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Escrita de Sinais

Surdo escreve errado? O português é a segunda língua dele

Por Madson Barreto

A escrita do surdo mostra a Libras aparecendo por baixo do português. Entenda a interlíngua e como o surdo pode escrever a língua de sinais dele.

Madson Barreto

Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

Publicado em
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7 min de leitura

O surdo escreve diferente em português porque o português escrito é a segunda língua dele. A primeira é a Libras, uma língua de sinais com gramática própria, feita para os olhos e para o espaço. Quando ele escreve, a estrutura da Libras aparece por baixo das palavras em português. O texto mostra alguém escrevendo numa língua que ele não escuta, e diz muito pouco sobre inteligência ou esforço.

Se você já recebeu uma mensagem de uma pessoa surda e achou as frases "fora do lugar", este texto mostra o que aconteceu ali, como ler essa mensagem e como o surdo pode escrever a língua de sinais dele.

O surdo escreve errado ou escreve numa segunda língua?

Ele escreve numa segunda língua. A lei brasileira já define assim: a Libras é a primeira língua da pessoa surda e o português escrito é a segunda. Chamar de erro o que é uma etapa de aprendizado de segunda língua troca a explicação pelo julgamento.

A Lei 14.191, de 2021, descreve a educação bilíngue de surdos como a que acontece em Libras, como primeira língua, e em português escrito, como segunda língua.

O Decreto 5.626, de 2005, vai além. No artigo 14, parágrafo 1º, ele manda as instituições federais de ensino ofertarem, desde a educação infantil, o ensino da Libras e também da Língua Portuguesa, como segunda língua, para alunos surdos. No mesmo parágrafo, o inciso VI manda adotar "mecanismos de avaliação coerentes com aprendizado de segunda língua" na correção das provas escritas, valorizando o aspecto semântico e reconhecendo a singularidade linguística da pessoa surda no aspecto formal do português.

Repare no que o inciso pede a quem corrige: olhar primeiro o sentido.

O artigo 13 do mesmo decreto completa o quadro. Ele manda incluir o ensino da modalidade escrita da Língua Portuguesa, como segunda língua para pessoas surdas, nos cursos de formação de professores. Os trechos estão no texto oficial dessas normas, no site do Planalto, conferido em 30 de setembro de 2026.

O que a Libras faz de diferente do português que aparece no texto do surdo?

A Libras organiza a frase de outro jeito. Ela é visual e espacial: usa o espaço, o rosto e o corpo para marcar relações que o português marca com artigos, preposições e conjunções. Quem pensa em Libras e escreve em português leva essa organização para o papel.

Pense num brasileiro que aprende inglês e escreve "Yesterday I go to the market". Todo mundo entende, e ninguém conclui que falta inteligência a ele. É a gramática do português aparecendo no inglês. Com o surdo, o mecanismo é o mesmo, com uma diferença: a língua de partida, a Libras, é visual, e o português é feito de sons, então a distância entre as duas costuma ser bem maior.

Um exemplo montado só para ilustrar, sem ser frase de pessoa real: "Ontem eu ir mercado, comprar pão." Faltam o artigo, a preposição e a conjugação do verbo, e a ideia chega inteira. Quem lê com atenção entende tudo, e a mensagem cumpriu o papel dela.

Imagine alguém que pensa em chinês e precisa ler e escrever em português. Ninguém pediria a essa pessoa que escrevesse sem marcas do chinês nas primeiras tentativas.

O que é interlíngua e como ela aparece no texto do surdo?

Interlíngua é o sistema intermediário que todo aprendiz de segunda língua constrói: ele tem regras próprias e fica entre a primeira língua e a língua que se quer aprender (Quadros e Schmiedt, 2006). Acontece com o ouvinte que aprende inglês e acontece com o surdo que aprende o português escrito.

No texto do surdo, esse sistema costuma aparecer com poucos artigos, preposições e conjunções, e com verbos no infinitivo. Com o tempo e com bom ensino, o texto chega mais perto do português convencional.

Cada pessoa surda está num ponto diferente desse caminho. Quando alguém lê o texto e diz "errado", apaga justamente o ponto em que a pessoa está e o avanço que ela já fez.

Por que o surdo chega ao português escrito sem ter escutado o português?

Porque o português escrito chega ao surdo pelos olhos, sem o som que sustenta a escrita do ouvinte. O ouvinte escreve o que já fala e escuta. O surdo aprende a escrever uma língua que nunca escutou, a partir da Libras.

Eu só entendi isso depois de errar. Numa igreja, na época do Natal, fui preparado para interpretar uma música. Num sábado à noite, numa lanchonete, uma intérprete escreveu a letra num guardanapo e colocou, embaixo de cada palavra em português, os sinais em letras maiúsculas. Passei a noite decorando.

No domingo, quando comecei a interpretar, percebi que as pessoas surdas não olhavam para mim. Olhavam para a parede, para o relógio, para a letra projetada. Anos depois, entendi o que eu tinha visto: o português escrito na parede chegava até elas de forma superficial, e o meu português sinalizado, sinal por sinal, chegava ainda pior.

Ninguém ali estava falhando. Eu entregava português onde faltava Libras. Escrevi sobre essa barreira em o que é português sinalizado.

Sair desse lugar pede pensar direto em Libras, sem montar a frase em português por baixo. É o ponto que o Método Fluente em Libras em 8 semanas trabalha com quem quer conversar de verdade com surdos.

Como ler o texto de um surdo sem chamar de errado?

Leia primeiro o sentido, depois a forma. O texto de quem escreve em segunda língua carrega a ideia inteira mesmo quando faltam artigo e preposição, e é essa ideia que pede resposta. Três atitudes ajudam:

  • Responda ao que a pessoa quis dizer, sem devolver o texto corrigido.
  • Escreva frases curtas e diretas, com uma ideia por vez.
  • Quando o assunto for importante, ofereça vídeo, chamada de vídeo ou intérprete, porque a Libras é a língua de sinais em que a pessoa se expressa por inteiro.

É o mesmo espírito do inciso VI do decreto: sentido primeiro, forma depois. Quem lê assim recebe a mensagem e, de quebra, mostra respeito pela língua de sinais da outra pessoa.

Como o surdo escreve a língua de sinais dele, e não só o português?

Com a Escrita de Sinais, também conhecida como SignWriting: um sistema que registra a Libras como ela é produzida, sem passar pelo português. Nela, o surdo escreve a primeira língua dele com a estrutura dela, e o português escrito segue como a segunda língua que ele constrói ao lado.

O artigo sobre o que é Escrita de Sinais mostra como o sistema funciona e quem o criou: Valerie Sutton, em 1974. Já a educação bilíngue de surdos mostra como essa escrita entra na alfabetização da criança surda.

No Brasil, a Escrita de Sinais virou campo de pesquisa. O levantamento da Universidade da Libras encontrou 41 universidades com dissertação, tese ou TCC dedicado ao SignWriting, e 77 dissertações e teses, sendo 56 dissertações e 21 teses, entre 1999 e 2025. A base é a pesquisa própria da Universidade da Libras, com cada trabalho conferido em fonte primária. A história dessa chegada ao país está em história da Escrita de Sinais no Brasil.

Eu já disse isso no UnilibrasCast: imagine a alegria do aluno surdo quando o professor escreve no caderno dele, em Libras, uma mensagem de parabéns. É outro nível de envolvimento, outro nível de contato. Quando a pessoa surda pode escrever na própria língua de sinais, o português deixa de ser o único lugar onde ela aparece por escrito.

Quem quer conhecer essa escrita de perto encontra o caminho completo no Box Libras Sem Travas. O livro Escrita de Sinais sem Mistérios traz textos inteiros escritos em Libras, para você ver a língua de sinais no papel.

Perguntas frequentes

Por que o surdo escreve diferente em português?

Porque o português escrito é a segunda língua dele, aprendida a partir da Libras, que é a primeira. A estrutura da língua de sinais aparece no texto: poucos artigos e preposições e verbos no infinitivo. O resultado é uma interlíngua, uma fase normal de quem aprende uma segunda língua.

Todo surdo escreve assim?

Não. Cada pessoa surda está num ponto diferente do aprendizado do português escrito. Uns escrevem com marcas fortes da Libras, outros chegam a um português mais próximo do convencional. O ponto depende de como foi o contato com a Libras e com o português ao longo da vida.

O que é interlíngua?

É o sistema intermediário que quem aprende uma segunda língua constrói no caminho. Ele tem regras próprias e fica entre a primeira língua e a língua-alvo. Acontece com surdos aprendendo português e com ouvintes aprendendo inglês.

A Libras tem escrita?

Tem. A Escrita de Sinais, ou SignWriting, registra a Libras como ela é produzida, sem passar pelo português. Foi criada por Valerie Sutton em 1974 e hoje é pesquisada em universidades brasileiras. Ela permite ao surdo escrever a língua de sinais dele ao lado do português escrito.

Como citar este artigo

Formato ABNT (NBR 6023), para trabalhos acadêmicos.

BARRETO, Madson. Surdo escreve errado? O português é a segunda língua dele. Salvador: Universidade da Libras, 2026. Disponível em: https://universidadedalibras.com.br/post/por-que-o-surdo-escreve-diferente-em-portugues. Acesso em: data em que você lê a página.