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História da Libras

Semana Internacional dos Surdos: quando é e por que em setembro?

Por Madson Barreto

De 21 a 27 de setembro de 2026, a Federação Mundial de Surdos faz 75 anos e pede que o direito à língua de sinais saia do papel.

Madson Barreto

Intérprete e fundador da Universidade da Libras

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A Semana Internacional dos Surdos é a última semana completa de setembro, criada pela Federação Mundial de Surdos e celebrada todo ano.

Em 2026 ela vai de 21 a 27 de setembro.

Cai em setembro porque a Federação nasceu em 23 de setembro de 1951, em Roma, e a semana lembra o mês do primeiro congresso mundial dela. O tema deste ano é "Declarando os direitos humanos das pessoas surdas" (tradução nossa). Falta contar o que esse pedido exige de quem ouve.

Quando é a Semana Internacional dos Surdos em 2026 e o que cai dentro dela?

Em 2026 a semana vai de segunda, 21, a domingo, 27 de setembro. A regra da Federação Mundial de Surdos é a última semana completa do mês, então a data muda todo ano. Dentro dela cabem duas datas de outros donos: o Dia Internacional das Línguas de Sinais, em 23 de setembro, e o Dia Nacional dos Surdos, em 26.

Uma página que traz a semana com data fixa vale para um ano só. Setembro tem três datas que muita gente mistura, e cada uma tem dono e origem próprios:

  • 21 a 27 de setembro: Semana Internacional dos Surdos, da Federação Mundial de Surdos. Em inglês, International Week of Deaf People, e em português aparece também como Semana Internacional das Pessoas Surdas.
  • 23 de setembro: Dia Internacional das Línguas de Sinais, das Nações Unidas. A Assembleia Geral aprovou a data na resolução A/RES/72/161, de 19 de dezembro de 2017, e a primeira celebração foi em 2018. O dia 23 lembra a fundação da Federação, em 1951.
  • 26 de setembro: Dia Nacional dos Surdos, do Brasil, instituído pela Lei 11.796, de 2008. A data remete a 1857, ano em que a primeira escola de surdos do país ganhou existência legal, história que o artigo sobre a Lei 10.436 e o Dia Nacional dos Surdos conta por inteiro.

O Setembro Azul, mês de visibilidade da comunidade surda brasileira, reúne as três datas, e o artigo sobre ele mostra o mês por inteiro.

Por que a semana é sempre no fim de setembro?

Porque a Federação Mundial de Surdos nasceu em 23 de setembro de 1951, em Roma, num congresso com delegações de 25 países, e a semana lembra o mês desse primeiro congresso mundial. A própria Federação conta que a celebração começou em 1958, primeiro como um dia e depois como uma semana.

Pense na sala de Roma. Vinte e cinco delegações, cada uma de um país, decidindo criar uma voz internacional para as pessoas surdas. O italiano Vittorio Ieralla foi eleito o primeiro presidente.

No Brasil, o movimento surdo também se organizava. No mesmo 1951, foi fundada no Rio de Janeiro a Associação de Surdos do Brasil.

Quatro datas contam a história da semana:

  • 1951: nasce a Federação Mundial de Surdos, em Roma.
  • 1958: a Federação conta que a celebração começou, primeiro como um dia, e depois virou semana.
  • 2018: primeira celebração do Dia Internacional das Línguas de Sinais, das Nações Unidas.
  • 2026: a Federação faz 75 anos, e a semana pede que os direitos das pessoas surdas sejam declarados de novo.

Falta um pedaço da história: por que, mais de setenta anos depois de Roma, o pedido continua pedindo resposta? O tema deste ano responde.

Qual é o tema de 2026 e o que ele pede na prática?

O tema de 2026 da Semana Internacional dos Surdos é "Declarando os direitos humanos das pessoas surdas" (tradução nossa de Declaring Deaf People's Human Rights). Coincide com os 75 anos da Federação Mundial de Surdos e os 20 anos da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. O pedido central é acesso pleno pelas línguas de sinais nacionais.

Os 7 dias da semana, um subtema por dia

A Federação deu um subtema para cada dia. A tradução do inglês é nossa:

  • Segunda, 21: 20 anos da Convenção e as línguas de sinais nacionais.
  • Terça, 22: o direito a uma educação de qualidade, multilíngue e inclusiva.
  • Quarta, 23: Declarando os direitos humanos das pessoas surdas.
  • Quinta, 24: nenhum acesso sem a língua de sinais nacional.
  • Sexta, 25: nada sobre nós sem nós.
  • Sábado, 26: cultura surda é um direito humano.
  • Domingo, 27: 75 anos de direitos humanos.

A quinta, dia 24, diz em poucas palavras o que o resto da semana pede: sem língua de sinais nacional, nenhum acesso. A sexta protege que os surdos decidam sobre o que é deles. O sábado protege que a cultura surda exista e seja respeitada.

O que quer dizer "língua de sinais nacional" para quem está no Brasil

Língua de sinais nacional é a língua de sinais da comunidade surda de um país. No Brasil ela tem nome e lei própria: a Libras, que tem gramática própria e é a língua de sinais dos surdos brasileiros.

Cada país tem a sua, e não existe uma língua de sinais universal. A Federação Mundial de Surdos, citada pela ONU, fala em mais de 70 milhões de pessoas surdas no mundo, que usam mais de 300 línguas de sinais diferentes.

Quem levou o direito à língua de sinais para dentro da Convenção da ONU?

O direito à língua de sinais entrou na Convenção da ONU com a ajuda de Liisa Kauppinen, que presidiu a Federação Mundial de Surdos a partir de 1995, a primeira mulher no cargo. Segundo a própria Federação, ela foi especialmente eficaz em garantir que a Convenção citasse línguas de sinais, cultura surda, comunidade surda e a identidade das pessoas surdas.

A jornada dela é a de quem constrói, cargo por cargo. Vice-presidente da Federação em 1983, secretária-geral em 1987, presidente em 1995, presidente emérita desde 2003 e presidente honorária desde 2011. Em 10 de dezembro de 2013, em Nova York, recebeu o Prêmio de Direitos Humanos das Nações Unidas. Entre o primeiro cargo e o prêmio passaram 30 anos.

O que entrou no texto conta: a definição de "língua" da Convenção abrange as línguas faladas e as línguas de sinais.

O Brasil aprovou a Convenção pelo Decreto Legislativo 186, de 9 de julho de 2008, seguindo o mesmo rito usado para emenda constitucional, e a colocou em vigor pelo Decreto 6.949, de 25 de agosto de 2009.

E no Brasil, quem carregou o mesmo pedido?

O que a semana muda para o Brasil, onde a língua de sinais é a Libras?

No Brasil, o pedido de 2026 já tem base legal: a Lei 10.436/2002 reconhece a Libras, o Decreto 5.626/2005 a regulamenta e a Convenção da ONU entrou no país em 2009, pelo rito de emenda constitucional. A semana cobra a distância entre o que a lei diz e o que acontece na sala, na consulta, na reunião.

Três marcos brasileiros mostram o caminho:

  • 2002: a Lei 10.436 reconhece a Libras como meio legal de comunicação e expressão.
  • 2005: o Decreto 5.626 regulamenta a lei.
  • 2009: a Convenção da ONU passa a valer no Brasil pelo Decreto 6.949.

Nenhum desses marcos caiu do céu. O herói dessa parte da história é o próprio movimento surdo brasileiro. Em 16 de maio de 1987, numa assembleia com associações de surdos de vários estados, o grupo surdo venceu a eleição e a entidade nacional virou a Feneis: a virada de uma organização sobre surdos para uma organização de surdos.

Entre 1991 e 2001, o mesmo movimento conquistou nove leis estaduais de reconhecimento da Libras antes da lei federal. São nove leis confirmadas pelo texto oficial de cada Assembleia, sem levantamento de todos os estados. E o começo dessa linha é ainda mais antigo: a primeira escola de surdos do país, hoje o INES, ganhou existência legal em 26 de setembro de 1857, história que o artigo sobre o INES em 1857 conta.

Tudo isso é conquista de quem organizou e insistiu, sem pressa e sem desistir. E aponta para uma última pergunta: com a lei pronta, o que falta acontecer?

Como um direito escrito vira uma conversa de verdade?

Vira conversa quando quem ouve deixa de traduzir do português na cabeça e passa a pensar direto em Libras. A lei, o decreto e a Convenção abrem a porta, mas quem atravessa é a pessoa que sinaliza de volta. Eu aprendi isso sentado num banco de praça, do lado de fora de uma roda de surdos.

Eu estudava Libras havia anos, e a lei já existia. Mesmo assim, numa praça do centro cheia de surdos, sentei num banco e fiquei só olhando eles conversarem. Não tive coragem de chegar. A única frase que eu tinha à mão era pronta, decorada: "estou aprendendo Libras".

A conversa deles corria rápida demais para mim, porque a minha cabeça pensava o tempo todo em português. Direito no papel, conversa nenhuma.

Você já viu um surdo e fez que entendeu. Já disse "estou aprendendo Libras" e ficou nisso. Já esperou o intérprete resolver por você. E é por isso que apoiar a causa surda, em 2026, cabe numa tarefa pequena e concreta: sinalizar de volta.

Pense na esponja. Colocada dentro da água, ela absorve sem esforço. Foi assim que a Raquel, que é surda, poetisa e escritora, e eu montamos o método Fluente em Libras em 8 semanas: em vez de decorar sinais soltos, você entra na água da língua de sinais e absorve. Para quem segue todas as etapas, a semana 6 é o marco em que o pensamento passa a ser direto em Libras.

Olhe a fila inteira. Adolphe Édouard Huet, o professor da primeira escola de surdos do Brasil, segundo a história do INES. Depois, o movimento surdo e a Feneis. Depois, Liisa Kauppinen levando o pedido às Nações Unidas. A etapa que sobrou para mim, para a Raquel e para quem tem um surdo na família ou no trabalho é a mais concreta: formar gente que responde, em Libras, do outro lado da conversa.

Você pode começar pela pessoa surda que já está perto de você, na família ou no trabalho. O caminho passa por pensar direto em Libras, e o guia de como aprender a Libras organiza esse começo. O artigo sobre o Setembro Azul mostra o mês inteiro.

Perguntas frequentes sobre a Semana Internacional dos Surdos

Uma pessoa ouvinte pode participar da Semana Internacional dos Surdos?

Sim. A Federação Mundial de Surdos celebra a semana com a comunidade surda do mundo todo e chama à participação famílias, intérpretes profissionais de língua de sinais e outras organizações. Em 2026, a página da semana dá destaque às organizações lideradas por surdos.

Qual a diferença entre a Semana Internacional dos Surdos, o Dia Internacional das Línguas de Sinais e o Dia Nacional dos Surdos?

A semana, de 21 a 27 de setembro de 2026, é da Federação Mundial de Surdos. O Dia Internacional das Línguas de Sinais, em 23 de setembro, é das Nações Unidas. O Dia Nacional dos Surdos, em 26 de setembro, é do Brasil. O artigo sobre o Setembro Azul mostra como as três se encontram.

A Semana Internacional dos Surdos é sempre na mesma data?

Não. Ela acontece na última semana completa de setembro, então muda todo ano. Em 2026, vai de 21 a 27. A Federação conta que a celebração começou em 1958, primeiro como um dia, e que depois ela virou uma semana.

Por que o tema de 2026 fala em língua de sinais nacional?

Porque cada país tem a sua língua de sinais, e o direito de acesso depende de a pessoa ser atendida na língua de sinais do país onde vive. No Brasil, a língua de sinais nacional é a Libras. Uma língua de sinais universal não existe, como o artigo sobre a Libras e as línguas de sinais do mundo explica.

Referências

BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 2005.

BRASIL. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009. Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 ago. 2009.

BRASIL. Decreto Legislativo nº 186, de 9 de julho de 2008. Aprova o texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jul. 2008.

BRASIL. Lei nº 939, de 26 de setembro de 1857.

BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais, Libras, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 25 abr. 2002.

BRASIL. Lei nº 11.796, de 29 de outubro de 2008. Institui o Dia Nacional dos Surdos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 30 out. 2008.

FEDERAÇÃO MUNDIAL DE SURDOS. Our Story; International Week of Deaf People 2026; Former WFD President Liisa Kauppinen receives 2013 United Nations Human Rights Award Prize. [S. l.]: WFD, 2013 a 2026.

FEDERAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E INTEGRAÇÃO DOS SURDOS. O que é a Feneis. Rio de Janeiro: Feneis, [s. d.].

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Resolução A/RES/72/161: International Day of Sign Languages. Nova York: ONU, 19 dez. 2017.