Escrita de Sinais
O que é Escrita de Sinais: a Libras escrita no papel, sem tradução para o português
Todo mundo aprende que a Libras é uma língua completa. Quase ninguém aprende que ela tem escrita própria desde 1974, e que ela registra o sinal, não a palavra em português.

Madson Barreto
Intérprete e fundador da Universidade da Libras

Escrita de Sinais é o sistema que registra no papel o sinal de uma língua de sinais do jeito que ele é produzido pelo corpo, sem passar pela tradução para o português. Foi criado em 1974 por Valerie Sutton, e hoje é usado para escrever mais de 64 Línguas de Sinais ao redor do mundo. A pergunta que a maioria faz é se a Libras pode ser escrita. A pergunta certa é por que ninguém contou isso a você enquanto você aprendia Libras.
O que é Escrita de Sinais, exatamente?
Escrita de Sinais é o nome, no Brasil, do sistema internacional conhecido como SignWriting: um sistema de escrita pleno das Línguas de Sinais. Assim como o alfabeto latino representa os sons das línguas orais, ele representa os elementos visoespaciais que compõem cada sinal: Configuração de Mão, Orientação da Palma, Locação, Movimento e Expressão Não Manual. Ele registra o sinal em si, não a tradução dele.
Ela escreve o sinal, não a palavra
Escrever "EU IR CASA" em português, sinal por sinal, produz uma coisa. Escrever o sinal de "ir" com a Escrita de Sinais produz outra, completamente diferente: o registro do próprio movimento, sem passar pelo léxico do português no meio do caminho. Essa diferença é grande demais para uma frase só, e o português sinalizado tem um artigo inteiro dedicado a ela.
O livro Escrita de Sinais sem Mistérios resolve uma dúvida comum de quem chega até aqui: "mas eu não sei desenhar". A resposta do próprio livro é direta: "a Escrita de Sinais não é desenho. É linguagem. É estrutura. É expressão." Cada pessoa desenvolve a própria caligrafia nela, do mesmo jeito que desenvolve na escrita do português.
Por que ela é escrita em colunas, de cima para baixo
Cada sinal vira, na Escrita de Sinais, um bloco visual chamado cluster: os grafemas da mão, da palma, do movimento e da expressão aparecem juntos, organizados no espaço, e não um atrás do outro como as letras de uma palavra. Essa simultaneidade gráfica existe porque o sinal também acontece assim no corpo, tudo ao mesmo tempo. É por isso que frases inteiras são organizadas em colunas verticais, de cima para baixo, e não em linhas horizontais como o português.
Valerie Sutton escreveu, no prefácio da 3ª edição do livro, que guarda até hoje a memória de abrir o livro pela primeira vez e ver a Libras escrita em colunas verticais "de forma tão clara e bela". Quando você entende por que a coluna existe, aquilo deixa de parecer estranho e passa a parecer óbvio.
Quem criou a Escrita de Sinais e por quê?
Valerie Sutton, em 1974, na Dinamarca, aos 23 anos. Ela era bailarina e, entre 1970 e 1972, já tinha criado o DanceWriting para registrar movimento de corpo no papel. Um pesquisador da Universidade de Copenhague viu, numa matéria de jornal, que existia alguém escrevendo movimento, e chamou Sutton para aplicar aquilo a sinais.
A cena que fundou tudo
Na primavera de 1974, Sutton voltou à Dinamarca para ensinar o DanceWriting na Royal Danish Ballet. Jornais publicaram matérias sobre a jovem que criou uma forma de escrever movimento do corpo. Uma dessas matérias chegou à Universidade de Copenhague e despertou o interesse de Lars von der Lieth, pesquisador cujo departamento respondia pelos estudos sobre surdez e Língua de Sinais.
Sutton passou a frequentar clubes de surdos, mostrar as próprias anotações e adaptar o sistema a cada encontro. É dela a frase que resume a origem inteira do sistema: "Não fui eu quem decidiu que as línguas de sinais deveriam ser escritas. Foram os surdos e pesquisadores que me pediram isso. Eu apenas ouvi."
O sistema que você vê hoje não é o de 1974
A primeira versão, chamada "SignWriting Detalhado" e usada entre 1974 e 1976, ainda era quase uma adaptação direta do DanceWriting: tinha pauta, um "boneco" de referência e era escrita na horizontal. O sistema não nasceu pronto. Ele foi refinado por cinquenta anos, em contato direto com a comunidade surda, não numa mesa de laboratório.
A Escrita de Sinais é um alfabeto?
Sim, e de um tipo específico. O conjunto internacional de grafemas se chama ISWA (International SignWriting Alphabet), e os símbolos dele não são arbitrários como as letras do português: cada um espelha visualmente o articulador do corpo que produz aquela parte do sinal.
O que o livro chama de Alfabeto Espelho
Na literatura internacional, esse tipo de sistema é chamado de featural writing system, um termo sem equivalente claro em português até a 3ª edição de Escrita de Sinais sem Mistérios propor "Escrita Espelho" e, de forma mais específica, "Alfabeto Espelho": um alfabeto cujos grafemas têm correspondência visual direta com os articuladores do corpo, refletindo como os sinais são de fato produzidos. Existe até um paralelo curioso: pesquisa mais recente aponta o Hangul, a escrita coreana usada por um país inteiro todos os dias, como outro exemplo desse mesmo tipo de sistema. Essa terminologia está detalhada no livro Escrita de Sinais sem Mistérios, na 3ª edição comemorativa, prefaciada pela própria Valerie Sutton.
O que ela consegue registrar
O ISWA 2010, versão de referência do alfabeto internacional, organiza os grafemas em 7 categorias: Mãos, Movimentos, Dinâmica e Tempo, Cabeça e Face, Corpo, Locação Detalhada e Pontuação. Dentro dessas categorias, o sistema é capaz de registrar:
- Configurações de Mão, organizadas em 10 grupos internacionais
- Orientação da Palma
- Movimento
- Locação no corpo
- Expressões Não Manuais da cabeça, da face e do tronco, inclusive a respiração, quando necessário
No recorte da Libras, já foram identificadas 111 Configurações de Mão organizadas segundo o ISWA 2010, das quais 6 não existiam na classificação original de Sutton e precisaram ser criadas seguindo as próprias regras do sistema. Um dos parâmetros que essa lista cobre, a Orientação da Palma, tem um artigo próprio explicando por que ele é o mais esquecido de todos.
Ela serve para qualquer Língua de Sinais?
Sim. O sistema não foi criado para uma Língua de Sinais específica: foi criado para registrar movimento de corpo, e por isso se adapta a qualquer uma delas. Hoje ele é usado para escrever mais de 64 Línguas de Sinais ao redor do mundo, segundo a contagem da própria criadora do sistema, em 2025.
Isso não quer dizer que exista uma única Língua de Sinais no planeta, nem que a Libras seja igual a qualquer outra: cada país tem a sua, com gramática e sinais próprios, algo que o artigo sobre se a Libras é uma língua universal explica melhor. O que é universal é o sistema de escrita, não a língua escrita nele. Entre as propostas de escrita de sinais que já existiram, o SignWriting é, hoje, a mais usada no mundo.

Para que serve saber escrever a Libras?
Um vídeo mostra o sinal acontecendo, e depois ele some. A Escrita de Sinais guarda o sinal parado, com os articuladores que o formam, de um jeito que dá para consultar de novo mais tarde, como uma palavra guardada num dicionário.
O que muda para quem está aprendendo
Quando você começa a registrar os sinais que aprende, a primeira coisa que muda é parar de perder sinal que já sabia. Um sinal só visto vira uma lembrança vaga; um sinal registrado nos parâmetros que o formam é informação completa, recuperável quando a memória falha. O poder de aprender a escrever a Libras está exatamente nesse ponto: você deixa de depender só da sua memória para não perder o que já aprendeu.
E para quem é surdo
Marianne Stumpf, em pesquisa que acompanhou crianças surdas aprendendo o sistema, relata algo simples e forte: várias delas se surpreenderam ao descobrir que o português escrito não era o registro da própria língua. Elas liam Português a vida inteira, e só ali entenderam que a Libras cabia no papel do jeito que é sinalizada, não traduzida.
No Brasil, a Escrita de Sinais já aparece em pesquisa universitária e já foi tema de questão de concurso público, mas ainda não existe lei que a torne obrigatória. Essa história, de como o sistema chegou e cresceu no país, está no artigo sobre a história da Escrita de Sinais no Brasil.
Dá para escrever Libras no computador e no celular?
Dá. Desde 2004 existe o SignPuddle, plataforma gratuita criada por Steve Slevinski, com arrastar e soltar, onde dá para montar dicionário bilíngue, escrever sinal por grafema e buscar um sinal já registrado por outra pessoa. É a principal ferramenta usada no mundo, inclusive na Libras, para escrever sinais e textos diretamente em Língua de Sinais.
Em 2006, o SignWriting foi reconhecido pelo comitê da ISO como escrita das Línguas de Sinais e passou a constar no Registro das Escritas do Mundo, o mesmo catálogo que reúne os sistemas de escrita reconhecidos no planeta. Não é uma proposta de nicho: é escrita reconhecida, com padrão técnico.
Em 2015, ele também entrou para o padrão Unicode, com 672 pontos de código atribuídos. E aqui vale a ressalva honesta que o próprio livro Escrita de Sinais sem Mistérios faz: aquele padrão não deu conta da lógica espacial do sistema, do jeito como os grafemas se organizam no bloco do sinal. Por isso, em 2017, o mesmo Steve Slevinski criou o SWU, uma forma de codificar a Escrita de Sinais que finalmente respeita essa lógica.
Você já perdeu um sinal que sabia. Já viu o vídeo várias vezes e mesmo assim esqueceu na hora de usar. E talvez já tenha pensado que era falta de estudo. Não era. Era falta de registro. Existe quem lê este artigo como curiosidade e segue a vida, e existe quem lê e percebe que está a um passo de registrar a própria língua de sinais, em vez de só assistir a ela passar. Para quem quer sair do conceito e ir direto para a prática guiada, com material físico, o Box Libras Sem Travas existe exatamente para isso.
Perguntas frequentes
O que é Escrita de Sinais em poucas palavras?
É o sistema que permite escrever uma Língua de Sinais no papel registrando o sinal em si, com os articuladores do corpo que o produzem, sem passar pela tradução para uma língua falada. No Brasil ele é conhecido como Escrita de Sinais, e internacionalmente como SignWriting. É o sistema mais usado no mundo para esse fim.
Quem criou a Escrita de Sinais?
Valerie Sutton, em 1974, na Dinamarca, aos 23 anos. Ela era bailarina e havia criado o DanceWriting entre 1970 e 1972 para registrar movimento de corpo no papel. Um pesquisador da Universidade de Copenhague viu numa matéria de jornal que existia alguém escrevendo movimento e a chamou para aplicar aquilo a gravações de pessoas surdas sinalizando.
A Escrita de Sinais é um alfabeto?
Sim, e de um tipo específico. O conjunto internacional de grafemas se chama ISWA. Diferente das letras do português, que são arbitrárias, os grafemas da Escrita de Sinais espelham visualmente os articuladores do corpo que produzem o sinal. Por isso o livro Escrita de Sinais sem Mistérios classifica o sistema como um Alfabeto Espelho.
Escrita de Sinais é a mesma coisa que escrever Libras com palavras em português?
Não. Escrever sinal por sinal usando palavras do português produz outra coisa, e não a Libras escrita. A Escrita de Sinais registra o próprio sinal, com os articuladores que o formam, seguindo a estrutura da Língua de Sinais. Por isso uma pessoa surda lê ali a própria língua, e não uma versão traduzida dela.
A Escrita de Sinais é reconhecida oficialmente?
Como escrita, sim. Em 2006 o sistema foi reconhecido pelo comitê da ISO como escrita das Línguas de Sinais e passou a constar no Registro das Escritas do Mundo, o mesmo registro que cataloga os sistemas de escrita do planeta. No Brasil, ela já aparece em pesquisa universitária e em conteúdo de concurso público, mas ainda não há lei que a torne obrigatória.
Preciso saber desenhar para aprender Escrita de Sinais?
Não precisa. A Escrita de Sinais funciona como um sistema de grafemas com regras próprias, mais parecido com aprender um conjunto novo de letras do que com desenho artístico. Cada pessoa desenvolve a própria caligrafia nela, exatamente como acontece na escrita do português.
