Sinais em Libras
Classificadores em Libras: a parte da gramática que só parece mímica
Por Madson Barreto
O português não tem esse recurso, e por isso ele parece coisa de outro mundo. Na conversa com surdos, ele aparece bem mais do que se imagina.

Madson Barreto
Escritor, Mentor e Intérprete de Libras
Classificadores em Libras são o recurso da gramática em que a forma da mão e o movimento mostram como algo é, onde está e o que faz. A pesquisa brasileira o descreve como um tipo de morfema (Pizzio et al., 2009). Línguas faladas como o tailandês também têm classificadores. O português não tem, e por isso muita gente ouve a palavra "classificador" e pensa em mímica. O que separa uma coisa da outra aparece quando você vê o que o classificador faz e um sinal sozinho não faz.
O que são classificadores em Libras?
Classificador é um morfema: um pedaço de uma língua que já carrega significado sozinho. Na Libras, ele aparece na forma da mão e diz a que classe algo pertence, qual é sua forma, seu tamanho ou como ele age numa ação (Pizzio et al., 2009). Ele existe sem depender do português.
Pense no "mente" que fecha "felizmente" e "continuamente". Ele tem sentido próprio e muda a classe da palavra. Esse tipo de peça é o morfema.
O mais parecido que o português tem com um classificador é a onomatopeia, como o "crash" escrito na cena de batida do desenho animado: um som que já mostra a coisa.
Outras línguas faladas têm classificadores de verdade. O texto-base de Língua Brasileira de Sinais III, da UFSC, cita o tailandês, muitas línguas africanas do grupo bantu e o navajo (Pizzio et al., 2009). O português não tem nada igual, e essa ausência me ajuda a explicar por que a Libras é uma língua de sinais independente: ela tem um recurso que o português nem conhece. Quem quer entender essa separação começa pela gramática da Libras, e o português sinalizado é o que acontece quando ela é ignorada.
O próprio sinal de "classificador" tem uma curiosidade: ele mesmo não usa nenhum classificador. Na minha leitura, essa escolha veio mais de pesquisadores ouvintes do que da comunidade surda, e é só a minha leitura.

Para que servem os classificadores em Libras?
Servem para dizer o que o sinal sozinho não diz: como algo é, onde está e como se move, e como várias coisas se relacionam dentro da mesma cena. Com o sinal você nomeia. Com o classificador você mostra a cena, e quem vê a reconstrói na cabeça.
Você já viu um surdo contar uma história com as mãos, o rosto e o corpo. Já reparou que ele diz onde cada coisa está sem usar uma palavra de lugar. E já ouviu alguém dizer que aquilo é "só mímica". A resposta está nas três funções do classificador:
- Mostrar como a coisa é: forma, tamanho e jeito de usar.
- Mostrar onde ela está e o que faz: lugar, direção e movimento.
- Mostrar como as coisas se relacionam: uma perto da outra, uma passando pela outra, uma se afastando.
No UnilibrasCast eu dou um exemplo que resume tudo. Imagine que eu quero contar como estava um congresso lotado. Em Libras, uma única construção diz que havia várias fileiras de cadeiras, com o lugar cheio. Em português eu preciso de uma frase inteira, e ainda perco a imagem da sala. É o mesmo recurso que dá vida à poesia em Libras, como a Raquel conta no artigo sobre classificadores da natureza.


O sinal fica com o que é estático
Se eu quero dizer "pessoa sentada", o sinal serve para qualquer lugar: cadeira, cama, banco de praça. Ele não diz nada sobre o lugar. Para dizer onde a pessoa sentou e como o ambiente era, entra o classificador. O sinal cuida da palavra fixa, e o classificador cuida da cena.
Quais são os tipos de classificadores em Libras?
O texto-base de Língua Brasileira de Sinais III, da UFSC, descreve cinco tipos: descritivos, especificadores, de plural, instrumentais e de corpo. Cada tipo responde a uma pergunta diferente sobre aquilo que se quer dizer (Pizzio et al., 2009). Juntos, os cinco cobrem forma, lugar, quantidade, uso e ação.
- Descritivos: como algo é, com tamanho, textura e forma, e onde está e o que faz.
- Especificadores: os detalhes de aparência de algo, como a forma, o tamanho e até o número de uma camisa de futebol.
- De plural: várias coisas do mesmo tipo, como potes lado a lado ou quadros espalhados numa parede.
- Instrumentais: como se usa um instrumento, como pintar uma parede com rolo ou escovar os dentes.
- De corpo: como uma ação aparece no corpo de um ser, como o andar de um cachorro.
O mesmo texto mostra que uma forma pode ter mais de um sentido conforme o contexto: um mesmo classificador pode indicar uma pessoa deitada ou uma pessoa que caiu (Pizzio et al., 2009).
Eu conheço essas classes, e digo com tranquilidade: decorar o nome de cada uma é a sopa de letrinhas dos classificadores. Um mesmo classificador pode ser instrumental e de forma ao mesmo tempo, dependendo do ângulo de quem olha, e cada dia aparece uma nomenclatura nova. Os nomes servem para estudo e para prova de concurso. Para conversar, o que serve é reconhecer o recurso em uso. Outra peça da mesma gramática que o português resolve de outro jeito são os pronomes em Libras, que têm o próprio artigo.
Classificador é mímica?
Não. Mímica é linguagem de teatro, feita sem gramática. O classificador é um recurso da língua de sinais: tem peças que já significam algo, tem convenção entre os surdos e serve para montar frase, criar sinal novo e até dizer ideia abstrata. Ele aparece na conversa do dia a dia e na poesia em Libras.
A pantomima que eu vi num congresso
Eu já vi uma pantomima de perto. Num congresso, entrou um homem correndo meio desengonçado, como se um cachorro o puxasse pela coleira. Não havia cachorro nem coleira, só um fio que ele segurava. O congresso inteiro ria, e você imaginou a cena só de ler.
Repare no que faltou: ninguém precisou conhecer uma língua de sinais para entender, e ninguém poderia montar uma frase nova a partir dali. Na Libras, cada parte de uma cena (o formato do objeto, o lugar, o movimento) já tem sentido próprio e combina com as outras.
O rosto também faz parte do classificador, e na escrita ele aparece no próprio bloco.

O professor que achou que Libras eram gestos
Eu interpretava para um aluno surdo da oitava série, hoje nono ano, numa turma lotada. Numa pausa da aula de geografia, o aluno foi até a mesa do professor e pediu para ir ao banheiro. O professor olhou o relógio e respondeu que eram dez horas. O aluno repetiu o pedido, o professor não entendeu de novo e me chamou.
Eu interpretei o pedido, e o professor ficou sem graça. Eram três anos de convivência com esse aluno, com muita conversa minha com ele na sala dos professores, e ele ainda achava que Libras eram gestos que dava para adivinhar. Língua de sinais tem convenção, e é essa convenção que o classificador carrega.
Qual a diferença entre classificador e sinal?
Sinal é a palavra já convencionada pela comunidade surda, com forma fixa. Classificador é o recurso vivo de onde muito sinal nasce. Um mesmo objeto pode ter os dois: o sinal fixo e o classificador do momento. O sinal nomeia a coisa, e o classificador mostra a cena em que ela aparece.
- Sinal: estabelecido pelo uso, com forma fixa, serve a qualquer contexto.
- Classificador: mostra como e onde, muda com a cena.
- A ponte entre os dois: um classificador usado por muita gente, por muito tempo, pode se firmar e virar sinal.
De classificador a sinal
Eu gosto de ver o classificador como o processo natural que a Libras usa para formar sinais novos. Depois de firmado, o sinal congela e guarda a imagem de uma época. No UnilibrasCast eu dou o exemplo de "casa": na minha leitura, o sinal lembra o telhado das casas coloniais antigas e continua o mesmo para quem mora em apartamento. É uma explicação minha, sem pesquisa formal por trás.
Sinal e classificador juntos
Muita gente diz "só uso classificador quando não sei o sinal". Eu penso o contrário: o classificador é o que deixa a sinalização viva, como um filme passando na cabeça de quem vê, e a pessoa fluente usa os dois juntos.
Numa das mentorias, uma pessoa me contou o momento em que descobriu que um sinal que sempre usou era, na verdade, um classificador. O surdo com quem ela conversava juntou sinais e classificadores na mesma frase e a ficha caiu. Eu vivi algo parecido na casa da Raquel, e conto essa cena no artigo sobre decorar regras de gramática.
Como a Escrita de Sinais mostra um classificador?
A Escrita de Sinais registra o classificador como ele é, sem passar pelo português. Um classificador cabe num único bloco de escrita, com a forma e o movimento e, quando faz parte do sentido, o rosto. Por isso dá para ler a cena em Libras direto no papel.
O livro Escrita de Sinais sem Mistérios é um dos quatro do Box Libras Sem Travas. Nele, eu e a Raquel tratamos as expressões não manuais como parte do sentido do sinal, e é por isso que o rosto aparece escrito no próprio bloco, como você viu nas imagens acima.

O livro traz frases e histórias em Libras escritas direto em Escrita de Sinais, e a história faz uso de muitos classificadores. Numa parte dela, um personagem surdo, apaixonado, descreve o cabelo da moça com classificadores, e eu não conto o final para você sentir a emoção ao ler. A cena é lida em Libras, sem tradução para o português no meio.
O campo de pesquisa é real: 41 universidades brasileiras têm dissertação, tese ou TCC dedicado à Escrita de Sinais (SignWriting), segundo o levantamento que eu e a Raquel mantemos. Se você ainda não conhece o sistema, o que é Escrita de Sinais explica em uma leitura.
Por que quem sabe muitos sinais ainda trava na conversa?
Quem sabe muitos sinais trava na conversa porque sinal é só metade da língua de sinais. A outra metade é a gramática, da qual o classificador faz parte. Quem coleciona sinais fica sem o recurso que junta tudo numa cena, e continua refém de cada sinal que esquece na hora de falar.
O que os surdos me ensinaram
Quando eu quis aprender classificadores, perguntei a um surdo que eu coordenava. Ele respondeu: "observa como os surdos se comunicam". Foi um choque. Eu achava que, quanto mais sinal eu soubesse, melhor eu me comunicaria, e a lógica era outra.
Só depois entendi o que ele queria dizer. Quando um surdo fala com ouvinte, ele abaixa o nível: sinaliza mais devagar e mais simples, o que eu chamo de feijão com arroz da Libras. Entre eles, a conversa é outra. Observar essa conversa foi o que mais me ensinou.
O que muda quando o classificador vem primeiro
O jeito tradicional, em nível básico, intermediário e avançado, é o que eu chamo de Libras de mentira: separa tudo em caixinhas e deixa o classificador para o "curso avançado". Em muito lugar esse curso nem existe, e a maioria já desistiu no meio do caminho. Eu penso em classificador como algo que você absorve desde o começo, do jeito que a esponja absorve a água.
O Fluente em Libras em 8 semanas ensina classificadores desde o começo, junto dos sinais. A Andresa Abreu, de Tubarão (SC), estudava havia 5 anos. Em vídeo, ela conta: "Numa viagem que eu fiz pra outro estado, consegui entender tudo que o professor surdo estava fazendo em Libras, em 8 semanas."
Um treino pequeno que eu gosto: recontar uma cena curta de desenho animado com o corpo e as mãos, antes de pensar em como se diz em português. Para ver onde isso se encaixa no caminho todo, o guia de como aprender a Libras mostra o mapa, e montar frases sem decorar ordem de palavras tem o seu próprio artigo.
Perguntas frequentes sobre classificadores em Libras
Classificador é o mesmo que sinal?
Não. O sinal é a palavra já convencionada, com forma fixa. O classificador é o recurso vivo que mostra forma, lugar e movimento numa cena, e muda conforme o que se quer contar. Um classificador usado por muita gente, por muito tempo, pode se firmar e virar sinal.
Quais são os tipos de classificadores?
O texto-base de Língua Brasileira de Sinais III, da UFSC, descreve cinco: descritivos, especificadores, de plural, instrumentais e de corpo (Pizzio et al., 2009). Cada tipo responde a uma pergunta diferente sobre aquilo que se quer dizer, e o mesmo classificador pode mudar de sentido conforme o contexto.
Classificador é mímica ou gesto?
Nenhum dos dois. Mímica é linguagem de teatro, feita sem gramática. O classificador é um morfema da língua de sinais, com significado próprio, convenção entre os surdos e lugar na frase, e por isso pode criar sinal novo e até dizer ideia abstrata.
A Escrita de Sinais consegue registrar classificadores?
Consegue. Um classificador cabe num único bloco de escrita, com a forma e o movimento e, quando faz parte do sentido, o rosto, e dá para ler a cena em Libras direto no papel, sem passar pelo português. Isso vale para uma pessoa caminhando, dois carros lado a lado ou uma multidão em movimento.
Referências
PIZZIO, Aline Lemos; CAMPELLO, Ana Regina e Souza; REZENDE, Patrícia Luiza Ferreira; QUADROS, Ronice Müller de. Língua Brasileira de Sinais III. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2009. (Licenciatura em Letras-Libras na Modalidade a Distância).
