Curso de Libras
Alfabeto em Libras: de onde veio e por que cada país tem o seu
Por Madson Barreto
O alfabeto manual veio de uma família europeia, chegou ao Brasil pela escola de surdos do Rio de Janeiro e é a ponte entre o português e a língua de sinais.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

O alfabeto em Libras, também chamado de alfabeto manual ou datilologia, é um conjunto de configurações de mão em que cada uma representa uma letra do português. Ele serve para soletrar nome de pessoa, sigla e palavra que ainda não tem sinal. Veio de longe, de uma família de alfabetos manuais europeus, e cada país tem o seu.
Saber esse alfabeto é conhecer a ponte entre o português e a língua de sinais. A Libras em si é muito maior, e este texto mostra onde uma termina e a outra começa.
O que é o alfabeto em Libras e o que ele faz na conversa?
O alfabeto em Libras leva uma palavra do português para dentro da língua de sinais, letra por letra, quando ela ainda não tem sinal. Por isso o nome técnico é datilologia, a soletração com os dedos. Ele é um recurso de apoio dentro da conversa e nunca uma língua de sinais separada.
Libras e português são duas línguas diferentes e independentes, cada uma com a sua gramática. O alfabeto manual é o ponto de contato entre elas. Quando alguém soletra um nome, o português aparece dentro da conversa em Libras, e logo depois a conversa volta para os sinais.
O uso no dia a dia, quando soletrar e quando parar de soletrar, eu expliquei em datilologia em Libras: quando soletrar e quando parar de soletrar. Aqui o assunto é outro: o que esse alfabeto é, de onde ele veio e onde ele termina.
Para ver as letras em movimento, o vídeo do artigo alfabeto manual em Libras mostra o alfabeto na prática.
De onde vem o alfabeto manual que a Libras usa?
O alfabeto manual da Libras vem da família francesa. A ligação com o Brasil aparece na escola de surdos do Rio de Janeiro, hoje o INES, com a vinda do professor francês Adolphe Édouard Huet, em 1857.
Um estudo que comparou a Língua de Sinais Francesa com a Libras aponta que as semelhanças entre os dois alfabetos manuais são evidentes, e que a maioria das letras ainda hoje é sinalizada da mesma forma (Marques e Cantarelli, 2020).
Eu conto como essa escola nasceu em História do INES: como nasceu a educação de surdos no Brasil em 1857.
Do livro de Bonet à escola de Paris
O primeiro livro que registra um alfabeto manual para educar surdos é do espanhol Juan Pablo Bonet, de 1620. O objetivo dele era ensinar pessoas surdas a ler e a falar, e o alfabeto entrava como apoio (Bonet, 1930).
No século XVIII, o abade Charles-Michel de l'Épée usou o alfabeto manual junto com a língua de sinais francesa e a gramática do francês, na escola de Paris, para que os alunos surdos aprendessem a escrita do francês (Marques e Cantarelli, 2020).
O aluno surdo que registrou o alfabeto brasileiro em 1875
Em 1875, Flausino José da Gama, aluno surdo da escola do Rio de Janeiro, publicou a Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos (Gama, 1875). Na primeira prancha, chamada "Dactylologia dos Surdos-Mudos", ele registrou o alfabeto manual completo, de A a Z, com uma mão para cada letra.
No acervo que a nossa pesquisa reuniu, é o registro em imagem mais antigo do alfabeto manual em uso no Brasil.
O livro vai além das letras. Na última prancha, ele afirma que "sem a expressão do rosto todos os signaes serão obscuros e ininteligiveis". Em 1875 já estava escrito que a língua de sinais não cabe nas letras, nem só nas mãos.
Registrar a Libras em imagem, para que ela seja estudada e ensinada, é um trabalho que vem de 1875. Na minha leitura, a Escrita de Sinais leva esse trabalho adiante hoje, e eu conto esse percurso em História da Escrita de Sinais no Brasil.
Por que cada país tem o seu alfabeto manual?
Porque o alfabeto manual acompanha a língua escrita e a história de cada comunidade surda. Ele nasceu para representar as letras de uma língua escrita específica, e cada língua de sinais o adaptou ao longo do tempo. Não existe um alfabeto manual único para o mundo.
Dois exemplos mostram a diferença:
- Família francesa: uma mão para cada letra, na origem do alfabeto da Libras e do da língua de sinais americana.
- Língua de sinais britânica: soletra com as duas mãos.
Duas línguas de sinais do mesmo tronco se parecem como primas: têm semelhanças reais e não são o mesmo alfabeto.
Uma pessoa que sabe o alfabeto da Libras não lê de imediato o de outra língua de sinais, e o contrário também vale. Na minha experiência, já vi material de estudo trazer letras de outra língua de sinais como se fossem da Libras, e isso confunde quem está começando.
A pergunta maior por trás disso, se existe uma língua de sinais para o mundo todo, eu respondi em Libras é uma língua de sinais universal?.
Quais mitos sobre o alfabeto em Libras enganam quem está começando?
Na minha experiência, três mitos aparecem com frequência: "Libras é só o alfabeto", "o alfabeto é universal" e "quem soletra bem já conversa". Os três nascem da mesma confusão entre a ponte e a língua de sinais inteira.
Mito 1: Libras é só o alfabeto
O alfabeto soletra o português. Os sinais da Libras dizem a ideia direto, com expressão do rosto, espaço e movimento, sem passar pelo português. Na minha experiência, quem sinaliza bem soletra pouco: o alfabeto é a ponta do iceberg, e o resto da língua de sinais fica debaixo da água.
Eu conheço esse mito por dentro. No começo dos meus estudos, eu usava uma camisa com o alfabeto manual estampado. Numa loja, alguém veio falar comigo em Libras por causa da camisa, esperando que eu soubesse conversar. Eu fiquei perdido. A camisa dizia uma coisa, e a minha Libras dizia outra.
Mito 2: o alfabeto é universal
Já vimos que não. Cada país tem o seu alfabeto manual, e a semelhança entre duas línguas de sinais do mesmo tronco engana quem olha rápido.
Mito 3: quem soletra bem já conversa
Quem sabe o alfabeto de cor ainda precisa de sinais, de gramática e de expressão. Sem eles, a pessoa faz o que eu chamo de português sinalizado: pensa em português, palavra por palavra, e passa cada uma para as mãos.
Aprender Libras assim lembra dirigir com o freio de mão puxado, e eu explico os outros freios em Os freios de mão da Libras que travam sua fluência.
Alfabeto manual e Escrita de Sinais: qual é a diferença?
O alfabeto manual soletra o português, letra por letra, com a mão. A Escrita de Sinais registra a própria Libras no papel, com os parâmetros que formam cada sinal, entre eles a configuração de mão. Uma leva o português para dentro da Libras, e a outra escreve a Libras.
Um exemplo do que a Escrita de Sinais faz no mundo real: em 2017, a Universidade Federal de Santa Maria usou, numa questão do concurso público da própria universidade, fotos do meu livro Escrita de Sinais sem Mistérios. A mão que aparece na prova é a minha.
Se você quer entender a Escrita de Sinais do começo, o artigo O que é Escrita de Sinais é o ponto de partida. E o Box Libras Sem Travas é o box de livros em que eu ensino a Escrita de Sinais.
Em que momento o alfabeto entra no aprendizado de Libras?
O alfabeto entra depois que a pessoa já absorve sinais e já começa a pensar em Libras, e não como primeiro passo. Quando ele vem primeiro, tudo o que a pessoa sabe dizer é soletração. Quando vem depois, ele cumpre o papel certo: a ponte para nome e palavra sem sinal.
No Método Fluente em Libras em 8 semanas, o alfabeto manual aparece na semana 6, junto com o momento de saber quando usá-lo e quando não usar, depois de cinco semanas de imersão em sinais, gramática visual e histórias. O método promete que quem segue todas as etapas está se comunicando em Libras ao final das 8 semanas.
Na minha experiência, travar na frente de um surdo tem pouco a ver com memória.
Andresa Abreu, de Tubarão, em Santa Catarina, estudou Libras por 5 anos antes de entrar no método. Luana Lídio ficou fluente em 6 semanas, dentro do método. Cada uma conta o tempo dela.
Escrevi sobre esse travamento em como parar de travar na frente dos surdos.
Se você quer começar a se comunicar com surdos sem esperar decorar o alfabeto, o Libras Essencial foi pensado para isso.
Perguntas frequentes sobre o alfabeto em Libras
Quem criou o alfabeto manual?
Nenhuma pessoa sozinha. O primeiro livro que registra um alfabeto manual para educar surdos é o de Juan Pablo Bonet, de 1620, e ele foi passando por escolas e comunidades surdas até chegar à Libras pela família francesa. Cada língua de sinais adaptou o seu alfabeto ao longo do tempo.
O alfabeto em Libras é igual ao de outros países?
Não. Cada língua de sinais tem o seu alfabeto manual. A Libras se parece com o da língua de sinais francesa e com o da americana porque vêm da mesma família, mas não são o mesmo alfabeto. A língua de sinais britânica, por exemplo, soletra com as duas mãos.
Alfabeto manual e datilologia são a mesma coisa?
São. Datilologia é o nome técnico do alfabeto manual, o recurso de soletrar palavra por palavra quando ainda não existe um sinal específico para ela.
Dá para aprender Libras só com o alfabeto?
Não. O alfabeto resolve o problema pontual de soletrar uma palavra sem sinal. Para conversar em Libras, você precisa de sinais, de gramática e de expressão do rosto, absorvidos como língua de sinais inteira e não decorados letra por letra.
Alfabeto manual e Escrita de Sinais são a mesma coisa?
Não. O alfabeto manual soletra o português com a mão. A Escrita de Sinais registra a própria Libras no papel, com os parâmetros de cada sinal. Uma trabalha o português dentro da Libras, e a outra escreve a Libras.
Referências
BONET, Juan Pablo. Reducción de las letras y Arte para enseñar a hablar los mudos. Nova edição anotada por Jacobo Orellana Garrido e Lorenzo Gascón Portero. Madri: Francisco Beltrán, 1930. (Obra original de 1620).
GAMA, Flausino José da. Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos. Rio de Janeiro: Typographia Universal de E. & H. Laemmert, 1875.
MARQUES, Janice Gonçalves Temoteo; CANTARELLI, Antonielle. A influência da Língua de Sinais Francesa (LSF) na Língua de Sinais Brasileira (Libras): estudo baseado em metalexicografia comparativa. Revista Porto das Letras, v. 6, n. 6, 2020.
