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Curso de Libras

Como aprender Libras de verdade: estudei por anos e não entendia os surdos

Por Madson Barreto

Depois de anos de curso e apostila, uma conversa numa praça mostrou o que faltava: conviver com surdos e pensar direto em Libras.

Madson Barreto

Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

Publicado em
Tempo de leitura
8 min de leitura

Para aprender e se desenvolver na Libras, não basta juntar sinais de apostila. É preciso conviver com surdos e treinar a mente para pensar direto em Libras, sem passar pelo Português. Descobri isso depois de anos de curso, apostila e fita de vídeo, no dia em que não entendi nada do que dois surdos conversavam numa praça. Conto aqui o caminho, os tropeços e o que de fato destravou.

Por que anos de curso de Libras podem não bastar para entender os surdos?

A maioria dos cursos e apostilas ensina Libras pela lógica do Português: uma palavra, um sinal. Só que a língua de sinais tem gramática própria e vive na conversa entre surdos. Quem estuda só assim reúne vocabulário, mas trava na hora de entender e de responder uma conversa de verdade.

O cursinho que eu achava que bastava

Eu era adolescente quando vi Libras pela primeira vez, na igreja, e fiquei no pé da minha mãe até ela me deixar entrar no cursinho. Achei que seriam poucos meses: três, que depois viraram cinco, com um encontro por semana, aos sábados de manhã. Eu atravessava a cidade de ônibus e não faltava por nada. No primeiro dia, só percebi que o professor era surdo quando alguém fez uma pergunta e ele não ouviu. Eu nem sabia que estava diante de um surdo.

Estudei aquela apostila todos os dias. Cheguei a achar que sabia tudo o que precisava para me comunicar.

O sinal de que algo estava errado

Na igreja, eu perguntava à intérprete como se dizia obedecer, depois merecer, depois reconhecer. A resposta vinha sempre com o mesmo sinal. Voltei para casa invocado e disse à minha mãe que a intérprete não sabia os sinais. Só muito depois entendi que os sinais não têm ligação direta com as palavras do Português. São duas línguas diferentes e independentes, e isso demorou a cair a ficha.

Quase cinco anos depois de começar, encontrei surdos conversando numa praça e não entendi nada. Dos colegas daquela turma, até onde consegui saber, ninguém continuou na área.

Madson Barreto.
Madson Barreto.

O que aconteceu na reunião em que os funcionários surdos mostraram o que faltava?

Eu coordenava 55 funcionários surdos e, numa reunião de trabalho, vi dois colegas sinalizando para os demais enquanto eu falava, como se me interpretassem. Eu usava Libras havia anos, mas minha comunicação não chegava inteira. Foi o choque que me fez parar de achar que o problema era só falta de prática.

Eu tinha entrado na instituição no RH e fui promovido a coordenador. Passei a ter contato direto com o presidente e com a diretoria, formada por surdos e ouvintes. Não estava ali por acaso: eles me escolheram. Até entrevistei candidatos à minha antiga vaga em Libras.

Na primeira reunião com a equipe, contei uma história, uma metáfora que preparei bastante, e todos gostaram. Dias depois, numa reunião de trabalho sobre pontualidade e burocracia, achei que dois deles estavam batendo papo. Não estavam. Eles interpretavam para os outros.

Passei a semana seguinte num poço. Tudo o que eu tinha feito para aprender, e que eu achava certo, não funcionava com surdos de verdade. Se eu precisava de um surdo para me interpretar, onde estava o erro?

Como a convivência diária com surdos muda a forma de aprender Libras?

Conviver com surdos coloca você dentro do uso real da língua de sinais: o jeito de conversar, o ritmo, as variações entre idades. Isso faz o que nenhuma apostila faz, que é mostrar a Libras viva. Foi por esse caminho, e não por mais um curso, que comecei a me comunicar de verdade.

Observar antes de repetir

Depois do almoço, os surdos ficavam na praça em frente ao trabalho. Eu os observava, como sempre, mas naquele dia vi o que não tinha visto: o jeito deles conversar era totalmente diferente do que os cursos e as apostilas me ensinaram. Aquela apostila era usada em todo o Brasil.

Entendi também por que, às vezes, um surdo dormia enquanto eu interpretava na igreja. Eu não sabia que o motivo era a minha interpretação.

Pedi a um colega surdo, professor de Libras, que me desse aulas. Ele recusou: já trabalhava em outros lugares e tinha a família. A resposta dele foi a mais útil que recebi: observe os surdos.

Desaprender o que estava errado

Foi o que fiz. Tomava café com surdos, almoçava com surdos, voltava de ônibus e de metrô com surdos. Subia e descia a pé os andares do prédio, onde havia surdos de todas as idades, adolescentes e idosos, homens e mulheres, para ter mais contato.

Comecei a revisitar o que eu tinha aprendido para apagar o que estava errado. Um exemplo: um sinal que aprendi no primeiro cursinho, para açúcar, nunca vi em lugar nenhum do Brasil, em conversa com surdos de todo canto. É como um norte-americano que fala "português" do jeito dele: ninguém entende. Quem quer se comunicar precisa falar do jeito que o outro fala. Sobre esse trabalho de esquecer o que ficou errado, veja também como esquecer sinais pode fazer parte do aprendizado.

Por que pensar em Português trava a conversa em Libras?

Porque a conversa em Libras acontece em tempo real, e quem pensa primeiro em Português para depois converter em sinais nunca acompanha o ritmo. Cada frase vira uma tradução na cabeça. O resultado é cansaço, dor de cabeça e uma conversa que não flui, mesmo com muito vocabulário.

Na época, eu namorava a Raquel, que hoje é minha esposa e é surda. Quando eu sinalizava algo, ela repetia de volta, resumida. Eu achava que ela confirmava se tinha entendido. Na verdade, serviu para me corrigir.

Aos poucos descobri o pior: eu não entendia. Ela me contava um encontro com amigas e eu viajava em outro mundo. Semanas depois ela dizia "lembra que te contei?" e eu não lembrava. Toda vez que nos encontrávamos, eu ia embora com dor de cabeça.

A razão era simples e cruel. Ao receber a mensagem, eu a traduzia para Português na cabeça. Ao responder, pensava primeiro em Português para só depois passar para sinais. Não dava tempo. Parecia uma prisão na mente.

Isso tem nome: português sinalizado, que é usar a estrutura do Português com sinais por cima. O bimodalismo, falar e sinalizar ao mesmo tempo, é uma forma disso, e muita gente que trabalha com Libras acha que está sinalizando bem, e a conversa não flui. A razão está em a gramática própria da Libras: aprender sinais pela lógica do Português é como querer nadar sem entrar na água, entrar na piscina e não se molhar.

O que muda quando você passa a pensar direto em Libras?

A conversa deixa de ser um esforço de tradução e passa a fluir. Você entende o surdo sem converter, responde sem montar a frase em Português, e ele percebe a diferença. Para mim, a prova veio num momento em que interpretei uma música para um surdo exigente.

Esse surdo tinha uma sinalização riquíssima e, durante anos, não aprovou nenhuma música que eu ou os outros intérpretes da igreja interpretamos. Eu perguntei por quê. Ele respondeu que não entendia, que era obscuro.

Meus hábitos errados estavam fixos havia muitos anos, e mudar levou tempo. Treinei bastante e refleti bastante. Num certo dia interpretei uma música de um jeito diferente. Quando olhei, o surdo estava acompanhando a música junto comigo.

Naquele dia tive certeza: estava me comunicando em Libras de um jeito que ele entendia. Foi muito emocionante. E aprendi algo mais: os surdos percebem quem pensa em Libras. Passam a tratar você como alguém do grupo, como aliado.

Como começar hoje a se desenvolver na Libras?

Comece colocando a Libras viva na sua rotina: converse com surdos, observe como eles se expressam e deixe de procurar, para cada sinal, o equivalente em Português. Estudo organizado ajuda, desde que ensine a pensar em Libras, não a traduzir. Esse é o caminho que encurta anos de tentativa.

Se você ainda não tem contato com surdos, busque eventos, igrejas, associações e cursos em que surdos participem. Quem já estuda e travou pode ler como começar sem repetir meus erros e por que qualquer pessoa consegue aprender Libras.

Se a sua dificuldade é entender os surdos, este artigo sobre as causas ajuda a localizar o ponto exato.

Quando comecei, aprendia Libras para ajudar os surdos da igreja. Eu não fazia ideia do que isso ia mudar na minha vida.

Reconhecimento legal ajuda a abrir portas: a Lei 10.436, de 2002, reconheceu a Libras, e o Decreto 5.626, de 2005, a regulamentou. O que abre as portas da conversa, porém, é a convivência.

Perguntas frequentes

Quanto tempo leva para aprender Libras?

Depende de quanta prática e convivência com surdos você tem, e de o estudo ensinar a pensar em Libras ou apenas a juntar vocabulário. Não há um número que valha para todos.

Um curso de Libras é suficiente para entender os surdos?

Um curso dá a base e o primeiro contato, e isso tem valor. O que decide a evolução é se o estudo leva você a pensar em Libras e a usá-la com surdos. Quem fica só na apostila em Português costuma travar quando encontra uma conversa de verdade.

O que significa pensar direto em Libras?

É entender o que o surdo sinaliza sem traduzir para o Português na cabeça, e responder sem montar a frase em Português antes. Quando isso acontece, a conversa flui, você acompanha o ritmo e o cansaço da tradução some.

Preciso conviver com surdos para aprender Libras?

Sim, na minha experiência é o que mais acelera. A convivência mostra a Libras como ela é usada: o jeito de conversar, as variações entre pessoas e lugares. Material de estudo ajuda, mas o contato com surdos é o que ensina a conversa real.

Como citar este artigo

Formato ABNT (NBR 6023), para trabalhos acadêmicos.

BARRETO, Madson. Como aprender Libras de verdade: estudei por anos e não entendia os surdos. Salvador: Universidade da Libras, 2026. Disponível em: https://universidadedalibras.com.br/post/como-aprender-e-se-desenvolver-na-libras. Acesso em: data em que você lê a página.

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