Pular para o conteúdo

Intérprete de Libras

Profissão tradutor e intérprete de Libras: como ela funciona hoje, na lei e no trabalho

Por Madson Barreto

O que faz, o que a Lei 14.704 diz, quantas horas trabalha, quanto ganha e como começar, contado por quem interpreta desde 2007.

Madson Barreto

Escritor, Mentor e Intérprete de Libras

Publicado em
Tempo de leitura
12 min de leitura

A profissão de tradutor e intérprete de Libras é regulamentada por lei: a Lei 12.319, de 2010, na redação que a Lei 14.704, de 2023, lhe deu. O profissional traduz e interpreta entre a Libras e o português, em qualquer lugar onde uma pessoa surda precise conversar com quem não sabe língua de sinais. Trabalha em escola, hospital, evento e órgão público, com jornada de 6 horas por dia.

Eu interpreto desde 2007. Reuni aqui o que a lei diz, como o trabalho funciona na prática e onde cada assunto tem artigo próprio, para você seguir no tema que mais pesa na sua decisão.

O que faz um tradutor e intérprete de Libras?

O tradutor e intérprete de Libras faz a comunicação acontecer entre pessoas surdas e pessoas ouvintes, e também entre surdos que usam línguas de sinais diferentes. Ele leva a mensagem da Libras para o português, ou do português para a Libras, ao vivo ou em texto, sem tomar partido na conversa e sem mudar o que foi dito.

A lei descreve o trabalho assim: o artigo 6º da Lei 12.319, com a redação da Lei 14.704, lista três atribuições:

  • Intermediar a comunicação entre surdos e ouvintes, da Libras para o português falado e no sentido contrário.
  • Intermediar a comunicação entre surdos e surdos, da Libras para outra língua de sinais e no sentido contrário.
  • Traduzir textos escritos, falados ou sinalizados, do português para a Libras e para outras línguas de sinais, e no sentido contrário.

A mesma lei traz o guia-intérprete, o profissional que domina ao menos uma das formas de comunicação usadas por pessoas surdocegas. E o artigo 7º pede rigor técnico, respeito à pessoa e imparcialidade e fidelidade ao conteúdo que cabe traduzir e interpretar.

Na prática, isso quer dizer que o intérprete não opina, não resume por conta própria e não escolhe o que o surdo vai ouvir. Ele carrega o sentido inteiro, e por isso a profissão pede preparo de verdade.

Uma dúvida comum é se tradutor e intérprete são dois profissionais. A lei fala de uma só profissão, e o caminho para entender a diferença entre traduzir um texto e interpretar ao vivo está em diferença entre tradutor e intérprete de Libras.

Onde o intérprete de Libras trabalha hoje?

O intérprete de Libras trabalha em qualquer lugar onde uma pessoa surda precise se comunicar com quem não sabe língua de sinais. A lei diz isso com essas palavras, em "qualquer área ou situação". Na minha experiência e nas mentorias, cinco áreas concentram a maior parte do trabalho.

  • Educação: escola e universidade, ao lado do aluno surdo durante a aula.
  • Saúde: consulta, exame e atendimento em clínica e hospital.
  • Eventos: palestra, congresso, culto, casamento, formatura e show.
  • Empresas: reunião, treinamento e atendimento ao público surdo.
  • Órgãos públicos: prefeitura, câmara, atendimento ao cidadão e área jurídica.

Essas cinco áreas são as que mais aparecem no meu dia a dia de intérprete e de mentor, e não uma contagem oficial de vagas.

Eu passei por várias delas. Fui aprovado numa banca para ser intérprete educacional numa escola pública municipal, com alunos surdos da 6ª à 8ª série, cerca de quatro horas por dia. Interpretei casamento, formatura universitária, atendimento médico e audiência judicial, e nessa audiência o juiz, com mais de trinta anos de carreira, nunca tinha feito uma audiência com intérprete de Libras.

Cada lugar muda o vocabulário, o ritmo e o tipo de contrato. A sala de aula é o lugar onde mais gente começa, e o dia a dia dela tem artigo próprio: intérprete educacional de Libras.

O que a Lei 14.704/2023 diz sobre a profissão?

A Lei 14.704, de 25 de outubro de 2023, mudou a Lei 12.319 e passou a dizer que o exercício da profissão de tradutor, intérprete e guia-intérprete é privativo de quem tem uma entre três formações. A ementa da lei já traz o verbo que resume tudo: ela "regulamenta a profissão".

As três formações do artigo 4º são estas:

  • Inciso I: curso de educação profissional técnica de nível médio em Tradução e Interpretação em Libras.
  • Inciso II: curso superior de bacharelado em Tradução e Interpretação em Libras e Língua Portuguesa, em Letras com habilitação em Tradução e Interpretação em Libras ou em Letras-Libras.
  • Inciso III: formação em outra área de conhecimento, somada a um curso de extensão, de formação continuada ou de especialização de no mínimo 360 horas, mais a aprovação em exame de proficiência em tradução e interpretação em Libras e Língua Portuguesa.

O artigo 3º da mesma lei mantém autorizado quem já estava habilitado pelas regras anteriores. E, por seis anos a partir da publicação, quem concluir uma das formações da redação original do artigo 4º ainda pode exercer as atividades. A lei também revogou o artigo 5º da lei de 2010, aquele que previa o exame nacional de proficiência até 2015.

Antes de qualquer lei, essa profissão já existia pelas mãos de familiares de surdos e de voluntários de igreja, o que conto no artigo do Dia do Intérprete de Libras. Eu mesmo fui uma das pessoas ouvidas numa pesquisa nacional do Ministério do Trabalho sobre como funciona a profissão. Na ligação me disseram que o objetivo era gerar o reconhecimento profissional da categoria, e a lei de 2010 foi um dos passos seguintes desse caminho, na minha leitura.

Cada inciso tem exigências próprias e serve a um ponto de partida. Quem quer o mapa completo das três portas encontra tudo em intérprete de Libras precisa de faculdade.

Que curso fazer para ser intérprete de Libras?

O curso que você faz depende do ponto de partida, e a lei lista quais entram: o técnico de nível médio, o bacharelado da área, ou a formação em outra área com curso de 360 horas ou mais e exame de proficiência.

Quem já tem graduação em outra área se encaixa no inciso III, e a pós-graduação com carga horária de 360 horas entra nessa conta. A leitura inciso por inciso, com as contas de horas, está em pós-graduação para ser intérprete de Libras. O que comprova proficiência hoje, depois do fim do exame nacional, eu expliquei em o que comprova proficiência em Libras depois do Prolibras.

Eu conheço a trilha formal por dentro: fui aprovado no primeiro Prolibras, trabalhei como aplicador do exame e depois me formei em Letras-Libras.

Existe também uma pergunta que vem depois da escolha do curso, e ela decide o seu resultado: numa situação real, com uma pessoa surda na sua frente e o assunto chegando sem aviso, o que você entrega?

O guia geral do caminho, do primeiro passo ao primeiro trabalho, está em como se tornar intérprete de Libras, e a comparação entre as opções de curso está em curso de intérprete de Libras.

Quantas horas por dia trabalha um intérprete de Libras?

Um intérprete de Libras trabalha 6 horas por dia ou 30 horas por semana. É o artigo 8º-A da Lei 12.319, incluído pela Lei 14.704. E o parágrafo único diz que o trabalho de tradução e interpretação com mais de 1 hora de duração deve ser feito em revezamento, com no mínimo 2 profissionais.

Vale ler a segunda parte com calma. A jornada de 6 horas é o limite do dia. O revezamento vale para cada trabalho que passa de 1 hora, e cabe a você conhecer essa regra antes de dizer sim.

Na minha rotina de intérprete já tive dias apertados, com escola de manhã, evento num hotel à tarde e outro evento à noite. Eu sei o quanto a mente cansa quando o revezamento não existe.

O tema tem artigo inteiro, com as perguntas que eu faria antes de aceitar um trabalho longo: jornada de 6 horas do intérprete de Libras.

Quanto ganha um intérprete de Libras?

Depende de como o trabalho é pago. No que eu vejo no mercado, a hora de interpretação avulsa fica entre R$ 80 e R$ 300, como referência da minha experiência, sem pesquisa formal. Com carteira assinada a conta muda, porque o salário é mensal e paga a jornada inteira, com a espera no meio.

O valor de cada hora muda com a cidade, o tipo de evento, o nível de preparo e a experiência. Numa exposição de quadros em Salvador, eu recebi R$ 250 por uma hora de interpretação. Meses depois a coordenadora me chamou de novo, dessa vez por duas horas, e pagou R$ 750. Foi a interpretação bem-feita, vista por quem contrata, que abriu a segunda porta.

Esse é um relato de dois trabalhos, e não uma média do mercado. Serve para mostrar uma coisa: quem contrata paga pelo que confia que você entrega, e a confiança vem da qualidade do trabalho e de quem já viu você atuar.

A conta completa, com a base de cada número, está em quanto ganha um intérprete de Libras.

Onde estão as vagas de intérprete de Libras?

As vagas de intérprete de Libras aparecem por quatro caminhos: portais de emprego, concursos e seleções públicas, empresas de acessibilidade que contratam por evento e indicação de quem já viu você trabalhar. O quarto caminho não aparece em portal nenhum, e por isso ele surpreende quem só olha anúncio.

Na minha trajetória, muitas portas vieram por indicação, inclusive de surdos líderes que conheciam o meu trabalho. Outra veio por banca, a da escola municipal. E outras vieram de pessoas que me viram interpretar e me chamaram para o evento seguinte.

Cada tipo de vaga pede uma postura diferente: no concurso, a prova prática; no evento, a confiança de quem contrata; na escola, a rotina com o aluno. Nas mentorias, um medo que aparece em vários tipos de vaga é o assunto que chega sem aviso, como numa prova ou numa palestra. Os anúncios mudam de nome, de contrato e de exigência de semana em semana, e o passo a passo de leitura está em vagas de intérprete de Libras.

Por que quem sabe Libras ainda trava ao interpretar?

Porque saber Libras e interpretar são duas habilidades diferentes. Na conversa você acompanha um ritmo e responde. Na interpretação você ouve em português, entende o sentido e leva esse sentido para a Libras enquanto a fala continua. A segunda pede treino próprio, e sem ele o branco aparece no pior momento.

Eu tive o erro mais comum da profissão por anos: achava que interpretar era passar tudo o que eu ouvia em português para a Libras palavra por palavra, sinal por sinal. Havia momentos em que eu ficava ansioso, suando diante do surdo, sabendo que era algo importante e sem conseguir transmitir direito. Só anos depois descobri que estava fazendo errado.

Esse travamento aparece nas mentorias com outro rosto. O John Cleyton trabalhava numa loja de revenda de colchões e queria ser intérprete para melhorar a renda. Ele tinha decorado uma quantidade grande de sinais e fez até uma lista para contá-los. Numa banca, travou: não entendeu a sinalização dos surdos e não conseguiu passar do português para a Libras. Ele fez o meu método, e depois foi aprovado numa banca de intérprete. Se você quer entender o método, veja o Método Fluente em Libras em 8 semanas.

Uma amostra pequena do que muda o jogo: antes de aceitar um trabalho, peça o tema e o material com antecedência e pergunte quanto tempo você vai interpretar sem pausa. O passo a passo completo, de cada situação, é conteúdo de mentoria e não cabe num artigo.

Para o branco no meio da interpretação existe um artigo só sobre isso: como parar de travar ao interpretar em Libras. Quem quer se preparar para um evento encontra o caminho em como se preparar para interpretar um evento em Libras, e o sentido da Libras para o português está em como interpretar da Libras para o português.

Como se preparar para atuar como intérprete de Libras com segurança?

A segurança na profissão vem de três coisas que crescem juntas: o domínio da Libras, o preparo para cada tipo de situação e a prática guiada, com alguém que veja o seu trabalho e devolva o que viu. Sozinho, o erro só aparece quando um surdo deixa de entender a mensagem, e aí ele já aconteceu.

Para a base do ofício, reuni no livro Tradução e Interpretação de Libras sem Mistérios as habilidades que sustentam o trabalho: preparação, memorização, concentração, cultura surda e ouvinte, interpretação simultânea e o que fazer quando dá branco.

O passo seguinte é levar isso para a sua rotina, a sua cidade e o seu tipo de trabalho. É o que eu faço com quem me procura para a Mentoria Maestria na Libras, onde a prática, a técnica e a confiança são treinadas com acompanhamento e cada interpretação recebe devolutiva.

Você pode começar pelo conteúdo que mais pesa hoje: a formação, as vagas, a jornada ou o travamento. Nos quatro casos, o próximo passo é o mesmo: agir na situação real, com alguém que enxergue o que você entrega.

Perguntas frequentes

Qual é a profissão de tradutor e intérprete de Libras?

É o trabalho de quem traduz e interpreta entre a Libras e o português, e também entre línguas de sinais diferentes. Está regulamentada pela Lei 12.319, de 2010, com a redação da Lei 14.704, de 2023, e vale em qualquer área onde pessoas surdas ou surdocegas precisem se comunicar com quem não usa Libras.

O que a lei diz sobre quem pode ser intérprete de Libras?

O artigo 4º diz que a profissão é privativa de quem tem curso técnico de nível médio em Tradução e Interpretação em Libras, bacharelado da área, ou formação em outra área somada a curso de no mínimo 360 horas e exame de proficiência. O artigo 3º mantém autorizado quem já estava habilitado.

Quantas horas um intérprete de Libras trabalha por dia?

São 6 horas por dia ou 30 horas por semana, segundo o artigo 8º-A. Interpretação com mais de 1 hora de duração deve ter revezamento de no mínimo 2 profissionais. Numa vaga que descreve oito horas sozinho, vale perguntar quem reveza com você antes de aceitar.

Quanto ganha um intérprete de Libras por hora?

No que eu vejo no mercado, a hora avulsa de interpretação fica entre R$ 80 e R$ 300, como referência da minha experiência, sem pesquisa formal. O valor muda com a cidade, o tipo de trabalho e a experiência, e no trabalho com carteira a conta é mensal.

Intérprete de Libras precisa saber falar português e Libras?

Precisa dominar as duas, porque interpretar é levar o sentido da Libras para o português e do português para a Libras, ao vivo. Saber conversar em Libras é a base. O que faz a diferença na profissão é o treino de interpretar, que dá segurança quando o assunto chega sem aviso.

Como citar este artigo

Formato ABNT (NBR 6023), para trabalhos acadêmicos.

BARRETO, Madson. Profissão tradutor e intérprete de Libras: como ela funciona hoje, na lei e no trabalho. Salvador: Universidade da Libras, 2026. Disponível em: https://universidadedalibras.com.br/post/profissao-tradutor-e-interprete-de-libras. Acesso em: data em que você lê a página.