Sinais em Libras
Por que você esquece os sinais na hora da conversa com um surdo
Por Madson Barreto
O sinal some na hora H porque o cérebro poupa energia, e só conviver com surdos não resolve. O que fixa é o jeito como a Libras entra e fica registrada.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras
Você esquece os sinais na hora da conversa porque o cérebro poupa energia e deixa de lado o que parece pouco útil. A forma como você junta o sinal novo ao que já sabe decide se ele fica. O pior é que a falha não avisa: você estuda achando que memorizou e só descobre quando a pessoa surda aparece. Ter contato com a Libras ajuda, mas não basta. O que fixa é aprender pela lógica da Libras e guardar o sinal num registro que mostre como ele é.
Por que o cérebro deixa os sinais escaparem?
Porque a prioridade do cérebro é poupar energia, e o que ele julga pouco útil vai sendo deixado de lado. Datas e fatos ligados a uma emoção forte ficam. Um sinal visto uma vez, sem uso e sem emoção, tende a sair.
É assim que eu explico o fenômeno. Pense no aniversário de alguém que você ama, no dia em que conheceu a pessoa que ama, talvez até na roupa que você vestia. Essas lembranças ficam porque estão ligadas a algo que marcou. Já o sinal que você viu num vídeo e nunca usou não tem nada disso.
Com língua, o que pesa é como o conhecimento novo encontra o que você já sabe. Todo mundo tem informação guardada. A maneira como você junta a informação nova com a antiga determina se vai ficar ou escapar. Por isso a forma de estudar muda o resultado: como você estuda, como busca memorizar os sinais, como constrói as frases.
Se o que você procura são dicas práticas de estudo, como não associar o sinal ao português e dar prioridade a sinais úteis, elas estão em Por que você esquece os Sinais da Libras? e em como memorizar os sinais da Libras. Aqui o assunto é o que está por trás do esquecimento.

O que acontece quando você acha que memorizou e não memorizou?
Você não percebe a falha enquanto estuda. Ela só aparece quando a pessoa surda está na sua frente e o sinal que parecia pronto não vem. É a pior parte, porque não dá aviso antes: o conhecimento não estava tão disponível quanto você achava.
Quem já passou por isso sabe como é: você tinha certeza, e na hora o sinal não vem. A sensação costuma vir acompanhada de culpa, mas ela não mostra falta de capacidade. Mostra que o sinal ainda não estava firme.
Essa sensação tem um componente prático, a frequência. Quem estuda uma vez por semana passa a semana inteira sem contato com a Libras e volta ao assunto só no encontro seguinte. Quem estuda duas, três ou quatro vezes por semana tende a absorver mais, porque o cérebro encontra o assunto com mais frequência.
Só que frequência também não resolve sozinha. Tem gente com pouco estudo que fixa bem, e gente que estuda muito e continua com branco. Por isso a próxima pergunta é importante.
Conviver com surdos garante que você vai lembrar os sinais?
Sozinho, não. Muitos familiares de pessoas surdas convivem todos os dias com elas e não ficam fluentes. Quem trabalha com surdos também. Contato ajuda, mas o que faz a Libras ser absorvida é o caminho pelo qual ela entra.
Existem várias formas de ter contato com a Libras: conviver com surdos, ver vídeos, estudar em apostilas, consultar dicionários e glossários, ler livros, usar a escrita de sinais. Quem mora no interior e não conhece surdos usa vídeo e material escrito, e isso pode funcionar. A questão está no que acontece depois do contato.
Se o jeito de estudar vai pela lógica do português, com a Libras sendo explicada e anotada em palavras, a pessoa fica com a sensação de estar apertando o cérebro. Quando se aprende a Libras pela própria lógica da Libras, o processo muda de textura: ela vai entrando como absorção, em vez de esforço. Isso vale para qualquer língua: quem quer pensar em inglês ganha ao aprender inglês em inglês.
Que tipo de registro ajuda a lembrar um sinal?
O registro que mostra como o sinal é, na lógica da própria Libras. Anotar o sinal em português produz uma frase sobre o sinal, que não devolve a imagem dele quando você precisa. Um registro que preserva a forma do sinal ajuda a lembrar.
A escrita tem esse poder. Ela tira a ideia da cabeça e a coloca no mundo real, e o que se escreve atravessa o tempo. No caso da Libras, escrever o sinal com um sistema que parte da Libras faz o registro funcionar como memória.
Conto o que me aconteceu. Um amigo surdo foi lá em casa e usou um sinal que eu nunca tinha visto, o de currículo Lattes. Peguei o papel e escrevi o sinal ali, na hora. Hoje devo ter escrito esse sinal umas três ou quatro vezes na vida e nunca mais esqueci. O contato foi pequeno, o registro foi certo.
Por que anotar em português não devolve o sinal
No começo da minha história com a Libras, uma apostila chamava de "escrita da Libras" um conjunto de palavras do português na ordem de uma frase. Isso se chama glosa. A glosa é uma técnica de pesquisadores para explicar uma língua usando palavras de outra, e tem seu lugar na pesquisa. Como escrita da Libras, ela não ajuda a lembrar como o sinal é.
Quando tentei descrever um único sinal por palavras, as anotações ocuparam duas linhas e ainda deixaram dúvida. Uma amiga minha anotou um sinal por descrição e, tempos depois, nem ela entendia qual era. O mesmo conteúdo cabe em poucos símbolos de uma escrita feita para sinais.
Pense numa peneira feita de ouro: é linda, mas não serve para pegar água. A escrita do português serve para o português. Para a Libras, o registro tem de falar a língua da Libras.
A escrita de sinais parte da Libras
Os símbolos da escrita de sinais seguem a forma do corpo e do movimento, e por isso são chamados de traços não arbitrários. A letra A não tem relação com o som que ela representa; o símbolo de um sinal escrito tem relação com o que acontece no corpo. Quem escreve precisa pensar no sinal antes de registrar, e esse pensar já é parte da memória.
Quem está começando agora pode usar a escrita de sinais?
Pode, e na minha visão deveria. A maior dificuldade do ouvinte é que a Libras é uma língua completamente diferente do português, e a escrita de sinais parte da Libras. Quem começa por ela já nasce direcionado para a Libras, em vez de traduzir.
Crescemos acreditando que a escrita é poderosa, que registra as coisas. Quando vamos aprender Libras, tentamos escrever em português, e isso nos puxa de volta para o português. A escrita de sinais mostra, desde cedo, que os sinais têm relação com o corpo: onde são feitos, como se movem. Perceber isso acelera a leitura da língua.
No meu dia a dia faço o registro de mais de uma forma: no papel, no celular e na cabeça. Quando vejo um sinal novo, minha mente costuma escrevê-lo automaticamente. Descobri que a Raquel também faz isso, e depois vi alunos fazendo o mesmo. Considero esse resultado fruto de prática, e foi um processo ao longo de anos no caminho da Libras.
Quem quer entender a base de tudo isso pode começar por O que é escrita de sinais e por escrita de sinais não é português sinalizado. Os livros que escrevemos sobre o tema estão reunidos no Box Libras Sem Travas.
O que dá para fazer a partir de hoje?
Priorize os sinais que você usa de verdade, estude com frequência e guarde os sinais novos num registro que mostre como eles são. Depois, teste na conversa. É um começo pequeno e já muda a forma como o cérebro trata o que você aprende.
Quatro passos para começar:
- Escolha os sinais que aparecem no seu dia a dia, em vez de uma lista aleatória.
- Estude em mais dias da semana, mesmo que em sessões curtas.
- Registre cada sinal novo por um meio que preserve a forma dele, e não por uma frase em português.
- Use o sinal na primeira conversa possível. O cérebro dá valor ao que é usado.
Perguntas frequentes
Por que esqueço o sinal quando vejo uma pessoa surda?
Porque o sinal não estava tão disponível quanto parecia. O cérebro poupa energia e deixa de lado o que não é usado, e a falha só aparece na conversa. Estudar com mais frequência, usar o sinal em contexto e registrá-lo de forma que preserve como ele é ajudam a fixar.
Ter amigo ou familiar surdo basta para não esquecer sinais?
Não basta. Muitos familiares convivem todos os dias com pessoas surdas e não se tornam fluentes. O contato ajuda, mas o que sustenta a memória é o jeito como a Libras entra: pela lógica dela, com uso e registro, e não só pela convivência.
Anotar o sinal em português ajuda a lembrar?
Ajuda pouco. A anotação em palavras diz algo sobre o sinal, mas não devolve a imagem dele. O registro que ajuda mais é o que parte da Libras e preserva a forma do sinal, como a escrita de sinais.
O que é glosa em Libras?
Glosa é uma técnica de pesquisadores para explicar uma língua usando palavras de outra, como colocar palavras do português na ordem de uma frase em Libras. Ela serve à pesquisa. Como escrita da Libras, não mostra como o sinal é.
