Intérprete de Libras
Intérprete educacional de Libras: e se o aluno chega sem Libras?
Por Madson Barreto
A lei descreve o trabalho em uma frase, e a rotina de uma sala real mostra o que essa frase pede antes de a aula começar.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras
O intérprete educacional de Libras leva a aula do professor até o aluno surdo e a dúvida do aluno de volta até o professor, ao vivo, dentro da sala. A Lei 12.319 descreve esse trabalho: interpretar as atividades didático-pedagógicas para que o aluno tenha acesso aos conteúdos do currículo. A ponte segura quando o intérprete chega com o vocabulário da matéria. E fica pesada quando o aluno chega à escola sem Libras. Nas próximas seções eu mostro o que é do intérprete e o que é da escola.
O que faz um intérprete educacional de Libras na sala de aula?
Ele interpreta a aula do professor para a Libras e a fala do aluno surdo para o português, ao vivo, na sala. A Lei 12.319, no art. 6º, inciso II, diz que o trabalho é interpretar as atividades didático-pedagógicas e culturais das instituições de ensino, do fundamental ao superior, para dar acesso aos conteúdos curriculares.
O texto da lei nomeia três frentes de trabalho na escola:
- interpretar as atividades didático-pedagógicas e culturais, nos níveis fundamental, médio e superior (inciso II);
- atuar nos processos seletivos para cursos da instituição de ensino e nos concursos públicos (inciso III);
- apoiar a acessibilidade aos serviços e às atividades-fim das instituições de ensino e das repartições públicas (inciso IV).
A porta da sala abre, o professor começa a explicar, o aluno surdo olha para você. A partir daí, cada frase passa por você antes de chegar a ele. Eu chamo isso de ponte de comunicação.
Eu conheço essa sala por dentro. Trabalhei três anos como intérprete numa escola da rede municipal, e foi nesse período que eu escrevia, junto com a Raquel, a primeira edição do livro Escrita de Sinais sem Mistérios.
O intérprete educacional explica a matéria no lugar do professor?
Não. O intérprete leva o conteúdo do professor para a Libras e a fala do aluno para o professor, sem dar a aula por ele. O Decreto 5.626, no art. 14, § 2º, trata a função de intérprete como distinta da função de professor docente.
É tentador responder sozinho a dúvida do aluno, principalmente quando você sabe a resposta. Eu me lembro bem de uma aula de geografia sobre globalização. O aluno não conhecia aquele sinal e me perguntou o que era aquilo.
Eu interpretei a pergunta dele para a professora. Quem explicou o que era globalização foi ela. Meu trabalho foi fazer a pergunta chegar inteira, e depois a resposta voltar inteira, e isso já é um trabalho completo. Interpretar a pergunta do aluno para o português é a direção que eu detalho no artigo sobre como interpretar da Libras para o português.
Em outro momento, para despertar a curiosidade dele, eu escrevi no papel o sinal de globalização. Ele viu como a escrita de sinais funciona, e aquilo deixou a aula mais visual para nós dois.
Eu comento essa fase no UnilibrasCast #26, quando uma seguidora que interpreta na prefeitura e na igreja me perguntou sobre esses dois contextos. A parte sobre a escola ocupa os primeiros nove minutos e volta perto dos 25.
O que o intérprete educacional precisa ter na mesa antes de a aula começar?
Precisa ter o vocabulário da disciplina que vai interpretar e um jeito de registrar o que a aula retoma. Cada matéria traz termos e contextos novos, e a sala pede apoio visual ao alcance da mão. Sem isso, o intérprete descobre o termo novo na hora, diante do aluno.
A mesa
Na minha mesa havia sempre uma folha de papel, uma caneta e um glossário pequeno de cada disciplina. Eu conto essa mesa por inteiro no artigo sobre como se preparar para interpretar em Libras. Quem fica sem esse apoio e vê o sinal sumir na hora está perto do branco, que eu explico em como parar de travar ao interpretar em Libras.
Onde eu ficava na sala
Eu mudava de lugar conforme a aula. Em algumas matérias eu ficava sentado na frente do aluno, em outras em pé, e na matemática, na geografia e em ciências eu ia para perto do professor, junto ao quadro. O que decidia era a matéria e o jeito de dar aula de cada professor.
Às vezes eu sabia o sinal e o aluno não. Às vezes era ao contrário. Era encantador ver o brilho no olhar dele à medida que o vocabulário crescia.
Quando o material não chega
As intérpretes de escola que eu acompanho nas mentorias repetem outra queixa: o material da aula não chega antes, e o tema aparece só na hora. Para quem começa, uma das maneiras de sair desse improviso é estudar o vocabulário técnico de cada disciplina antes da aula.
Papel, caneta e um glossário por matéria parecem pouco. É método. A preparação é a primeira das oito habilidades que eu trabalho no livro Intérprete de Libras sem Mistérios, porque quem chega preparado interpreta com leveza.
Como lidar com aluno surdo que chega à escola sem Libras?
O intérprete não precisa carregar esse aluno sozinho. O Decreto 5.626, no art. 14, prevê nas instituições federais de ensino professor ou instrutor de Libras e sala de recursos em turno contrário, ao lado do intérprete. Interpretar supõe um aluno que tenha Libras para receber a aula.
O que a lei coloca ao lado do intérprete
Pelo art. 14, § 1º, inciso III, do decreto, as instituições federais de ensino devem prover as escolas com:
- professor de Libras ou instrutor de Libras;
- tradutor e intérprete de Libras e Língua Portuguesa;
- professor de Língua Portuguesa como segunda língua para pessoas surdas;
- professor regente com conhecimento da singularidade linguística dos alunos surdos.
O inciso IV desse mesmo § 1º fala do atendimento em salas de recursos, em turno contrário ao da escolarização. Para as demais redes, o § 3º diz que elas buscarão implementar essas medidas. Quem lê o art. 14 sabe o que perguntar à direção da escola.
O que eu vi na minha sala
Uma intérprete que eu acompanho na mentoria recebeu um aluno do 8º ano ainda sem alfabetização e com um pouquinho de Libras. Outra, no primeiro ano como intérprete educacional, me contou que levou três meses até o aluno dizer "não entendi". Antes disso, toda vez que ela perguntava se ele tinha entendido, ele balançava a cabeça dizendo sim. Esses dois casos são relatos, e cada sala parte de uma base diferente.
No meu caso, a escola tinha aulas no contraturno: uma ou duas vezes por semana o aluno ia ao atendimento na sala de apoio. A professora dessa sala sabia quase nada de Libras, e os programas que ela usava não deixavam a comunicação clara com ele.
Mesmo assim, de vez em quando eu via no caderno dele sinais escritos. E aquilo veio só do contato dele comigo na sala de aula. Eu escrevi sobre esse caminho em escrita de sinais na educação bilíngue de surdos.
Quando o aluno transmite um "não quero, não vou", a primeira leitura de quem interpreta é "eu sou o problema". Eu digo o que digo em mentoria: isso não é sobre você. Pode ser o jeito que ele encontrou de protestar contra o sistema, e a rede em volta dele é parte desse sistema.
Para a intérprete que carrega essa sala sozinha, eu conduzo a Mentoria Maestria na Libras: uma reunião individual comigo, encontros ao vivo em grupo e, se você quiser, a análise da sua sinalização em vídeo. A intérprete de escola passa a ter com quem conversar sobre a sala dela.
E se o intérprete educacional é o único da escola?
A Lei 12.319, com a redação da Lei 14.704, fixa a duração do trabalho em 6 horas por dia ou 30 por semana. E pede revezamento, com no mínimo 2 profissionais, em toda interpretação com mais de 1 hora. O texto não traz exceção escrita para a escola, e como cada rede organiza a dupla depende do contrato.
O art. 8º-A entrou na lei pela Lei 14.704, de 2023. Eu detalho as duas regras, a de 6 horas e a de 1 hora, na regra da jornada e do revezamento.
Nas mentorias, a intérprete de escola conta a mesma coisa de jeitos diferentes: a única da escola, sem par, sem o material antes e sem a quem perguntar. Uma coordenadora municipal me disse que muitas vezes não tem para quem perguntar e que, onde ela trabalha, ninguém entende.
Uma intérprete que acompanho hoje me disse que, depois de um ano e meio ao lado do mesmo aluno, a comunicação dos dois melhorou muito. É um relato, e cada caso parte de uma base diferente.
Se você ainda decide por onde entrar na profissão, o mapa está em como se tornar intérprete de Libras. E se você já está na sala, quem faz hoje a pergunta do seu aluno chegar ao professor?
Perguntas frequentes
Quanto ganha um intérprete de Libras nas escolas?
Depende da rede de ensino, do tipo de contrato e da carga de trabalho. Por isso eu não trago um número solto aqui. Eu reuni o que vejo no mercado, com a base ao lado de cada faixa, no artigo sobre quanto ganha um intérprete de Libras.
Qual é a formação necessária para ser intérprete educacional?
A Lei 12.319, na redação da Lei 14.704, traz no art. 4º os caminhos previstos para exercer a profissão de tradutor e intérprete. O texto vale para a escola como para qualquer outro contexto. Eu explico cada caminho no artigo sobre como se tornar intérprete de Libras.
Professor bilíngue pode atuar como intérprete?
Pode, com uma condição. O Decreto 5.626, no art. 14, § 2º, diz que o professor da educação básica, bilíngue, aprovado em exame de proficiência em tradução e interpretação de Libras e Língua Portuguesa, pode exercer a função de intérprete. O decreto também diz que essa função é distinta da de professor docente.
Em quais níveis de ensino o intérprete educacional atua?
No ensino fundamental, no médio e no superior. É o que o art. 6º, inciso II, da Lei 12.319 diz sobre a interpretação das atividades didático-pedagógicas e culturais das instituições de ensino. O mesmo artigo inclui os processos seletivos para cursos da instituição de ensino.
