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Sinais em Libras

Pronomes em Libras: onde fica o “ele” de quem não está na sala

Por Madson Barreto

Em língua de sinais, cada pessoa da conversa ganha um lugar no espaço, e o pronome é o caminho até esse lugar.

Madson Barreto

Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

Publicado em
Tempo de leitura
9 min de leitura

Os pronomes em Libras funcionam por lugar. O “eu” é quem está sinalizando, o “você” é a pessoa à frente, e o “ele” ocupa um ponto combinado no espaço, mesmo quando essa pessoa nem está na sala.

O pronome liga a fala a esse ponto, como um endereço, em vez de ser uma palavra solta no meio da frase.

Fica uma pergunta em aberto: como esse ponto é combinado, e o que muda quando a conversa tem duas pessoas, três ou muitas?

Como funcionam os pronomes em Libras?

Os pronomes em Libras dizem quem participa da conversa usando o espaço como mapa. Os estudos brasileiros descrevem três pessoas (quem fala, com quem se fala e de quem se fala) e três números (uma pessoa, duas ou mais de duas), sem marca de gênero. O pronome liga a fala ao lugar de quem ele representa.

Em português, a gente aprende os pronomes como uma tabela, e cada pessoa tem o seu par de palavras:

  • Quem fala: “eu” e “nós”.
  • Com quem se fala: “você” e “vocês”.
  • De quem se fala: “ele/ela” e “eles/elas”.

Quem aprende Libras só pela tabela perde a parte principal, que é o lugar.

Segundo o texto-base do curso de Letras-Libras da UFSC, que apresenta o estudo de Berenz (1996 apud Pizzio, Rezende e Quadros, 2009), os pronomes pessoais da Libras se organizam em três pessoas e três números: singular, dual e mais de dois.

O mesmo texto registra que o sistema não tem marca de gênero. Quando a diferença entre “ele” e “ela” importa, quem sinaliza acrescenta uma informação a mais, separada do pronome.

O “eu” tem sempre o mesmo endereço: a própria pessoa que está sinalizando. O “você” tem o endereço de quem está do outro lado da conversa. Veja como a Escrita de Sinais registra os dois:

O sinal de “eu” em Escrita de Sinais.
O sinal de “eu” em Escrita de Sinais.
O sinal de “você” em Escrita de Sinais.
O sinal de “você” em Escrita de Sinais.

Cada desenho dessas colunas é um grafema, uma peça da Escrita de Sinais. No artigo o que é Escrita de Sinais eu conto como o sistema funciona.

Esse jeito de organizar a conversa faz parte da gramática própria da Libras, independente da gramática do português.

Onde fica o “ele” quando a pessoa não está na sala?

O “ele” de quem está ausente ganha um ponto do espaço, combinado durante a conversa. Com a pessoa presente, o pronome vai direto a ela. Com ela ausente, o ponto passa a valer como ela, e o olhar acompanha esse ponto.

Quando a pessoa está presente e quando não está

Imagine uma conversa entre você e uma colega surda sobre a professora dela, que ficou na outra sala. Enquanto estava ali, o “ela” ia direto a ela. Agora que saiu, a professora ganhou um ponto no espaço, e cada vez que a conversa volta a ela, volta também àquele ponto.

O lugar já diz quem é.

O texto-base da UFSC trata a diferença entre pessoa presente e ausente como distinção gramatical, com efeito na forma do pronome, e descreve o olhar como parte do pronome de terceira pessoa (Pizzio, Rezende e Quadros, 2009).

Nas minhas aulas eu chamo de cenário holográfico esse espaço à frente de quem sinaliza, onde você imagina a cena que quer contar: cada pessoa de quem se fala ganha o seu lugar nele.

Dois registros de “ele/ela”: as setas dentro do círculo apontam para lados diferentes.

“Ele/ela”, primeiro registro.
“Ele/ela”, primeiro registro.
“Ele/ela”, segundo registro. O rosto e o traço embaixo apontam para o outro lado.
“Ele/ela”, segundo registro. O rosto e o traço embaixo apontam para o outro lado.

É pronome ou é dêixis? O debate dos pesquisadores

O mesmo texto registra que os pesquisadores discutem o status dessas formas. Para alguns autores, só existe pronome de primeira pessoa, e as outras pessoas são dêixis, o ato de mostrar um lugar ou uma pessoa, como quando você diz “aquele ali”. Outros dizem que tudo é dêixis, e há quem afirme que a categoria pronominal existe.

A dissertação de Moreira (2007) na USP descreve a dêixis de pessoa na Língua Brasileira de Sinais. Para quem quer conversar, sobra uma coisa: o lugar e o olhar fazem parte do significado da frase.

Por que o espaço evita a confusão que o português tem?

Porque cada pessoa ocupa um ponto diferente, e o pronome aponta o ponto. Em português, o “ele” serve para qualquer pessoa de quem se fale, e o leitor precisa adivinhar quem é. Em Libras, o lugar já responde. A dúvida que o português deixa aberta, o espaço costuma fechar.

Veja uma frase que faria qualquer professor de português levantar a sobrancelha: “Paulo contou a João que sua mulher caiu.” A mulher de quem? Do Paulo ou do João? O português deixa as duas leituras abertas.

O texto-base da UFSC mostra que, em Libras, Paulo e João já ocupam lugares diferentes no espaço, e por isso o “dele” retoma um deles sem sobra de dúvida (Pizzio, Rezende e Quadros, 2009).

Nem tudo se resolve pelo espaço, e o mesmo texto diz isso. No possessivo, o “dele” que indica posse, Berenz (1996) encontrou casos em que a leitura continua ambígua na Libras.

E, numa conversa real, os estudos que o texto resume, feitos sobre línguas de sinais em geral, registram que raramente se usam mais de quatro ou cinco lugares diferentes para os pronomes, porque a memória e a atenção de quem assiste têm limite.

É por essa lógica de espaço que montar frase em Libras palavra por palavra não funciona: a frase acontece no espaço, com várias informações ao mesmo tempo, e o pronome é uma delas.

Como a Libras diferencia “nós dois” de “nós”?

O número de pessoas mora dentro do pronome. Os estudos descrevem singular, dual (duas pessoas) e mais de dois. Na primeira pessoa do plural, separam o “nós” que inclui quem escuta do “nós” que deixa essa pessoa de fora. Em português, precisamos de palavras extras, como “dois” ou “todos”.

Pense na diferença entre “nós vamos ao mercado” dito para a sua irmã e dito para a vizinha que ficou de fora do convite. Em português, a frase é a mesma. Em Libras, a forma do pronome já avisa se você está incluído ou não (Pizzio, Rezende e Quadros, 2009).

Veja o “nós” e o “nós dois” em Escrita de Sinais. Compare as duas imagens: os grafemas de movimento, na parte de baixo, são diferentes.

O sinal de “nós” em Escrita de Sinais.
O sinal de “nós” em Escrita de Sinais.
O sinal de “nós dois” em Escrita de Sinais.
O sinal de “nós dois” em Escrita de Sinais.

Na Escrita de Sinais, a diferença de número não fica escondida numa palavra a mais. Aparece como diferença de grafema, à vista de quem lê.

Como a Escrita de Sinais mostra quem é quem no papel?

A Escrita de Sinais registra o espaço em colunas verticais, e por isso o pronome aparece no papel com lugar, direção e número visíveis. É o que eu chamo de visogramática: uma gramática que se lê por posições, direções e movimentos, e não por palavras enfileiradas.

No livro Escrita de Sinais sem Mistérios, a Raquel e eu explicamos que todas as línguas têm um jeito de retomar quem já entrou na conversa. Na fala, usamos pronomes.

Na sinalização, isso acontece pelo espaço: quem sinaliza indica pessoas, lugares e tempos, e retoma essas indicações depois, com apontamentos, inclinação do corpo, olhar e classificadores (Barreto e Barreto, 2025).

Por isso a escrita precisa guardar tudo isso com precisão, e o formato em colunas verticais é o que melhor permite fazer isso.

Olhe de novo as seis imagens deste artigo. Nenhuma tem uma palavra escrita. Mesmo assim, dá para ver que os dois registros de “ele/ela” apontam para lados diferentes, e que “nós dois” tem cara diferente de “nós”.

Para quem estuda Libras e para quem sonha em interpretar, ler o espaço no papel é um treino que deixa você parar num detalhe e olhar de novo, quantas vezes quiser. É por aí que passa o Box Libras Sem Travas: os quatro livros que a Raquel e eu escrevemos, onde você aprende a ler e a escrever a língua de sinais.

Por que decorar “eu, você, ele” não basta para conversar?

Porque a tabela responde “qual é o sinal de eu?”, e a conversa faz outra pergunta o tempo todo: “quem é quem agora?”. Quem só decora a tabela tende a juntar sinais na ordem do português e deixa o surdo adivinhar de quem se fala. Quem absorve a lógica do espaço passa a pensar direto em Libras.

O vício que trava a conversa

Eu chamo esse vício de português sinalizado: sinais soltos, na ordem do português, sem espaço nenhum. Eu detesto o português sinalizado, e a maior parte dos surdos também. No artigo o que é o português sinalizado eu explico de onde ele vem.

Nas mentorias, a dor chega de muitas formas, mas quase sempre é a mesma: a pessoa sabe os sinais e trava quando o surdo aparece.

O que muda quando você absorve o espaço

A saída passa por parar de aprender sinal solto e começar a absorver a Libras, como uma esponja na água: você não decora a água, você deixa ela entrar. O espaço é uma das portas de entrada, porque aparece em toda conversa em Libras, o tempo todo.

Fluência, do jeito que eu uso a palavra, é isso: conseguir conversar com surdos no dia a dia, entendendo e se fazendo entender, pensando direto em Libras, sem traduzir do português na cabeça. É o ponto de chegada do Fluente em Libras, e o guia como aprender a Libras mostra o caminho inteiro.

Existe um teste que você faz sozinho, sem pagar nada. Na próxima vez que assistir a uma conversa em Libras, repare para onde vão o olhar e o corpo de quem sinaliza quando fala de alguém que não está lá. Depois volte a este artigo e confira se o “ele” tinha mesmo um endereço.

Perguntas frequentes sobre pronomes em Libras

Os pronomes em Libras têm gênero?

Não têm marca de gênero própria. O mesmo pronome serve para “ele” e para “ela”, e quando a diferença importa, quem sinaliza acrescenta uma informação a mais, separada do pronome (Pizzio, Rezende e Quadros, 2009). Em português, “ele” e “ela” são duas palavras diferentes.

Quais são os tipos de pronomes em Libras?

Além dos pronomes pessoais em Libras (eu, você, ele, nós, vocês, eles), os textos acadêmicos descrevem os pronomes possessivos (o “meu”, o “seu”, o “dele”), que aparecem nas três pessoas do discurso, e os pronomes demonstrativos, que apontam algo, como o “este” e o “aquele” do português.

Todos dependem do espaço e da pessoa de quem se fala.

O pronome em Libras é só apontar?

Apontar é só a parte mais visível. Os estudos incluem o lugar escolhido no espaço e o olhar como parte do pronome de terceira pessoa, e os pesquisadores discutem se essas formas são pronomes de verdade ou dêixis. Para conversar, o essencial é ler o lugar e o olhar juntos.

Como o “nós dois” aparece na Escrita de Sinais?

Aparece com grafemas próprios, diferentes dos do “nós” de mais gente. No exemplo deste artigo, a diferença já aparece nos grafemas de movimento, na parte de baixo da coluna. O número de pessoas fica registrado na própria escrita, sem palavra extra.

Referências

BARRETO, Madson; BARRETO, Raquel. Escrita de Sinais sem Mistérios. 3. ed. rev. atual. e ampl. Salvador: Universidade da Libras, 2025. v. 1.

MOREIRA, Renata L. Uma descrição da dêixis de pessoa na Língua de Sinais Brasileira: pronomes pessoais e verbos indicadores. 2007. Dissertação (Mestrado em Linguística) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

PIZZIO, Aline Lemos; REZENDE, Patrícia Luiza Ferreira; QUADROS, Ronice Müller de. Língua Brasileira de Sinais V. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2009. (Licenciatura e Bacharelado em Letras-Libras na Modalidade a Distância).

Como citar este artigo

Formato ABNT (NBR 6023), para trabalhos acadêmicos.

BARRETO, Madson. Pronomes em Libras: onde fica o “ele” de quem não está na sala. Serra: Universidade da Libras, 2026. Disponível em: https://universidadedalibras.com.br/post/pronomes-em-libras. Acesso em: data em que você lê a página.