrar nada, era português o tempo todo.
Duas portas levam a lugares diferentes: você pode continuar anotando em português e conferindo o vídeo toda vez que esquecer, ou pode anotar o sinal uma vez, no sistema certo, e não precisar conferir de novo.
É esse segundo caminho que o Box Libras Sem Travas entrega pronto: leitura e escrita do sinal treinadas com exercício real, não com mais um caderno de anotação que evapora.
Perguntas frequentes
Escrita de Sinais é a mesma coisa que Libras escrita?
Depende do que a pessoa chama de Libras escrita. Se for escrever a Libras com letras do português, não: ali está escrito português. Escrita de Sinais é o sistema que registra o sinal em si, com os parâmetros visuais que o formam, sem passar por nenhuma língua oral.
Escrever CASA em letras maiúsculas é escrever em Libras?
Não. Isso se chama glosa, uma convenção de anotação que usa palavras do português em maiúsculas como etiqueta para os sinais. A glosa não registra o movimento, a direção, o uso do espaço nem a expressão facial. Como resume o livro Escrita de Sinais sem Mistérios, as glosas não descrevem a língua, apenas a substituem por outra.
Escrita de Sinais é português sinalizado?
Não, e as duas coisas nem acontecem no mesmo lugar. Português sinalizado acontece com as mãos, ao vivo, quando alguém sinaliza seguindo a estrutura gramatical do português. Escrita de Sinais acontece no papel ou na tela, registrando o sinal como ele é. O que as duas têm em comum é que o português costuma ser a causa da confusão.
Soletrar com o alfabeto manual conta como escrever a Libras?
Não. A datilologia empresta uma palavra do português e a soletra com as mãos, letra por letra. É um recurso legítimo e muito usado na conversa, principalmente para nomes próprios e termos sem sinal estabelecido, mas continua sendo português no canal visual.
Por que anotar o sinal em português não funciona?
Porque a anotação descreve o sinal em vez de registrar o sinal, e a descrição em português perde justamente o que é visual e simultâneo. O próprio livro Escrita de Sinais sem Mistérios registra que, por vezes, nem quem escreveu a anotação consegue reconstruir o sinal depois.
Escrita de Sinais é desenho?
Não. A aparência é visual porque a língua é visual, mas cada elemento é um grafema com valor definido, exatamente como as letras deste texto. O próprio livro lembra que todo grafema é, em algum grau, um desenho, inclusive as letras do alfabeto latino, e que a diferença entre desenho e escrita é cultural, não gráfica.
